A intoxicação por agrotóxicos atinge anualmente 46% dos 934 milhões de agricultores e trabalhadores rurais em todo o mundo, um problema que já resulta em cerca de 11 mil mortes por ano, das quais 60% estão concentradas somente na Índia.
Esses dados integram uma pesquisa global publicada em 2 de setembro de 2026 na revista científica Frontiers in Public Health. Com base em informações coletadas entre 2006 e 2023, o estudo classifica o fenômeno como uma crise silenciosa de saúde ocupacional, que afeta praticamente metade da população agrícola do planeta.
A intoxicação aguda por pesticidas produz manifestações variadas conforme o tipo de produto, dose, via de exposição e tempo até o atendimento médico. Entre os efeitos descritos está dor de cabeça, tontura, náuseas, vômitos, irritação da pele e dos olhos, dificuldades respiratórias, tremores, dores abdominais, alterações neurológicas e quadros graves que podem resultar em morte.
Intoxicação por agrotóxicos na população agrícola global
A intoxicação por agrotóxicos não afeta todos os países da mesma forma. Segundo a pesquisa, a Ásia Meridional concentra o maior número estimado de casos não fatais, seguida pelo Sudeste Asiático e pela África Oriental.
Em alguns países, a situação é especialmente crítica. A prevalência anual estimada entre a população agrícola ocupacional chega a:
- 83,8% em Burkina Faso
- 82,0% no Kuwait
- 78,0% no Malawi
- 73,6% na Índia
- 70,8% na Tanzânia
Outros países também registram taxas elevadas, como Nigéria (69,0%), Colômbia (68,5%), Uganda (66,0%), Irã (65,0%), Indonésia (62,3%), Camboja (62,0%) e Venezuela (62,0%).
O cenário brasileiro
No Brasil, a prevalência estimada de intoxicação aguda não fatal por agrotóxicos entre trabalhadores rurais é de 26% ao ano; percentual inferior à média sul-americana, de 44,5%. Isso coloca o país entre os que apresentam menor prevalência na região.
Para efeito de comparação:
- Argentina: 47,4%
- Bolívia: 45,7%
- Chile: 17,6%
- Venezuela: 62,0%
Especialistas, no entanto, alertam que os dados brasileiros podem refletir, na verdade, limitações na cobertura e na qualidade das notificações nacionais. Um ponto já destacado pelos próprios autores do estudo ao discutirem a construção dessas estimativas.
Por que os números podem estar subestimados
Os dados disponíveis são insuficientes para produzir estimativas totalmente robustas e comparáveis entre países, segundo os autores da pesquisa. Registros de mortalidade, hospitais e centros de informação toxicológica frequentemente não estão integrados, e muitos episódios de intoxicação jamais chegam ao sistema de saúde.
A subnotificação ocorre também porque sintomas leves não necessariamente levam o trabalhador ao hospital ou são reconhecidos como envenenamento por agrotóxico.
Há ainda um problema específico em países com grande volume de trabalho informal ou agricultura de subsistência: o cálculo da população agrícola utilizado é baseado em dados do Banco Mundial e pode deixar essas pessoas de fora. Segundo os pesquisadores, isso torna as estimativas provavelmente conservadoras.
Lacunas e metologia
A pesquisa também não avaliou os impactos de longo prazo da exposição contínua a pesticidas, nem o risco enfrentado pelas 84 milhões de crianças que trabalham na agricultura em todo o mundo. Para especialistas, essa é uma omissão preocupante, uma vez que a exposição cumulativa e crônica é justamente a que provoca os danos mais severos à saúde dos trabalhadores e de suas comunidades.
Este estudo é uma atualização de uma pesquisa publicada em 2020, que já estimava 385 milhões de intoxicações agudas não intencionais por ano — ou cerca de 44% dos agricultores da época. Diante das críticas metodológicas, os autores ampliaram a base de dados e incluíram análises de sensibilidade adicionais.













