No interior baiano, uma propriedade rural passou a concentrar estudos científicos voltados à criação de jegues. Batizado de Jegue Land, o projeto experimenta métodos de manejo que respondam melhor às dificuldades impostas pela seca e pela escassez de pasto típicas da Caatinga, com foco no ecótipo Nordestino.
Zootecnistas, veterinários e pesquisadores de três universidades federais passaram a estudar o animal, historicamente associado ao trabalho rural. A ideia é que os resultados obtidos sirvam de apoio prático para quem cria esses animais na região, oferecendo caminhos melhores para questões como genética, alimentação, reprodução e cuidado com o rebanho.
O projeto também busca explorar uma cadeia produtiva ainda pouco desenvolvida, com produtos que vão do leite a cosméticos feitos a partir de derivados do animal.
Cinco frentes guiam a pesquisa de campo
O trabalho de campo se divide em cinco eixos: preservação e melhoramento genético, alimentação a partir de forragens da região, cuidados reprodutivos e sanitários, bem-estar animal e análise da viabilidade financeira da criação. Cada frente gera dados que, somados, devem indicar caminhos mais seguros para quem já cria ou pretende criar jegues na região.
Fertilidade, peso ganho ao longo do tempo, aproveitamento do alimento e gastos da produção entram na conta dos pesquisadores durante as fases de recria e engorda dos animais.
O zootecnista e administrador Alex Bastos afirma que a equipe também testa opções de alimentação com recursos disponíveis para o produtor da Caatinga. Sem depender de insumos caros ou de fora da região.
Cultura nordestina une ciência e tradição
Em entrevista ao Plenax, Alex Bastos descreveu a Jegue Land como uma fazenda voltada à conservação. E à ciência animal, uma iniciativa de respeito à cultura nordestina e uma aposta no potencial ainda pouco aproveitado do Semiárido.
Segundo Bastos, sustentabilidade, preservação, conhecimento e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos nesse modelo. O projeto aponta leite e derivados, carne, cosméticos e couro como produtos capazes de agregar valor à criação.
Técnicas reprodutivas avançam no laboratório
Dentro da fazenda, equipes recorrem a ferramentas já usadas em outras espécies para preservar e multiplicar material genético valioso. Sêmen e embriões passam por processos de congelamento, enquanto fertilização fora do corpo do animal e troca de embriões entre fêmeas fazem parte do repertório técnico aplicado aos jegues.
Essas ferramentas servem tanto para proteger linhagens quanto para identificar características de interesse produtivo nos animais. A médica-veterinária e pesquisadora da Universidade Federal de Viçosa, Yamê Fabres, afirma que os estudos sobre a espécie ainda são escassos.
Em entrevista ao Plenax, Yamê Fabres explicou que o objetivo é contribuir para conservar e aprimorar geneticamente os asininos, diante do aumento da procura por esses animais e por itens derivados deles, como leite, queijo, cosméticos, carne e couro.
Três universidades somam esforços no sertão
A Universidade Federal de Viçosa, a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco e a Universidade Federal Rural de Pernambuco colocaram pesquisadores à disposição do projeto na Bahia. Segundo os responsáveis pela iniciativa, a parceria entre academia e produção rural deve levar os resultados científicos a quem lida com os animais no dia a dia.
Em entrevista ao Plenax, o professor e pesquisador Gustavo Carneiro, da UFRPE, disse que a iniciativa pode ampliar o conhecimento sobre a espécie e desenvolver pesquisas em diferentes áreas. Segundo ele, a Jegue Land pode se transformar em um polo de ciência, tecnologia e inovação dedicado aos asininos.
Entre as linhas de estudo estão reprodução, genética, sanidade, nutrição, comportamento animal e a criação de produtos a partir do leite. Em entrevista ao Plenax, o professor Jorge Lucena, da UFAPE, afirmou que a propriedade poderá funcionar como uma vitrine para o setor, ao demonstrar práticas mais eficientes de reprodução, alimentação, ordenha e manejo.
Ele também afirmou que o conhecimento gerado precisa chegar aos produtores por meio da extensão, para estimular novas atividades econômicas e contribuir para o desenvolvimento sustentável da cadeia dos asininos no Nordeste.
Com três universidades federais envolvidas e cinco áreas de pesquisa em andamento. A Jegue Land aposta em transformar um animal símbolo do sertão em fonte de renda e inovação científica para a Caatinga baiana.













