Em um castelo no norte da Itália, um material normalmente associado a descarte e mau cheiro ganhou outro destino: virou fonte de energia, fertilizante e até matéria-prima para a construção civil.
O local abriga o Museo della Merda, ou Museu da Merda, criado pelo produtor de queijo Gianantonio Locatelli para mostrar as possibilidades de reaproveitamento do esterco produzido em sua propriedade.
A fazenda fica em Castelbosco, a cerca de 100 quilômetros de Milão, e abriga aproximadamente 2.500 animais. Juntos, os bovinos produzem cerca de 150 toneladas de resíduos orgânicos por dia.
Para um produtor de Grana Padano, lidar com esse volume de material representava um desafio constante.
Em vez de buscar apenas formas de descarte, Locatelli decidiu transformar o problema em uma fonte de recursos para a própria propriedade.
O esterco passou a alimentar biodigestores e a gerar metano, fertilizantes e materiais utilizados na construção. Até o sistema de aquecimento do museu aproveita o calor produzido durante o processo.
Do estrume ao biogás
Oito biodigestores anaeróbicos processam o esterco na propriedade e liberam metano suficiente para abastecer toda a fazenda várias vezes.
Conforme informou Locatelli ao Wired, o biogás representa apenas dez por cento de todo o material que sai dos digestores.
O restante do material vira dois tipos de fertilizante, e as sobras finais são transformadas em tijolos resistentes o bastante para erguer paredes.
O aquecimento do próprio museu também é feito com o calor gerado durante essa produção de energia.
Um castelo dedicado ao cocô
O museu funciona em nove salas dentro de um antigo castelo na fazenda e reúne instalações que tratam o esterco como matéria-prima nobre.
Uma delas exibe luz estranha produzida naturalmente por bactérias bioluminescentes que se alimentam do próprio esterco.
Há relatos de remédios antigos feitos com excrementos e até uma cabana construída com tijolos de esterco, provando que o material pode virar algo útil.
Fotografias, pinturas e ilustrações completam o acervo, muitas delas usando o próprio esterco como elemento central da obra.
O artista Roberto Coda Zabetta, por exemplo, mistura esterco com pigmentos e resina para criar suas pinturas expostas no local.
Isolamento térmico feito de excremento
Entre as peças mais curiosas do acervo estão os tijolos de esterco bovino, que aparecem no museu como exemplo de construção sustentável.
Conforme informou Locatelli ao Wired, a ideia principal é que de um material tão desprezível quanto o esterco é possível obter muitas coisas.
A alvenaria exposta combina recursos naturais com tecnologia e inovação, unindo isolamento térmico eficiente a um processo produtivo que não desperdiça praticamente nada da matéria orgânica da fazenda.
O projeto resume a lógica que move todo o empreendimento: transformar resíduo em valor real, sem deixar nada se perder pelo caminho.













