Uma das maiores fazendas de criação de crocodilos da Austrália irriga plantações com água residual dos répteis contaminada por E. coli, em concentrações de até 484 vezes o limite estabelecido em sua licença ambiental.
A Lambells Lagoon Crocodile Farm fica na região rural de Darwin, no Território do Norte, e é operada por uma filial da marca francesa de luxo Hermès.
A propriedade foi adquirida por 7,25 milhões de dólares australianos em 2020 para criar até 50 mil crocodilos, número equivalente a quase metade da população estimada de crocodilos-de-água-salgada selvagens do Território do Norte.
Os animais fornecem peles para a confecção de bolsas de luxo.
Contaminação de água residual em fazenda de crocodilos
Relatórios de monitoramento ambiental mostram que, desde meados de 2021, a fazenda irriga plantações com água contaminada na maioria dos meses.
Entre maio de 2024 e abril de 2025, amostras coletadas mensalmente indicam que, em praticamente todos os meses, a água usada para irrigar a cultura de forragem tinha níveis de E. coli muito acima do permitido, e concentrações superiores a 1 bilhão de unidades formadoras de colônias por 100 mililitros também foram registradas em períodos anteriores.
A regulação ambiental exige que os níveis de E. coli na água de irrigação não ultrapassem 1 mil unidades formadoras de colônias por 100 mililitros, o limite máximo recomendado para irrigar alimento animal na Austrália e Nova Zelândia.
Em março de 2025, o registro mais alto atingiu 3,6 milhões de unidades formadoras de colônias por 100 mililitros.
Embora um sistema de injeção de peróxido de hidrogênio tenha sido instalado para reduzir a carga bacteriana, as concentrações permaneceram elevadas nos pontos de descarga.
Propriedade e operação da fazenda
A propriedade é operada pela PRI Farming, uma unidade da Primary Resources Investments, empresa integralmente controlada pela marca de luxo francesa Hermès.
Um dos três diretores da PRI Farming é Mick Burns, empresário conhecido no Território do Norte que também é proprietário e operador de outros empreendimentos privados de criação de crocodilos na região.
Documentos mostram que a fazenda irriga plantações usando água residual dos répteis, prática permitida sob sua licença de proteção ambiental.
A proposta submetida à Comissão de Planejamento do Território do Norte em 2020 indicava que consultores ambientais reconheciam a água residual como desafio para a “pecuária intensiva” e apresentavam plano de usar “técnicas modernas de agricultura” para resolver o problema.
Preocupações com contaminação além da propriedade
Especialistas em contaminação de água subterrânea alertam para o possível risco de a água contaminada se espalhar além dos limites da propriedade.
Bithin Datta, da James Cook University, afirma que os aquíferos de dolomita fraturada sob a propriedade não são confinados e interagem com sistemas de água de superfície, criando caminhos para a migração bacteriana.
Um relatório de monitoramento ambiental indicou “risco potencial” à qualidade das águas subterrâneas e superficiais, embora o impacto nas águas superficiais “permaneça incerto devido a dados limitados disponíveis”.
A Autoridade de Proteção Ambiental do Território do Norte afirma estar ciente dos altos níveis de E. coli da propriedade, porém considera a não conformidade um “risco ambiental baixo”.
Como a E. coli pode se espalhar pela água, alimentos e produção animal
A E. coli é um grupo de bactérias encontrado no intestino de humanos e animais. Cepas nocivas podem causar diarreia, cólicas abdominais, náusea e febre, e em casos graves podem levar a danos nos órgãos.
A E, e coli pode contaminar alimentos ou água e causar infecção quando ingerida. Segundo Ravi Naidu, especialista da Universidade de Newcastle, a água de irrigação aplicada repetidamente pode infiltrar-se facilmente nos aquíferos, onde a água subterrânea se move e carrega potenciais patógenos para outras áreas.
A contaminação também pode ocorrer por meio da alimentação dos animais: a E. coli presente nas folhas de forragem pode ser transmitida pelo leite ou pela carne até chegar aos seres humanos.
Risco de contaminação exige atenção
A possibilidade de circulação da E. coli por diferentes caminhos reforça a importância de medidas de controle da qualidade da água, dos alimentos e das práticas utilizadas na produção agropecuária.
O acompanhamento desses fatores é fundamental para reduzir a transmissão da bactéria e evitar que possíveis fontes de contaminação cheguem à população.













