A Fazenda São José, dona da marca Fazenda Bela Vista, começou produzindo cerca de 70 litros de leite por dia e se transformou em uma das operações mais modernas da pecuária leiteira brasileira. Atualmente, o negócio alcançou a marca de 102 mil litros diários e voltou ao primeiro lugar do ranking MilkPoint/Abraleite em 2026.
O crescimento foi resultado de uma transformação que envolveu o manejo do rebanho, a seleção genética, a reprodução e os investimentos em infraestrutura. Ao longo de oito anos, a propriedade mais que dobrou a produção e ampliou o número de vacas em lactação sem recorrer à compra de animais para sustentar a expansão.
Agora, a meta é ainda mais ambiciosa: alcançar 150 mil litros de leite por dia nos próximos três anos. Para isso, a fazenda aposta na continuidade dos avanços dentro dos galpões e na ampliação da estrutura industrial que processa a produção.
Vacas recebem até seis banhos por dia para enfrentar o calor
Um dos diferenciais da Fazenda São José está nos cuidados com o conforto térmico dos animais. As 2.750 vacas em lactação passam por salas de banho antes e depois da ordenha, e algumas chegam a receber até seis banhos ao longo do dia.
Engana-se quem pensa que o número de banhos é exagerado. Como a propriedade enfrenta temperaturas superiores a 35 °C durante o verão, a água ajuda a reduzir o estresse térmico, um fator que pode prejudicar a saúde e a produtividade das vacas.
O cuidado é especialmente importante porque todo o rebanho leiteiro é formado por animais da raça Holandesa, conhecida pela alta capacidade de produção, mas sensível às temperaturas elevadas. A estratégia de bem-estar também inclui instalações que permitem aos animais descansar e se movimentar com mais conforto.
No sistema free stall, as vacas ficam soltas em galpões e contam com camas individuais. Já na fase de recria, a fazenda passou a utilizar o compost barn, modelo que oferece uma área coberta para repouso.
Produção por vaca aumentou de 28 para 42 litros diários
O avanço da fazenda não aconteceu apenas pelo aumento do número de animais. A produtividade individual também melhorou significativamente: a média passou de 28 para 42 litros de leite por vaca ao dia.
Em mais da metade do rebanho, a produção diária já chega a aproximadamente 49 litros por animal. Os resultados estão ligados à combinação entre genética, nutrição, manejo e eficiência reprodutiva.
O compost barn começou a ser implantado em 2019, com o objetivo de proporcionar condições mais tranquilas durante a recria, etapa que antecede a entrada das novilhas na produção de leite. A melhoria das instalações contribuiu para reduzir os desafios sanitários e favorecer o desenvolvimento dos animais.
A lógica é preparar as futuras vacas leiteiras para que expressem seu potencial produtivo quando chegarem à fase adulta. Com animais mais saudáveis e um manejo organizado, a propriedade busca elevar a eficiência sem depender exclusivamente da expansão física do rebanho.
Reprodução foi decisiva para aumentar a produção
Outro ponto central da transformação foi a mudança na gestão reprodutiva. Em 2019, o intervalo entre partos era de 17 meses. Com o acompanhamento de indicadores e a adoção de novas estratégias, esse período caiu para 13 meses.
A idade das novilhas no primeiro parto também diminuiu, passando de 28 para 22 meses. Já a taxa de prenhez das novilhas se aproximou de 38%. Esses números têm impacto direto no volume produzido. Para dar leite, a vaca precisa passar pelo parto e iniciar uma nova lactação.
Quanto mais eficiente for o processo reprodutivo, maior será a capacidade da fazenda de manter animais em fases produtivas favoráveis. O trabalho desenvolvido na propriedade envolve monitoramento, inseminação e ajustes nos procedimentos para aumentar as chances de concepção.
A reprodução deixou de ser apenas uma etapa da criação e passou a ocupar posição estratégica no planejamento da produção.
Fazenda foi fundada em 1960 e começou com ordenha manual
A história da Fazenda São José começou nos anos 60, quando Orostrato Olavo Silva Barbosa, conhecido como “Rei do Leite”, iniciou a atividade na propriedade. Naquele período, o gado era criado a pasto, a ordenha era manual e a produção diária girava em torno de 70 litros.
Ao longo das décadas, a fazenda investiu em novas instalações e tecnologias. Em 1987, adotou o sistema free stall, depois do fundador conhecer modelos de produção utilizados em outros países.
A propriedade também passou por mudanças na composição do rebanho até consolidar a raça Holandesa como base da produção leiteira. Com a modernização das estruturas e a profissionalização do manejo, a fazenda construiu as condições para ampliar a produtividade.
O atual diretor-geral, Sérgio Ferraz Ribeiro Filho, é neto do fundador e conduz a continuidade do empreendimento familiar. A marca Fazenda Bela Vista tornou-se conhecida no mercado de lácteos, especialmente pelo leite comercializado em garrafas.
Machos do rebanho também geram receita com a produção de carne
O planejamento genético trouxe outro efeito para a propriedade: a mudança na proporção de machos e fêmeas nascidos. Atualmente, cerca de 72% dos nascimentos são de fêmeas, resultado do uso de sêmen sexado nas novilhas e de estratégias reprodutivas distintas para vacas que já tiveram crias.
Com mais fêmeas disponíveis para reposição e expansão do rebanho leiteiro, os machos passaram a ser direcionados à produção de carne. Esses animais são vendidos a frigoríficos da região e podem atender ao mercado conhecido como “boi China”, voltado a bovinos que cumprem requisitos específicos de idade e acabamento.
A alternativa permite aproveitar animais que não serão utilizados na produção de leite e criar uma fonte adicional de receita para a fazenda. Assim, a genética contribui tanto para melhorar o desempenho leiteiro quanto para organizar o destino econômico dos animais nascidos na propriedade.
Investimento de R$ 15 milhões prepara fazenda para nova expansão
Com a produção diária em alta, a estrutura de processamento também precisa acompanhar o crescimento. Por isso, a Fazenda Bela Vista investe R$ 15 milhões na ampliação do laticínio instalado na propriedade.
O projeto inclui novos equipamentos de processamento, linhas de envase e embalagem, além de melhorias nas áreas de armazenamento e refrigeração. A fábrica, que já processa mais de 2 milhões de litros por mês, poderá alcançar capacidade de até 6 milhões de litros mensais após a expansão.
A empresa também planeja aumentar a produção de iogurtes, ampliar a distribuição dentro do estado de São Paulo e diversificar o portfólio de produtos lácteos.












