O músculo da tainha pode carregar informações sobre o ambiente em que o peixe viveu. Uma pesquisa publicada em 2026 na revista científica Fishes mostrou que a composição química do tecido muscular da tainha (Mugil liza) varia conforme a origem geográfica, permitindo diferenciar peixes de regiões brasileiras distintas. A descoberta pode ajudar na verificação da procedência do pescado e no combate a fraudes comerciais.
O estudo envolveu pesquisadores da Embrapa, USP e outras instituições, incluindo Fabíola Helena dos Santos Fogaça e Luiz Alberto Colnago. A equipe utilizou Ressonância Magnética Nuclear de hidrogênio (¹H NMR) combinada à metabolômica para analisar pequenas moléculas presentes no organismo.
Foram identificados 23 metabólitos relacionados ao metabolismo, gasto energético e funcionamento muscular. As diferenças nas concentrações dessas substâncias formaram perfis químicos capazes de indicar a origem dos peixes.
A impressão digital química da tainha
Como funciona a técnica:
- A Ressonância Magnética Nuclear de hidrogênio (¹H NMR) detecta sinais associados aos átomos de hidrogênio presentes nas moléculas da amostra.
- A análise permite observar simultaneamente diversos metabólitos sem precisar identificar cada substância por métodos químicos convencionais.
- No estudo, o músculo dorsal foi liofilizado, os metabólitos foram extraídos e as amostras analisadas em um espectrômetro de 600 MHz.
O que foi encontrado:
- Foram identificados 23 metabólitos.
- As substâncias estavam relacionadas a marcadores de degradação, metabolismo essencial, gasto energético e estrutura muscular.
- Entre os compostos que mais contribuíram para separar as origens estavam lactato, histidina, treonina, fenilalanina e ornitina.
- A análise estatística mostrou uma separação clara entre os perfis químicos associados às diferentes regiões estudadas.
Esses compostos funcionam como uma espécie de assinatura metabólica. A composição do músculo é influenciada pelas condições ambientais e pelo modo como o organismo responde ao local em que vive, permitindo que diferenças geográficas sejam identificadas por meio do perfil químico.
Rastreabilidade e combate às fraudes
A descoberta abre caminho para autenticar a origem do pescado e combater fraudes no mercado. A técnica poderia detectar falsificações na procedência do produto em processos de verificação e rastreabilidade.
A técnica pode servir como base técnica para pedido de Indicação Geográfica na modalidade Denominação de Origem da tainha da Lagoa de Araruama junto ao INPI. A água da lagoa possui salinidade média de 52%, superior à da água do mar convencional.
A hipersalinidade da Lagoa de Araruama gera adaptações fisiológicas específicas nos peixes. Essas mudanças são refletidas no perfil químico detectado pela ressonância magnética nuclear.
Essa condição ambiental altera os mecanismos de osmorregulação, o metabolismo energético e a utilização de aminoácidos das tainhas. O ambiente deixa marcas bioquímicas detectáveis nos peixes, criando uma assinatura metabólica característica.
Avanço para a cadeia produtiva
O trabalho demonstra que é viável usar tecnologia de ponta para adicionar valor aos produtos pesqueiros brasileiros. O estudo comparou peixes de diferentes pontos do litoral brasileiro, incluindo a Lagoa de Araruama e a Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, e uma área do litoral de Santa Catarina. As análises mostraram diferenças consistentes entre os perfis metabólicos das populações estudadas.
A pesquisa também observou que tamanho dos peixes e variações sazonais não alteraram de maneira significativa o perfil metabólico geral, um resultado importante para avaliar a estabilidade dos marcadores utilizados na identificação da origem.













