A análise da mucosa nasal de bovinos da raça Hereford com sinais do “mal do olho” levou pesquisadores da Embrapa, da Universidade Federal de Juiz de Fora e do Instituto Biológico à identificação de uma nova espécie de bactéria.
Batizada de Moraxella tarda, a descoberta está relacionada à Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina e pode contribuir para aprimorar o diagnóstico e as estratégias de controle da doença.
A enfermidade provoca inflamação e dor nos olhos dos animais e, em quadros mais graves, pode causar perda da visão. A nova espécie recebeu esse nome devido ao crescimento lento observado em laboratório: enquanto outras bactérias do gênero costumam formar colônias visíveis em cerca de 24 horas, a M. tarda leva aproximadamente o dobro desse tempo para apresentar crescimento perceptível.
Pesquisa da Embrapa e validação internacional
O trabalho começou em 2018 com coletas de campo na Embrapa Pecuária Sul, no Rio Grande do Sul. As amostras foram analisadas em laboratórios das unidades Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, e Embrapa Gado de Corte, em Mato Grosso do Sul.
Identificação da bactéria
- Métodos utilizados: Os pesquisadores combinaram análises bioquímicas, fisiológicas e genômicas para caracterizar o microrganismo.
- Sequenciamento genético: O sequenciamento completo do genoma revelou que a bactéria possui uma identidade genética própria, indicando que se trata de uma espécie distinta das demais já conhecidas do gênero Moraxella.
- Comparação com outras espécies: A Moraxella tarda apresentou no máximo 79% de similaridade genética com espécies como Moraxella bovis e Moraxella bovoculi.
Validação internacional
- Depósito dos isolados: Amostras representativas da nova espécie foram depositadas em coleções microbiológicas de referência na Bélgica e em Portugal.
- Registro no Brasil: Os isolados também foram encaminhados ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.
- Reconhecimento: O depósito em diferentes coleções microbiológicas permitiu a validação internacional da identificação da Moraxella tarda como uma nova espécie.
Impacto na saúde animal e novas estratégias de controle
A Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina reduz o apetite dos animais e afeta o ganho de peso. Com a identificação da nova bactéria, abre-se espaço para o desenvolvimento de vacinas polivalentes mais eficazes e testes de diagnóstico rápido.
Pesquisadores agora investigam a resistência animal e a interação com diferentes espécies de Moraxella usando córneas preservadas em laboratório. Essa abordagem elimina a necessidade de induzir a doença em animais vivos, contribuindo para o bem-estar dos bovinos.
Segundo Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa, a combinação de vacinas polivalentes, seleção de animais mais resistentes e outras estratégias de manejo pode controlar efetivamente a enfermidade.













