O que sobra da uva depois da produção de vinho ganhou uma nova função nas mãos de pesquisadores da Unicamp e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O chamado bagaço de uva, formado principalmente por cascas e sementes, foi transformado em biofertilizante e usado no cultivo de uma flor comestível.
O resíduo representa 20% a 25% da massa das uvas processadas e gera entre 9 e 13 milhões de toneladas por ano no mundo. Mesmo após a vinificação, o material mantém fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais.
A equipe submeteu o bagaço à digestão anaeróbia, processo em que microrganismos decompõem a matéria orgânica sem oxigênio. O resultado foi um digestato líquido rico em nutrientes, usado como biofertilizante no cultivo da calêndula pôr do sol (Calendula officinalis L.), uma flor comestível.
Do resíduo ao biofertilizante
- Pesquisa: o estudo fez parte do doutorado de Luiz Eduardo Nochi Castro, da Unicamp, com bolsa da FAPESP, em parceria com a UFPR. O trabalho foi publicado em junho de 2026 na revista ACS Omega.
- Testes: realizados em estufa no verão e no inverno de 2023, com doses de 10%, 20% e 30% de digestato combinadas a diferentes regimes de irrigação.
- Análises: após a colheita, as flores foram liofilizadas e avaliadas quanto ao crescimento, produção e composição, além de folhas, raízes e parte aérea.
- Desempenho: doses moderadas favoreceram o crescimento e a produção de flores e elevaram os níveis de proteínas, lipídios, açúcares, carotenoides e compostos fenólicos.
- Betacaroteno: no verão, a concentração chegou a 80,97 mg por 100 g de flor liofilizada, mais de 250% acima do cultivo sem digestato.
- Ação antioxidante: a atividade antioxidante ultrapassou 1.300 μmol TEAC por 100 g no verão.
- Inverno: os efeitos foram mais evidentes na retenção de pigmentos e minerais.
- Limite: doses excessivas de digestato podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, indicando que a aplicação precisa ser controlada.
O que sobra pode voltar para a produção
O estudo mostra uma possibilidade de transformar um dos principais resíduos da indústria do vinho em insumo agrícola. O bagaço também é pesquisado como fonte de antioxidantes, açúcares e pigmentos, ampliando as possibilidades de aproveitamento do material.
A equipe pretende integrar a produção de energia e fertilizante a partir do mesmo resíduo. A aplicação comercial em larga escala, porém, ainda depende de estudos sobre viabilidade técnica e econômica, custos e logística.
A proposta é dar um novo destino ao que sobra da fabricação do vinho, transformando um resíduo abundante em matéria-prima para uma cadeia que pode envolver fertilizantes, energia e alimentos.













