A crise no campo já chegou às cidades. Cinco municípios do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, decretaram situação de emergência econômica no setor agropecuário entre agosto e setembro de 2026, diante da combinação de custos elevados, juros, perdas climáticas, restrições de crédito e preços insuficientes para cobrir as despesas. Ibiá, Rio Paranaíba, São Gotardo, Serra do Salitre e Patrocínio reconheceram oficialmente a dificuldade enfrentada pelos produtores.
O impacto ultrapassa as propriedades rurais. Com menos renda no campo, produtores reduzem compras de insumos, máquinas e serviços, afetando lojas, oficinas, transportadoras, prestadores de serviço e empregos ligados ao agronegócio.
Quando a conta não fecha
Alho
- São Gotardo: custo de produção de até R$ 13,30/kg.
- Ibiá: custo de até R$ 16,30/kg.
- Preço recebido: cerca de R$ 11/kg nos dois municípios.
- Prejuízo estimado: R$ 70 mil/ha em São Gotardo e R$ 71,5 mil/ha em Ibiá.
- Financiamento: cerca de 53% do custo de produção do alho é financiado.
Soja
- São Gotardo: preço de aproximadamente R$ 114/saca.
- Custo de nivelamento: entre R$ 141 e R$ 146/saca.
Milho
- Milho safrinha: preço de cerca de R$ 57/saca.
- Custo de produção: entre R$ 82 e R$ 86/saca.
Cebola
- Custo operacional: até R$ 90 mil/ha.
- Preço recebido: chegou a aproximadamente R$ 0,76/kg.
- Custo estimado: R$ 1,37/kg.
Outras culturas afetadas
- Grãos: soja, milho, feijão e trigo.
- Hortaliças: alho, cebola, batata e cenoura.
- Outras atividades: café e pecuária leiteira.
Perdas climáticas
- Seca
- Geada
- Granizo
- Vendavais
- Chuvas irregulares
- Em São Gotardo, houve registro de chuvas superiores a 100 mm em fevereiro, associadas a problemas nas lavouras.
Pecuária leiteira
- Custos de produção elevados
- Margens menores
- Dificuldades de comercialização
- Concorrência de produtos importados, incluindo leite de outros países.
O efeito chega às cidades
A redução da renda rural diminui a circulação de dinheiro nos municípios. O produtor que trabalha com prejuízo pode adiar investimentos, comprar menos insumos e contratar menos serviços. O resultado aparece no faturamento de empresas que dependem direta ou indiretamente da atividade agrícola.
Em Patrocínio, que decretou emergência em 17 de setembro, o documento cita perdas climáticas, quebra de safras, aumento dos custos, fertilizantes mais caros, juros elevados e restrições de crédito. O município foi o maior produtor de café do Brasil em 2024, com 64,2 mil toneladas.
O que os decretos fazem
Os cinco decretos têm validade inicial de 180 dias e podem ser utilizados pelos produtores como documentação em negociações com bancos, cooperativas e fornecedores.
A medida, porém, não perdoa dívidas, não suspende automaticamente parcelas e não obriga credores a aceitar renegociações. O principal efeito é reconhecer oficialmente a situação excepcional enfrentada pelo setor.













