Pesquisadores do Roslin Institute, da Universidade de Edimburgo, usaram edição genética para criar porcos resistentes à febre suína clássica, uma doença viral altamente contagiosa e potencialmente fatal. Em testes de laboratório, os animais modificados permaneceram saudáveis mesmo após serem expostos ao vírus, enquanto os porcos não editados desenvolveram os sinais típicos da infecção.
Também conhecida como cólera suína ou peste suína clássica, a doença pode provocar febre, lesões na pele, diarreia e convulsões. Nas formas mais graves, os animais podem morrer em cerca de 15 dias após a infecção.
A doença foi erradicada do Reino Unido em 1966, mas continua presente em diferentes partes do mundo e representa uma ameaça à produção de suínos. Em países onde o vírus circula, como China, Rússia e Brasil, o controle envolve medidas como vacinação, vigilância sanitária e restrições à movimentação e ao comércio de animais.
Edição genética oferece proteção contra febre suína clássica
Os cientistas buscaram uma forma de impedir que o vírus utilizasse as próprias células do porco para se multiplicar. O alvo foi o DNAJC14, gene que produz uma proteína essencial para o ciclo de replicação dos pestivírus.
A equipe utilizou a técnica CRISPR-Cas9 para alterar uma região do gene ainda nos embriões dos animais. O objetivo era impedir uma etapa necessária para que o vírus produza suas proteínas e avance no processo de replicação.
Os testes apresentaram resultados expressivos:
- Células dos porcos editados não permitiram a replicação do vírus da peste suína clássica;
- As mesmas células também bloquearam a replicação do vírus da diarreia viral bovina;
- Porcos adultos com o DNAJC14 alterado não apresentaram sinais clínicos após a exposição ao vírus da peste suína clássica;
- Não foi detectado RNA viral no sangue ou nos tecidos dos animais editados;
- Os animais permaneceram saudáveis e não foram observadas alterações evidentes relacionadas à edição genética.
Nos animais de controle, que não passaram pela edição, a exposição ao vírus provocou sinais característicos da doença e presença do vírus no organismo.
Implicações para o controle de doenças em rebanhos
O resultado pode abrir caminho para uma nova abordagem contra doenças infecciosas em animais de produção. Em vez de modificar o vírus, a estratégia altera um componente do próprio animal que o patógeno precisa para se multiplicar.
A tecnologia ainda é experimental. O estudo foi classificado como nível de prontidão tecnológica 4, e novos trabalhos serão necessários para avaliar saúde, bem-estar e desempenho dos animais antes de uma possível aplicação comercial.
A edição também bloqueou, em testes celulares, o vírus da diarreia viral bovina, outro pestivírus. Isso indica um possível uso da estratégia contra vírus relacionados em outras espécies. A técnica não substituiria vacinação, vigilância sanitária e biossegurança, mas poderia funcionar como ferramenta adicional no controle dessas doenças.













