Toneladas de morangos, framboesas e amoras estão sendo descartadas no sudeste de Queensland, na Austrália, depois que um inseto de menos de 2 milímetros passou a atacar as plantações. Em algumas propriedades, os produtores perderam pelo menos metade da colheita, enquanto uma fazenda chegou a descartar 70% dos morangos. O fruto não se torna necessariamente impróprio para consumo, mas as marcas e deformações provocadas pela praga reduzem seu valor comercial.
O responsável é o tripes-das-flores (Frankliniella intonsa), espécie com cerca de 1,2 a 1,8 milímetro que foi identificada oficialmente na Austrália pela primeira vez em abril de 2026, em uma propriedade de Elimbah. A partir dali, a praga se espalhou por áreas produtoras de Moreton Bay e Sunshine Coast.
O ataque e o desafio do controle
- Onde ataca: o Frankliniella intonsa se concentra em flores, botões e frutos jovens, raspando o tecido vegetal e sugando o conteúdo das células.
- Danos: em morangos, provoca manchas, bronzeamento, deformações e rachaduras, principalmente após chuvas.
- Outras culturas: a espécie é polífaga e também pode atingir feijão-verde, abobrinha, pepino, melão, pimentão, aspargo, alfafa, algodão e flores de corte.
- Vírus: o tripes pode transmitir doenças de plantas, entre elas o Tomato spotted wilt virus (TSWV) e o Impatiens necrotic spot virus (INSV).
- Resistência: a espécie tem histórico de resistência a inseticidas. Uma população estudada na China apresentou resistência ao spinosad com concentração letal cerca de 280 vezes maior que a de uma população suscetível. Estudos também já identificaram resistência a piretroides.
- Manejo: ovos e estágios imaturos ficam mais protegidos dos tratamentos, dificultando o controle. Por isso, especialistas recomendam alternar mecanismos de ação e combinar inseticidas com monitoramento, medidas culturais e controle biológico.
A entrada no país continua um mistério
O governo australiano ainda não determinou como o inseto conseguiu atravessar o rígido sistema de biossegurança do país. Por ser tão pequeno, o F. intonsa pode ser transportado acidentalmente em roupas, plantas, flores ou cargas.
Uma hipótese levantada por especialistas é que ele possa ter chegado em roupas de passageiros vindos da Nova Zelândia, onde a espécie está estabelecida desde 2002. A possibilidade, porém, ainda não foi confirmada como a origem da infestação australiana.
Predadores entram na disputa
Enquanto os produtores tentam conter a infestação, criadores de insetos benéficos estão fornecendo ácaros predadores e percevejos-piratas, que se alimentam de tripes.
A estratégia enfrenta um obstáculo: quando os predadores começaram a ser utilizados em algumas propriedades, as populações do invasor já estavam muito elevadas. A expectativa é que o controle biológico funcione melhor quando aplicado antes da explosão populacional.
O desafio agora é impedir que a praga avance para outras regiões. Para os viveiristas e agricultores, a detecção precoce é uma das principais ferramentas, já que o inseto possui muitas plantas hospedeiras e pode se deslocar entre culturas.













