Um queijo inglês esquecido durante séculos voltou a ser produzido graças a uma receita encontrada em um livro antigo e à criatividade de produtores rurais. O Cornish Yarg, criado na Cornualha, tornou-se uma iguaria premiada e símbolo da preservação do patrimônio gastronômico britânico.
Um agricultor chamado Alan Gray encontrou no sótão um manuscrito histórico com técnicas culinárias que revelavam como preparar o queijo. Inspirada na descoberta, Catherine Mead, dona da Lynher Dairies, transformou a fórmula quase esquecida em um produto moderno e aclamado.
Mead recebeu da rainha, em 2019, a honraria de Oficial da Ordem do Império Britânico por serviços ao queijo e à comunidade, segundo o Atlas Obscura.
A receita reformulada com ingredientes antigos
O queijo de leite de vaca semifirme é revestido com folhas de urtiga colhidas manualmente. O envoltório de urtiga nativa confere ao produto textura quebradiça e sabor cremoso, com notas de cogumelo. Recuperada da fórmula histórica, a urtiga funciona como aromatizante natural e diferencia o queijo de outras variedades britânicas.
Cada molde leva meses para ficar pronto, e a demanda é alta: a propriedade em Ponsanooth, no oeste da Cornualha, frequentemente fica sem estoque. O livro que inspirou a renovação, intitulado The English Huswife, ainda circula e lista técnicas que, segundo Mead, parecem hilariantes aos olhos modernos ao mencionar “as virtudes internas e externas que devem estar presentes em uma mulher completa.”

Um legado gastronômico recuperado
O sucesso do Cornish Yarg mostra como um conhecimento culinário antigo pode ser recuperado para atender aos paladares atuais. O queijo ganhou prêmios e se tornou representante de um passado vivo, em que tradição e inovação se combinam.
Cada truckle — o molde cilíndrico tradicional — reúne séculos de história britânica e traz um sabor que remete à persistência dos produtores em recuperar uma receita perdida.
Quando o Cornish Yarg não segue a fórmula histórica
Embora se inspire em uma receita do século 17, o Cornish Yarg não reproduz fielmente o queijo do passado. O produto surgiu do renascimento da produção de queijo britânica nos anos 1980 e foi reformulado para os paladares modernos. Catherine Mead e seus colegas passaram décadas redesenhando a receita histórica.
O queijo atual combina técnica antiga e adaptação contemporânea, em vez de reproduzir exatamente os métodos originais.
O livro que guardava o segredo perdido
O manual histórico que inspirou a redescoberta se chama “The English Huswife” e foi publicado em 1615 por Gervase Markham. O livro era um bestseller da época e passou por nove edições antes de 1683. Seu título completo prometia revelar “as virtudes internas e externas que devem estar presentes em uma mulher completa”.
A obra reunia receitas de queijo, remédios, confeitaria, destilação de bebidas e técnicas de tingimento de lã e linho. Era um manual abrangente de conhecimento doméstico, usado como enciclopédia prática por famílias inglesas de séculos atrás.













