Uma pequena parcela das árvores da Amazônia exerce um papel muito maior do que o esperado na recuperação de áreas desmatadas. Um estudo liderado por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi descobriu que apenas 15 a 25 espécies, cerca de 3% a 6% das analisadas, concentram mais da metade da abundância de árvores e do carbono armazenado nas florestas secundárias.
O resultado pode ajudar a tornar projetos de restauração mais eficientes, pois essas espécies atuam como um “motor” da regeneração natural, ocupando rapidamente terrenos degradados e criando condições para o estabelecimento de outras plantas.
O estudo, intitulado Hyperdominance and Rarity in Amazonian Secondary Forests, foi publicado em 16 de junho de 2026 na revista Global Change Biology.
Espécies pioneiras na regeneração pós-desmatamento da Amazônia
Para identificar esse padrão, os pesquisadores analisaram 102 parcelas de florestas secundárias em quatro regiões da Amazônia Oriental, separadas por cerca de 600 quilômetros, reunindo dados de mais de 25 mil árvores e palmeiras em diferentes estágios de regeneração.
A dominância dessas espécies apareceu em diferentes regiões e fases de recuperação. Cerca de 9% das espécies estavam presentes em todas as áreas e estágios analisados, mostrando a recorrência de um grupo relativamente pequeno durante a regeneração.
Dentro desse grupo, quatro espécies formaram o núcleo mais consistente de árvores dominantes:
- Embaúba (Cecropia palmata)
- Ingá-branco (Inga alba)
- Tatapiririca (Tapirira guianensis)
- Araticum-bravo (Annona exsucca)
Juntas, elas representaram aproximadamente 16% a 27% da abundância total e do carbono armazenado nas áreas avaliadas, considerando diferentes tamanhos de tronco e estágios de regeneração.
Outras espécies importantes incluem o inajá (Attalea maripa), o babaçu (Attalea speciosa), o marmeleiro (Croton matourensis) e o lacre (Vismia guianensis).
Por que essas espécies conseguem dominar áreas degradadas?
As espécies hiperdominantes apresentam, principalmente entre as árvores maiores, menor densidade da madeira, característica associada ao crescimento rápido. Isso permite que ocupem áreas abertas, ensolaradas e com condições adversas após o desmatamento.
À medida que crescem, elas reduzem a exposição ao sol e acumulam matéria orgânica no solo, criando condições mais favoráveis para o estabelecimento de outras espécies. As áreas que voltam a apresentar vegetação depois do desmatamento formam as chamadas florestas secundárias, também conhecidas como capoeiras. Elas podem surgir em antigas pastagens, áreas agrícolas abandonadas ou terrenos destinados à recuperação ambiental.
Descoberta pode ajudar na restauração
O conhecimento pode orientar projetos de regeneração natural, priorizando espécies capazes de formar rapidamente a estrutura inicial da floresta e acelerar o armazenamento de carbono. Isso é especialmente útil em áreas onde a agricultura e a pecuária foram interrompidas.
Os pesquisadores, porém, destacam que essas espécies não substituem a diversidade da floresta original. A restauração deve buscar o retorno de uma comunidade florestal diversa, e não apenas aumentar a presença das espécies dominantes.
A descoberta, portanto, não significa que 15 ou 25 espécies sejam suficientes para reconstruir a Amazônia. O que os pesquisadores identificaram é que um grupo muito pequeno de árvores desempenha um papel desproporcional nos primeiros estágios da recuperação, criando condições para que uma floresta mais diversa volte a se desenvolver.













