Produtores rurais, governos e analistas internacionais voltaram a monitorar de perto o El Niño.
Fenômeno que altera a temperatura das águas do oceano Pacífico e desregula padrões de chuva em várias partes do planeta.
Mesmo sem ainda merecer o rótulo de “super El Niño”, ele já ameaça safras, pressiona preços de alimentos e alimenta disputas por recursos naturais entre países.
O clima em aquecimento repetindo ciclos desde 2007
Crises que juntam extremos climáticos, falta de alimentos e conflitos não são raras: o mundo já passou por praticamente cinco delas desde 2007.
Decisões que antes dependiam só do calendário Agrícola agora levam em conta tensões entre países e disputas por recursos.
Antes mesmo de iniciar o plantio, produtores rurais precisam considerar riscos que vão muito além do clima local.
Arroz, trigo e milho sob ameaça
O calor fora do comum no Hemisfério Norte compromete a produção dos três grãos que sustentam boa parte da alimentação global.
Monções irregulares devem atingir Índia e Vietnã, os dois maiores produtores mundiais de arroz, num mercado já castigado por extremos climáticos recentes.
Nos Estados Unidos, a seca ameaça a principal área produtora de trigo de inverno do país.
A Austrália, outra Grande exportadora do grão, também corre Risco de perder parte da safra, o que reduz estoques mundiais disponíveis para exportação.
Apenas nove países no mundo são grandes exportadores líquidos de alimentos, entre eles o Brasil. Todos os outros dependem.
Em algum grau, de importações, o que torna qualquer quebra de safra nesses poucos exportadores um problema de escala global.
Logística e água tensionam relações entre países
A infraestrutura de transporte de cargas também sente o impacto do fenômeno Climático. O Canal do Panamá opera com fluxo reduzido.
Já que seu funcionamento depende diretamente do volume de chuvas na América Central, encarecendo fretes internacionais.
Disputas por recursos hídricos compartilhados ganham força na África Central, na Ásia Central e no Oriente Médio.
Secas prolongadas atingem o Paquistão, enquanto Irã e Afeganistão vivem atritos diplomáticos ligados ao uso de bacias hidrográficas comuns entre os dois países.
Brasil sente efeitos opostos entre regiões
O território brasileiro, de dimensão continental, registra reações climáticas contrárias conforme a região. Mais chuva tende a cair no Sul.
Com risco de temporais severos parecidos aos que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, quando cerca de 70% a 80% da safra de arroz já havia sido colhida antes das chuvas torrenciais que ultrapassaram 700 milímetros. Já o Centro-Oeste e o Nordeste sofrem justamente com a redução das precipitações.
Culturas como soja e milho ficam mais vulneráveis em áreas de solo arenoso, como o Matopiba, onde a falta de água pesa mais sobre a produtividade.
Para este ano, já se estima que ao menos 20% da produção de trigo da região Sul possa ser comprometida.
O momento exato em que as chuvas chegam pode definir o tamanho do prejuízo para o produtor.
Chuvas antes do plantio ou durante a colheita causam prejuízo maior do que em outra fase do ciclo da lavoura.
A Embrapa e parceiros do sistema nacional de pesquisa agropecuária desenvolvem soluções para aumentar a resiliência do campo.
Uma dessas ferramentas é o Zarc, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, criado pela Embrapa junto ao Ministério da Agricultura.
A partir do tipo de solo, do ciclo de cada cultura e dos riscos climáticos da região. O sistema indica ao produtor se vale a pena antecipar ou postergar a semeadura.
Cultivares de soja, milho e trigo tolerantes à seca, desenvolvidas por edição genética CRISPR, e bioestimulantes como o Auras complementam as estratégias.
Práticas de manejo sustentável, como integração lavoura-pecuária-floresta e plantio direto, retêm umidade no solo.
Já para quem enfrenta o semiárido, existe o GuardeÁgua, aplicativo que ajuda agricultores. E técnicos a apontar pontos ideais para erguer barragens subterrâneas, fazendo do próprio solo uma reserva de água.
Monitorar esses períodos críticos continua sendo a forma mais direta de reduzir perdas diante de um clima cada vez menos previsível.













