Entre 1972 e 1993, cerca de 300 toneladas de clordecona foram utilizadas nas plantações de banana de Martinica e Guadalupe, territórios franceses no Caribe. O inseticida organoclorado combatia o charançon, uma praga que atacava as bananeiras e ameaçava uma das principais atividades agrícolas das ilhas.
O problema é que a clordecona é extremamente persistente. Décadas após seu último uso, o composto continua presente no solo, rios e ambiente marinho, podendo chegar a alimentos de origem vegetal e animal. A contaminação se tornou um dos principais problemas ambientais e sanitários das ilhas.
Um pesticida já associado a intoxicações
Conhecida nos Estados Unidos como Kepone, a clordecona provocou intoxicações graves entre trabalhadores de uma fábrica na Virgínia em 1975. O episódio levou ao fechamento da unidade e à interrupção das vendas e do uso do produto no país.
Na França, porém, o uso nas Antilhas continuou até 1993, inclusive por meio de períodos de tolerância e utilização de estoques existentes. Posteriormente, a Justiça francesa reconheceu falhas do Estado na autorização, no controle e na interrupção do uso do pesticida.
Contaminação que atravessa décadas
A clordecona pode permanecer no solo por décadas, alcançar rios e o ambiente marinho e entrar na cadeia alimentar. A exposição ocorre principalmente pelo consumo de alimentos provenientes de áreas contaminadas, especialmente:
- Peixes, crustáceos e moluscos
- Produtos agrícolas cultivados em solos contaminados
- Alimentos de origem animal expostos ao composto
A pesquisa Kannari 2, divulgada em junho de 2026, detectou clordecona no sangue de 81,3% dos adultos em Guadalupe e 85,5% na Martinica. Agricultores e pescadores apresentam níveis mais elevados, enquanto 5% dos adultos avaliados registraram concentrações cerca de 20 vezes superiores à média.
Estudos epidemiológicos nas Antilhas associam a exposição à clordecona a um maior risco de câncer de próstata, cuja incidência é particularmente elevada entre os homens dos dois territórios. A substância também está relacionada a efeitos sobre o desenvolvimento da gestação.
Estado francês reconhece responsabilidade
Em março de 2025, a Corte Administrativa de Apelação de Paris reconheceu falhas do Estado na autorização e no controle da clordecona e determinou indenizações por danos morais relacionados à ansiedade para pessoas que comprovassem exposição e prejuízo.
Em junho de 2026, uma nova lei passou a reconhecer oficialmente a responsabilidade do Estado pelos prejuízos sanitários, morais, ecológicos e econômicos sofridos pelas populações de Martinica e Guadalupe em razão da autorização e do uso prolongado do pesticida.













