Um milho indígena cultivado na serra da Mixe, região montanhosa do sul do México, cresce em solos pobres em nitrogênio sem quase nenhum adubo e mesmo assim consegue atingir seis metros. O segredo está em suas raízes aéreas peculiares: tubos avermelhados do tamanho de dedos que cercam o caule e secretam uma gosma espessa, transparente e brilhante, repleta de bactérias.
Pesquisadores de universidades americanas e da empresa Mars descobriram que essas bactérias convertem o nitrogênio atmosférico em formas utilizáveis pela planta, em um processo chamado fixação de nitrogênio.
O milho consegue obter diretamente do ar uma quantidade significativa do nitrogênio de que necessita, embora a eficácia dependa de fatores ambientais, como umidade e chuva. A descoberta, publicada na revista PLOS Biology, pode reduzir o uso de fertilizantes sintéticos na maior cultura cerealífera do mundo.
Como o milho da Mixe consegue se autofertilizar
Diferentemente do milho comercial, que amadurece em apenas três meses, a variedade indígena da Mixe leva oito meses para ser cultivada. Essa demora não diminui seu valor científico: a capacidade de fixar o próprio nitrogênio é justamente o que pesquisadores buscam transferir para as variedades convencionais há décadas.
Todo vegetal depende de nitrogênio para crescer, e embora o elemento seja abundante na atmosfera, permanece inerte e inutilizável pelas plantas. As bactérias associadas às raízes aéreas do milho da Mixe convertem esse nitrogênio em amônia e outras formas aproveitáveis.
Leguminosas como feijão e ervilha já possuem essa capacidade, e elas armazenam bactérias fixadoras de nitrogênio em estruturas especializadas chamadas nódulos radiculares. Cereais, especialmente milho e arroz, não têm essa característica natural. Por isso, agricultores americanos aplicam mais de 6,6 milhões de toneladas de nitrogênio por ano na forma de sprays químicos e esterco.
Impacto ambiental e econômico da descoberta
A produção de fertilizantes sintéticos consome muita energia. O excesso de nutrientes altera o equilíbrio de corpos d’água, provoca a proliferação de algas e cria zonas mortas em rios e lagos, segundo o The Atlantic.
Se a habilidade do milho da Mixe pudesse ser incorporada ao milho comercial por cruzamento genético, a agricultura poderia reduzir os custos de produção e o impacto ambiental de uma cultura alimentar essencial.
A aplicação prática também beneficiaria países em desenvolvimento, onde os fertilizantes sintéticos são inacessíveis ou caros demais. Cultivos em solos naturalmente pobres em nutrientes também poderiam aproveitar essa característica herdada.
Pesquisadores alertam, porém, que serão necessárias mais investigações para determinar se o traço pode ser incorporado com sucesso a variedades comerciais de milho.
Pesquisa respeitosa com comunidades indígenas
O trabalho envolveu pesquisadores da Universidade de Davis, na Califórnia, da Universidade de Wisconsin-Madison e da Mars Inc. A equipe também incluiu a comunidade Sierra Mixe em todas as etapas da investigação.
A equipe de pesquisa estabeleceu acordos legais com o governo mexicano para garantir. Sob os auspícios do Protocolo de Nagoya, tratado internacional sobre acesso a recursos genéticos, que qualquer benefício decorrente da pesquisa e de sua possível comercialização futura fosse compartilhado com a comunidade.













