O agronegócio brasileiro alcançou nota 6,83 em um levantamento que avaliou a capacidade dos trabalhadores do setor de manter condutas éticas diante de situações de pressão.
O resultado ficou acima da média geral do país, de 6,75, considerando profissionais de diferentes segmentos da economia.
Os dados fazem parte de um recorte setorial do Atlas PIR, levantamento realizado pela S2 Consultoria para identificar riscos relacionados à ética e à conduta no ambiente corporativo.
Apesar do resultado acima da média nacional, a pesquisa aponta situações em que a pressão por produtividade e cumprimento de metas pode contribuir para a naturalização de comportamentos que deveriam ser considerados exceções.
A análise ouviu 4.541 trabalhadores de 54 empresas ligadas ao agronegócio. A amostra integra um levantamento nacional que reuniu mais de 48 mil profissionais de diferentes setores.
Segundo Alessandra Costa, sócia da S2 Consultoria e psicóloga, os trabalhadores do agronegócio apresentam capacidade de resistência ética, mas enfrentam condições que podem favorecer justificativas para determinadas condutas, especialmente em ambientes marcados por metas e cobranças.
Vazamento de dados lidera as preocupações
O primeiro dilema apontado pelo levantamento é o vazamento de informações, com 21,9% de baixa resistência ética no nível tático da cadeia produtiva.
Nessa camada de gestão, funcionários enfrentam a escolha entre proteger dados sobre safras, negociações e clientes ou repassar detalhes que possam agilizar processos internos.
Como o agronegócio opera com cadeias muito integradas, compartilhar dados sensíveis às vezes é entendido como simples cooperação entre parceiros.
Essa leitura reduz a percepção de risco, mesmo quando a prática compromete a confidencialidade de informações estratégicas da operação.
Fraude e assédio aparecem na sequência
Relatórios e indicadores adulterados aparecem em seguida, com 17,1% de baixa resistência ética também no nível tático.
A pressão para bater metas pode levar a alterações pontuais nos números de desempenho, uma prática que tende a se repetir até ser tratada como parte da rotina de gestão.
O assédio moral vem na terceira posição, com 16,2% de fragilidade ética entre trabalhadores do nível operacional.
Ambientes exigentes tendem a naturalizar cobranças agressivas, que podem transformar métodos abusivos de liderança em práticas comuns para garantir resultados.
Presentes e conflitos de interesse completam cenário
Presentes e favorecimentos somam 13,6% de vulnerabilidade no nível operacional, enquanto conflitos de interesse chegam a 13,1% no nível tático.
A dependência de vínculos comerciais duradouros, comum no campo, dificulta separar parceria legítima de favorecimento indevido nas decisões do dia a dia.
Nível tático concentra maior vulnerabilidade
A maior concentração de risco está no nível tático, e nessa camada, profissionais conciliam autonomia técnica, cobrança por resultados, controle de informações e relacionamento com terceiros.
É nesse grupo que se concentram os piores números de fragilidade ética, envolvendo desde o vazamento de dados até fraudes em relatórios, conflitos de interesse e pagamentos irregulares.
Segundo o levantamento, esse cenário decorre sobretudo do grau de acesso a dados sensíveis, da liberdade que esses profissionais têm para decidir sozinhos e da facilidade de encontrar justificativas aceitáveis para certas condutas dentro da rotina operacional.













