O sistema alimentar está ligado a cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estimativa apresentada ao Globo Rural pelo cientista indiano Rattan Lal, radicado nos Estados Unidos.
Dentro desse conjunto, a produção agrícola responde sozinha por aproximadamente 15% das emissões provocadas pelas atividades humanas.
Especialista em manejo do solo e sequestro de carbono, Lal coordena na Universidade Estadual de Ohio um centro de pesquisas que leva seu nome e integra a faculdade de ciências agrícolas, alimentares e ambientais da instituição.
Ao longo da carreira, o pesquisador acumulou centenas de trabalhos científicos e milhares de citações acadêmicas.
Em 2007, recebeu o Nobel da Paz como integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Em 2020, também foi vencedor do World Food Prize.
Durante sua passagem pelo Brasil para participar do 10º Simpósio Internacional de Matéria Orgânica do Solo, promovido pela Universidade de São Paulo, Lal chamou atenção para um aspecto pouco considerado no debate climático: as escolhas alimentares e a forma como os alimentos são produzidos têm impacto direto sobre o planeta.
O peso da comida nas emissões
Do total de gases-estufa ligados à ação humana, 15% saem especificamente da produção agrícola, fatia que integra os 30% atribuídos a todo o sistema alimentar.
O setor costuma carregar a fama de vilão climático, mas o cientista defende outra leitura.
Para o cientista, a agricultura pode fazer parte da solução, em vez de agravar o problema. Solos bem manejados retêm carbono, em vez de liberá-lo na atmosfera.
Segundo Lal, essa mudança permitiria manter o aquecimento global abaixo de 2°C.
O carbono que o solo já perdeu
Boa parte das terras agrícolas das Américas, incluindo o Brasil, os Estados Unidos e países europeus, já perdeu cerca de 30% da camada original do solo.
Na Ásia, onde a agricultura é praticada há cerca de 10.000 anos, o esgotamento foi ainda mais severo em países como China e Índia e no Sudeste Asiático.
Ali, aproximadamente 75% do carbono orgânico original se perdeu ao longo de 8.000 a 10.000 anos de uso contínuo da terra.
Reverter esse quadro é possível: em áreas degradadas, plantar árvores ajuda a repor carbono e também melhora o aproveitamento de fertilizantes pelas plantações vizinhas.
Pastagens degradadas na Amazônia
O pasto degradado é comum na região amazônica, onde a floresta original deu lugar a áreas de pecuária.
O sobrepastoreio e a falta de reposição de resíduos orgânicos empobreceram o solo e reduziram sua produtividade, segundo o cientista ao Globo Rural.
A ciência do solo chama de lei do retorno o princípio de que tudo o que sai da terra precisa ser devolvido a ela.
Extrair biomassa sem repor o que foi retirado leva à degradação e à queda de produtividade em boa parte dessas áreas.
Devolver terra à natureza
Fertilizantes passaram a cumprir esse papel de reposição, mas, segundo Lal, não são a saída mais eficiente.
A reciclagem de matéria orgânica funciona melhor para recompor o que o cultivo tira do solo ao longo dos anos.
O Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas o desperdício compromete esse potencial.
Globalmente, são produzidos cerca de 3,2 bilhões de toneladas de grãos, mas aproximadamente 1 bilhão de toneladas é desperdiçado.
Já entre frutas como mamão e manga, o desperdício ultrapassa 60% da produção, um problema mais grave em países asiáticos.
Lal questiona a necessidade de produzir mais para desperdiçar mais e defende hábitos alimentares mais adequados e saudáveis.
O cientista argumentou ao Globo Rural que não é necessário consumir carne bovina quatro vezes ao dia. Duas ou três vezes por semana seria suficiente e mais saudável.
A alimentação deve ser saudável não apenas para as pessoas, mas também para o planeta.
Em escala mundial, a agropecuária ocupa cerca de 5,2 bilhões de hectares, dos quais 3,7 bilhões são destinados à pecuária. Como a produtividade pode crescer em regiões da África e da Ásia.
O cientista argumenta que mais de 2 bilhões dos aproximadamente 5 bilhões de hectares ocupados pela agropecuária poderiam ser devolvidos à natureza, com árvores no lugar de pasto ou lavoura esgotada.
Pagamento ao produtor pode viabilizar conservação
Um exemplo citado por Lal vem dos Estados Unidos, onde o Programa de Reserva de Conservação foi criado para reduzir problemas de erosão, especialmente na bacia do rio Mississippi.
A iniciativa passou a remunerar agricultores que retirassem áreas altamente vulneráveis da produção e as transformassem em vegetação permanente, incluindo gramíneas e florestas.
Dessa forma, o produtor recebeu uma fonte de renda em substituição ao cultivo convencional.
Cerca de 40 milhões de acres, equivalentes a pouco mais de 16 milhões de hectares, chegaram a ser incorporados ao programa.













