O tomate que hoje reina nas cozinhas italianas foi considerado mortal e repugnante durante séculos na Grã-Bretanha e nas colônias britânicas. A transformação de fruto desprezado em estrela da culinária mundial resultou de uma combinação de fatores: o preconceito baseado em equívocos botânicos.
A química acidental dos utensílios usados nas refeições e a geografia favorável do sul da Itália para seu cultivo. Tudo começou na América, onde os astecas já cultivavam e consumiam o fruto, chamado de tomatl em náuatle.
Quando espanhóis e portugueses chegaram à América no século XVI, levaram sementes para a Europa. No continente, porém, ninguém sabia o que fazer com o novo fruto.
Os séculos de desconfiança europeia
Em 1544, Pietro Andrea Mattioli fez uma das primeiras menções europeias ao tomate, comparando-o à beladona e à mandrágora, plantas venenosas da família Solanaceae. A associação alimentou a desconfiança sobre o fruto. Na Itália, porém, ele ganhou o nome “pomi d’oro”, ou “maçã dourada”, usado até hoje.
Em 1597, o inglês John Gerard descreveu o tomate de forma negativa em seu livro Herbal, contribuindo para manter o temor na Grã-Bretanha e nas colônias britânicas da América do Norte por mais de 200 anos. Por volta de 1700, a “maçã dourada” já era vista como “maçã envenenada”.
Por que o tomate era temido
Muitos europeus, especialmente na Grã-Bretanha e entre a aristocracia, acreditavam que o fruto causava doenças e morte. Uma teoria sugere que aristocratas que adoeciam após comê-lo possivelmente sofriam envenenamento por chumbo — seus pratos de estanho.
Com alto teor de chumbo, esses pratos reagiam com a acidez do tomate e poderiam ter liberado o elemento tóxico. Na época, essa conexão não foi feita, e o tomate levou toda a culpa.
Outra explicação relaciona o medo à aparência do tomate: os frutos eram pequenos e cresciam como as bagas da beladona. Uma planta de fato venenosa, e a cor vermelha também era vista como pecaminosa e sobrenatural, o que contribuiu para o medo inicial.
Os herbalistas europeus, vendo essa semelhança, presumiram que os tomates eram venenosos também — um caso claro de identificação errada baseada na aparência.
Da decoração à cozinha
Na Europa, o tomate foi inicialmente cultivado principalmente como planta ornamental. A mudança ocorreu gradualmente, especialmente no sul da Itália, onde clima e insolação favoreceram sua produção.
O uso culinário cresceu e novas formas de preparo ajudaram a aproveitar e conservar o fruto. Entre elas está a passata, preparação feita com tomates maduros e utilizada como base para diferentes molhos.
No século XIX, o tomate já estava incorporado à culinária italiana e passou a acompanhar massas, pizzas e outras receitas. A imigração italiana para as Américas, especialmente para os Estados Unidos, ampliou ainda mais sua presença internacional.













