Uma criadora de ovelhas na Tasmânia decidiu dar um futuro diferente a suas ovelhas: ao invés de vendê-las para o abate, ela optou por deixar os animais envelhecerem na propriedade. A escolha desafiou as práticas tradicionais da indústria e trouxe um retorno inesperado: uma marca de moda ética de Nova York, nos Estados Unidos, começou a pagar o dobro pelo valor da lã superfina.
Alguns anos atrás, Nan Bray decidiu que suas ovelhas viveriam os últimos dias na fazenda, nas terras centrais da Tasmânia, embora isso reduzisse sua renda em um terço. Ela havia criado um vínculo forte com os animais e não queria mais enviá-los em caminhões para o abate. Hoje, seu rebanho abriga ovelhas com até 15 anos de idade.
Como a economia funciona na propriedade
O modelo de negócio de Bray depende da transformação da lã em fio de tricô de alto valor. Ela vende a lã não por quilograma, como é padrão na indústria, mas por 100 gramas. Assim, consegue cobrar mais e manter uma margem de lucro suficiente para sustentar a criação.
Um novelo de fio de oito camadas custa US$ 29. Bray afirma que a margem de lucro do fio permite financiar o modelo de criação sem abate.
Sua criação abriga 600 ovelhas da raça Saxon Merino, que produzem aproximadamente 2 mil quilos de lã de 17 mícrons por ano — uma espessura particularmente fina e valorizada. Metade dessa produção é transformada em fio na Nova Zelândia, enquanto o restante é vendido para marcas de vestuário ético.
A conexão com o mercado de moda sustentável
Enquanto Bray mudava sua operação, Vanessa Barboni Hallik, fundadora e diretora-executiva da marca de roupas Another Tomorrow, buscava fornecedores de lã produzida de forma ética em vários países. Ela identificou apenas três criadores que não abatiam ovelhas mais velhas, e o rebanho de Bray era o maior deles.
Hallik afirma que não utiliza em sua coleção fibras cuja produção exija a morte ou cause danos aos animais, prática que a incomoda na indústria tradicional da lã.
Bray chamou o encontro com a empresária nova-iorquina de serendipidade. As duas compartilhavam valores e estavam dispostas a enfrentar perdas financeiras para manter seus princípios. Ambas buscavam mostrar que era possível fazer diferente e não queriam recuar. Um suéter de gola alta feito com essa lã custa US$ 1.116 no varejo.
A marca também utiliza o fio de tricô de Bray em suas peças de malharia.
Práticas que desafiam a indústria
Na indústria de lã, a visão tradicional é que a qualidade da fibra diminui conforme as ovelhas envelhecem. Bray, porém, atribui a suas práticas de manejo a capacidade de manter a qualidade da lã mesmo em animais mais velhos.
Ela mantém uma densidade de rebanho baixa e não realiza procedimentos como o encurtamento de cauda ou o mulesing. Bray afirma que a menor densidade é compensada pelo fato de suas ovelhas, mais saudáveis, produzirem cerca de 40% mais lã.
Ela não utiliza herbicidas nas pastagens e considera as plantas daninhas parte importante da dieta do rebanho, por causa de seus benefícios nutricionais e medicinais. Essas escolhas, vistas como radicais pela maioria dos produtores, definem seu diferencial de mercado e permitem que seus rebanhos permaneçam integralmente na propriedade.
Se Nan deixa as ovelhas envelhecerem, ela não perde dinheiro enquanto os animais vivem?
Sim, ela perde, mas de forma controlada consciente, já que a fazendeira optou por este modelo de negócio. O que sustenta a criação é que as ovelhas mais velhas e saudáveis ainda produzem 40% mais lã do que o padrão.
Essa lã é vendida por um preço que compensa a perda: US$ 29 por 100 gramas de fio, em vez de centavos por quilo no mercado comum. A margem de lucro cobre os custos de manter o animal vivo além da idade tradicional de abate.













