O que durante anos foi tratado como descarte pela indústria de suco de laranja pode ganhar uma nova função e se transformar em matéria-prima para diferentes setores.
Um estudo realizado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificou compostos de interesse industrial em cascas, sementes, bagaço e água residual gerados durante o processamento da fruta.
Entre as substâncias encontradas estão a hesperidina, o D-limoneno e o valenceno, compostos que apresentam diferentes aplicações e podem ser utilizados na produção de itens de maior valor agregado.
Publicado na revista científica Foods, o trabalho mostra que esses resíduos podem ser aproveitados por meio de técnicas que seguem princípios da química verde, reduzindo a necessidade de processos agressivos e ampliando as possibilidades de reaproveitamento da biomassa.
Um dos principais resultados foi a recuperação da hesperidina, obtida com pureza de 87,66% por ressonância magnética nuclear e de 84,30% por cromatografia.
Os índices demonstram a viabilidade técnica da extração do composto a partir dos resíduos da cadeia produtiva.
Resíduos da laranja escondem compostos de interesse
A indústria citrícola gera grande volume de resíduos a cada safra, mas boa parte desse material não era aproveitada quimicamente.
Antonio Gilberto Ferreira, do Departamento de Química da UFSCar, e sua colega Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva investigaram métodos alinhados aos princípios da química verde para recuperar esses compostos sem processos agressivos ao meio ambiente.
A hesperidina, um flavonoide com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, figura como o destaque entre os achados.
Além dela, os pesquisadores identificaram alfa-pineno, sabineno, beta-mirceno e linalol, com aplicações industriais distintas ainda não exploradas comercialmente.
Tecnologia que não destrói, apenas recupera
A complexidade química desses resíduos exigiu soluções sofisticadas, e a ressonância magnética nuclear permitiu analisar as misturas com mínima preparação das amostras e preservar a integridade química dos compostos.
Cromatografia complementou o trabalho, separando e identificando cada substância presente ao longo da cadeia produtiva.
A extração assistida por micro-ondas incorporada à pesquisa reduziu etapas de processamento e recuperou bioativos diretamente da biomassa residual, uma abordagem mais eficiente e ambientalmente adequada.
A combinação dessas técnicas permitiu rastrear hesperidina, D-limoneno e valenceno inclusive no bagaço, identificando quais frações tinham maior potencial de aproveitamento.
A água amarela como fonte de lucro
A análise da água amarela, líquido gerado na etapa final do processamento, revelou níveis significativos de limoneno.
Com a descoberta, os pesquisadores puderam apontar esse terpeno como o principal responsável por travar a fermentação, etapa indispensável para tratar a biomassa antes de descartá-la corretamente.
Esse subproduto, tradicionalmente descartado, revelou-se um reservatório de compostos valiosos e pode transformar um custo em receita para produtores e indústrias.
FAPESP e CNPq financiaram a pesquisa, que contou ainda com a participação de Vânia G. Zuin Zeidler, pesquisadora do Institute of Sustainable Chemistry, na cidade alemã de Lüneburg.
Os resultados indicam que os resíduos hoje descartados podem gerar renda e mudar a forma como a cadeia produtiva da laranja no Brasil aproveita seus subprodutos.













