Um grupo de cientistas da Embrapa encontrou, em raízes de algodão arbóreo, bactérias com capacidade de fixar nitrogênio, e depois aplicou esses microrganismos em plantas de algodão herbáceo, variedade cultivada em escala comercial.
O achado, fruto da investigação desses microrganismos presentes nas raízes do algodão arbóreo, sinaliza uma alternativa para diminuir a dependência de fertilizantes químicos vindos de outros países.
Trata-se de um passo relevante rumo à criação de bioinsumos mais sustentáveis para a agricultura.
Conhecidas como diazotróficas, essas bactérias transformam o nitrogênio presente na atmosfera em compostos que as plantas conseguem aproveitar como nutriente. Esse mecanismo já é amplamente usado em culturas como a soja.
Até então, esse mecanismo não era viável em culturas como o algodão, embora seja usado na soja há anos.
Identificação de bactérias nas raízes de algodão
O isolamento de bactérias diazotróficas nas raízes do algodão arbóreo marcou o ponto de partida da pesquisa. A espécie também é conhecida como algodão ancestral ou algodão de quintal.
Os microrganismos foram então testados em plantas de algodão herbáceo, cultivado comercialmente em larga escala.
A primeira etapa dos experimentos ocorreu em 2025, em uma unidade voltada ao cultivo de algodão no Cerrado, mantida pela Embrapa Arroz e Feijão, em Goiás.
Sem adubação nitrogenada, as plantas apresentaram desenvolvimento equivalente ao das que receberam a dose recomendada de fertilizante nitrogenado para o Cerrado.
O experimento ocorreu em ambiente controlado, com plantas cultivadas em vasos individuais dentro de casas de vegetação.
Impacto para a agricultura Brasileira
A possibilidade de substituir ou reduzir adubos nitrogenados pode beneficiar diferentes tipos de agricultura.
Para a agricultura orgânica, que não pode utilizar adubo nitrogenado convencional, a inoculação de bactérias representa uma solução potencial.
Para a agricultura convencional, a tecnologia pode reduzir a dependência de insumos importados.
O Brasil importa 95% do adubo nitrogenado usado nas lavouras, o que deixa a produção vulnerável às oscilações do mercado internacional. A pesquisa é coordenada pela pesquisadora Lúcia Hoffmann, em parceria com a Embrapa Agrobiologia (RJ).
Hoffmann trabalha há 24 anos no mapeamento e na catalogação de espécies arbóreas brasileiras.
Entre elas estão:
- Algodão nativo brasileiro (Gossypium mustelinum), encontrado em áreas de preservação ambiental da Paraíba, de Pernambuco e em matas ciliares na Bahia;
- Algodão mocó, amplamente cultivado até a década de 1980 na região semiárida;
- Gossypium barbadense, cultivado em quintais e jardins em todo o Brasil.
Próximos passos da pesquisa
Os pesquisadores pretendem aprofundar os estudos para identificar e caracterizar novas estirpes de bactérias diazotróficas que possam compor futuros bioinsumos para o cultivo do algodão e de outras culturas agrícolas.
As raízes profundas do algodão arbóreo ajudam a conservar o solo e melhoram o aproveitamento de água e nutrientes por meio da simbiose com fungos e bactérias.
As bactérias diazotróficas isoladas também apresentam propriedades como síntese de fitormônios, antagonismo a patógenos e mitigação do estresse hídrico.
Essas características podem contribuir para aumentar a produtividade em condições climáticas.













