Vacas e cervos de seis continentes compartilham um hábito que permaneceu invisível por milênios: posicionam-se em fileiras ligeiramente desviadas em relação ao norte magnético.
Uma equipe da Universidade de Duisburg-Essen identificou rebanhos de vacas e cervos alinhados usando imagens de satélite do Google Earth, pastagens ao redor do mundo.
O comportamento passou despercebido por fazendeiros e caçadores durante gerações, embora estivesse diante dos olhos deles.
Em vez de reagir ao vento ou à posição do sol, os animais parecem seguir um sentido magnético identificado apenas agora.
Orientação magnética de vacas em imagens do Google Earth
A pesquisadora Sabine Begali examinou registros de mais de 8.500 bovinos em mais de 300 localidades, considerando raças, altitudes e horários diferentes.
O Google Earth permitiu observar rebanhos em locais tão distantes quanto a África do Sul, a Índia e o Reino Unido, sem visitar cada pasto.
O mapeamento incluiu diferentes raças, altitudes e horários, o que permitiu descartar essas variáveis como causas do comportamento.
Os animais não apontam para o norte geográfico
Os rebanhos se orientam pelo norte magnético, que varia de posição conforme o local do planeta, não pelo polo norte geográfico.
Essa variação, chamada de declinação magnética, explica por que rebanhos de regiões diferentes se alinham em ângulos ligeiramente diferentes, mas sempre seguindo a mesma lógica magnética.
O cervos se mostrou ainda mais forte em cervos do que em vacas. Para confirmá-lo, pesquisadores viajaram a mais de 200 localidades na República Tcheca e observaram quase 3.000 corços e veados-vermelhos em seu ambiente natural.
Os cervos mantêm o mesmo alinhamento durante o repouso: as marcas deixadas pelos corpos dos animais na neve conservam essa orientação voltada para o norte magnético.
Até as cabeças tendiam a apontar nessa direção, embora com variação maior, porque os animais precisam rastrear predadores como linces.
Descartando sol e vento como causa
As imagens de satélite não informam com precisão o horário exato da captura, o que impede uma comparação direta com os dados meteorológicos daquele momento.
As sombras sugerem que muitas fotos foram tiradas em dias sem nuvens e com luz moderada.
A orientação dos animais não era determinada pela posição do sol, conclusão reforçada pelo fato de que os cervos mantêm o mesmo alinhamento durante a noite.
Se o vento fosse o motivo do alinhamento, a maioria das 308 localidades estudadas precisaria ter enfrentado rajadas fortes vindas exatamente do norte ou do sul.
Além disso, os atlas de vento mostram que a direção dos ventos dominantes nos países estudados varia ao longo do ano, e quando há uma direção predominante, é a oeste.
Um sentido ainda pouco compreendido
Bois e cervos não são os únicos: moscas, abelhas e peixes-dourados também se alinham como bússolas quando nada os perturba.
A causa, porém, ainda é desconhecida, e uma hipótese ainda especulativa é que manter campos magnéticos simétricos em relação ao corpo afete processos fisiológicos.
Em humanos, o tempo para entrar em sono REM e a atividade elétrica do cérebro variam conforme a pessoa esteja voltada para uma direção norte-sul ou leste-oeste.
Outra possibilidade é que uma orientação constante facilite a navegação em longas distâncias ou fugas rápidas.
Vacas e cervos são animais sociais que percorrem grandes distâncias em paisagens muitas vezes sem marcos de referência. Um sentido magnético seria útil para a navegação, como ocorre com tartarugas e aves.
Begali ressalva que não está claro se os animais têm consciência de suas bússolas internas. É possível detectar campos magnéticos sem percebê-los conscientemente, e entre mamíferos, apenas alguns roedores e uma espécie de morcego utilizam bússolas internas.
Há quem acredite que cavalos, golfinhos e baleias façam o mesmo, mas isso é difícil de provar.
Grandes grupos desses animais não são adequados para experimentos laboratoriais cuidadosos. O trabalho de Begali usou satélites para transformar todo o planeta em um laboratório natural.













