Mais de 30 camelos passaram quatro anos ajudando a controlar uma das plantas invasoras mais problemáticas da Austrália. O experimento ocorreu em uma propriedade de aproximadamente 40 mil hectares, perto de Muttaburra, em Queensland, e mostrou que os animais conseguem reduzir a produção e a dispersão de sementes da acácia-de-espinhos.
Conhecida como prickly acacia, a Vachellia nilotica foi introduzida em Queensland e se espalhou por milhões de hectares. A infestação é associada a cerca de US$ 27,5 milhões em perdas de produção agrícola por ano e ameaça áreas extensas de pastagem no interior australiano.
O objetivo do experimento não era eliminar completamente as árvores, mas interromper o ciclo de reprodução da invasora. Durante o período de avaliação, os camelos danificaram fisicamente cerca de 30% das plantas e reduziram a produção de sementes.
Por que camelos são mais eficazes que gado
O diferencial está na forma como os camelos processam as sementes da acácia-de-espinhos. Quando bovinos e ovinos consomem as flores e vagens, parte das sementes sobrevive à digestão e é eliminada nas fezes, contribuindo para a expansão da planta. Nos camelos, as sementes são destruídas durante o processo digestivo, interrompendo esse ciclo de disseminação.
Os animais também demonstram preferência pela acácia durante a floração. Segundo Geoff Penton, gerente de operações da Desert Channels Queensland, a proporção considerada adequada é de um camelo para cada mil plantas.
Cerca de dois terços da alimentação diária dos animais vêm da acácia, enquanto o pasto representa aproximadamente um terço. A capacidade de consumo é significativa: estudos anteriores indicaram que um único camelo pode comer cerca de 360 flores por dia.
O desafio de uma invasão sem fim
Segundo a Desert Channels Queensland, a acácia-de-espinhos é uma das piores plantas invasoras da Austrália. Nativa do subcontinente indiano, trata-se de uma árvore pequena ou arbusto espinhoso.
Suas flores amarelo-ouro florescem principalmente entre março e julho, e cada árvore em boas condições produz mais de 170 mil sementes por ano. As vagens achatadas de 10 a 15 centímetros de comprimento espalham-se principalmente quando o gado ingere os frutos maduros durante o pastoreio.
A planta destrói pastagens, reduz a biodiversidade transformando savanas naturais em arbustos espinhosos densos, e cria barreiras que interferem no movimento do rebanho e no acesso à água. Danifica pneus de veículos e facilita erosão do solo, tendo potencial para crescer em quase todo o estado.
Expansão do programa e próximos passos
A Desert Channels Queensland está na segunda fase do ensaio, avaliando o impacto dos camelos durante mudanças sazonais. O sucesso inicial atraiu interesse: mais fazendeiros querem participar do programa. Geoff Penton, gerente de operações da organização, descreveu os camelos como método eficaz para desacelerar o avanço da invasora.
Embora os camelos não eliminem a planta completamente, a capacidade deles de frear a disseminação oferece alternativa viável ao controle mecânico tradicional e ao uso de herbicidas químicos.
Fazendeiros já relatam resultados concretos. Paul Keegan, cameleador com 40 anos de experiência e proprietário de 300 camelos, forneceu animais para o ensaio. Segundo sua avaliação, cinco a seis anos poderiam ser suficientes para limpar uma propriedade da invasora, caso o método fosse aplicado adequadamente.
David Batt, que usa camelos há 25 anos em sua propriedade de 80 mil hectares, relatou economia substancial em herbicidas, embora não tenha quantificado o valor exato, descrevendo o método como “bem compensador”.













