O Brasil se prepara para uma das maiores colheitas de café de sua história, mas o clima pode impedir que o recorde se confirme. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima 66,7 milhões de sacas de 60 kg para 2026, volume 18% superior ao de 2025 e 5,7% acima do recorde anterior, registrado em 2020, com 63,08 milhões de sacas. A previsão, porém, passou a ser ameaçada pelo avanço do El Niño, que pode provocar calor excessivo e chuvas irregulares nas principais regiões produtoras.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), as condições climáticas podem provocar uma quebra de 15% a 20% em relação à expectativa atual. Se a perda de 20% se confirmar, a produção poderia ficar próxima de 53,4 milhões de sacas, abaixo do volume projetado pela Conab e muito distante do recorde esperado.
Floração comprometida pelo El Niño ameaça colheita
A floração irregular representa o maior risco para a safra de 2026/2027.
- Período crítico: o segundo semestre de 2026 será decisivo para a formação das floradas da safra 2026/2027.
- Efeito do El Niño: calor acima do normal e chuvas irregulares podem provocar floradas desuniformes, reduzir o pegamento e comprometer a maturação e a qualidade dos grãos.
- Chuvas recentes: volumes superiores a 50 milímetros em regiões produtoras de arábica já causaram atrasos e perdas.
Problemas acumulados nas lavouras:
- Desenvolvimento vegetativo: desde 2024, o crescimento das plantas foi prejudicado, com formação de apenas 12 a 13 internódios em algumas lavouras.
- Floradas: três floradas expressivas contribuíram para uma maturação menos uniforme.
- Janeiro a março: chuvas excessivas dificultaram os tratos culturais e favoreceram pragas e doenças.
- Abril a julho: o clima acelerou inicialmente a maturação, mas depois atrasou a colheita, aumentando a queda de folhas e frutos.
Tecnologia reduz parte do risco:
- Irrigação: a expansão dos sistemas reduziu a dependência das chuvas e aumentou a capacidade de enfrentar períodos de estiagem.
- Limites: a tecnologia não consegue neutralizar totalmente os efeitos de temperaturas extremas e da irregularidade climática.
- Impacto acumulado: parte do potencial produtivo da safra de 2026 já havia sido comprometida por problemas climáticos no início do ciclo, em 2024, reduzindo a possibilidade de uma supersafra ainda maior.
2027 traz perspectivas ainda mais incertas
As precipitações recentes e as amplitudes térmicas comprometeram a sincronização das gemas e podem antecipar e multiplicar as floradas em 2027. Lavouras com carga média e baixa foram as mais afetadas pelas condições climáticas extremas.
Embora apresentem entre 14 e 15 internódios, as lavouras não têm garantia de uma supersafra no próximo ciclo. O El Niño esperado para 2026/2027 será de forte intensidade e está entre os três maiores já registrados.
O Cerrado Mineiro deve concentrar os maiores impactos, com possibilidade de períodos secos na segunda metade da primavera e ao longo do verão de 2027. Já as lavouras do Sul e Sudoeste mineiro, além da Média Mogiana paulista, tendem a contar com um regime pluviométrico mais estável.
O período pós-colheita de 2026 torna-se decisivo: recomenda-se antecipar tratos culturais com atenção especial ao manejo fitossanitário, adubação e uso de bioestimulantes. Cafeeiros com sistema radicular bem desenvolvido conseguem acessar água em maiores profundidades, tornando-se mais resistentes aos períodos de estiagem que virão.













