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Técnica indígena milenar volta às lavouras para transformar terras pobres em solos férteis

Por Yasmin Henrique
18/08/2026
Técnica indígena milenar volta lavouras

Foto: Rodrigo Corrêa/Revista Pesquisa FAPESP

Uma técnica desenvolvida por povos amazônicos há séculos pode ajudar a recuperar áreas de baixa fertilidade e acelerar o crescimento de árvores. Pesquisadores brasileiros descobriram que pequenas quantidades da chamada Terra Preta da Amazônia, ou Terra Preta de Índio, são capazes de alterar o ambiente ao redor das raízes e favorecer o desenvolvimento de espécies usadas em restauração florestal.

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O efeito foi observado em um experimento realizado no Amazonas com mudas de ipê-roxo e paricá. Após 180 dias, o ipê-roxo cultivado com terra preta apresentou crescimento de até 55% maior em altura e 88% maior no diâmetro do tronco em comparação com plantas que não receberam o tratamento. No paricá, os ganhos chegaram a 20% em altura e 15% no diâmetro.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo, da Embrapa Amazônia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com apoio da FAPESP. O estudo foi publicado na revista BMC Ecology and Evolution.

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Um solo criado pelos povos da Amazônia

Origem e composição

  • Tipo: solo antropogênico, formado e transformado pela ação humana.
  • Origem: povos amazônicos pré-colombianos incorporavam restos orgânicos, carvão, cinzas e cerâmica ao solo.
  • Características: coloração escura e fertilidade superior aos solos naturais próximos.
  • Microrganismos: bactérias, arqueas e fungos contribuem para a ciclagem de nutrientes e podem reduzir organismos patogênicos.
  • Efeito: a aplicação alterou a microbiota das raízes, principalmente os fungos.

Aplicação experimental

  • Quantidade: cerca de 290 cm³ por muda.
  • Local: Campo Experimental do Caldeirão, da Embrapa Amazônia Ocidental, em Iranduba (AM).
  • Duração: seis meses de acompanhamento.
  • Avaliações: crescimento das plantas, características do solo e comunidades microbianas.

Resposta das espécies

  • Ipê-roxo: apresentou o efeito mais expressivo, com maior diversidade e mudanças na composição dos fungos das raízes.
  • Paricá: também respondeu positivamente e tem crescimento rápido, sendo usado em projetos de restauração.

Como funciona

  • Hipótese: a terra preta fornece microrganismos benéficos que reorganizam o ambiente das raízes.
  • Efeito: favorece a disponibilidade de nutrientes e o controle biológico.
  • Principal fator: o resultado parece depender mais da comunidade microbiana, especialmente dos fungos, do que apenas da quantidade de nutrientes.
  • Próximo passo: identificar os microrganismos responsáveis para reproduzir o efeito de forma controlada, sem retirar grandes volumes de Terra Preta da Amazônia.

De conhecimento ancestral a tecnologia

O estudo integra um projeto coordenado pela professora Tsai Siu Mui, do Cena-USP, que investiga as interações entre plantas, solo e microrganismos para aplicações agrícolas e na restauração de áreas degradadas.

Os próximos testes devem identificar quais microrganismos conseguem reproduzir os efeitos da terra preta. A meta é desenvolver soluções biológicas sem retirar grandes volumes desse patrimônio arqueológico e ambiental.

Como a composição química e microbiológica da terra preta varia entre regiões da Amazônia, ainda é preciso determinar quais microrganismos funcionam melhor, em quais espécies e condições de solo e por quanto tempo os efeitos permanecem.

Perguntas e respostas
P
O que é a Terra Preta da Amazônia e como se formou?
R
É um solo antropogênico, formado e transformado pela ação humana; povos amazônicos pré-colombianos incorporavam restos orgânicos, carvão, cinzas e cerâmica ao solo.
P
Que efeito a aplicação de pequenas quantidades de terra preta teve no experimento com mudas?
R
Alterou o ambiente ao redor das raízes, favoreceu o desenvolvimento das espécies testadas e alterou a microbiota das raízes, principalmente os fungos.
P
Quais foram os resultados do experimento para ipê-roxo e paricá após 180 dias?
R
No ipê-roxo, houve até 55% maior crescimento em altura e 88% maior no diâmetro do tronco; no paricá, os ganhos chegaram a 20% em altura e 15% no diâmetro.
P
Onde e como foi conduzido o experimento (quantidade, local e duração)?
R
Foi realizado no Campo Experimental do Caldeirão, da Embrapa Amazônia Ocidental, em Iranduba (AM), com cerca de 290 cm³ de terra preta por muda e acompanhamento de seis meses.
P
Qual é o próximo passo da pesquisa segundo a matéria?
R
Identificar quais microrganismos conseguem reproduzir os efeitos da terra preta para desenvolver soluções biológicas sem retirar grandes volumes da Terra Preta da Amazônia.

Potencial para áreas degradadas

Os resultados podem contribuir para projetos de restauração florestal, já que ipê-roxo e paricá são utilizados na recuperação de áreas degradadas. Um crescimento inicial mais rápido pode favorecer o estabelecimento das mudas.

A técnica, porém, ainda está em fase experimental. Os resultados de seis meses não permitem afirmar que o método já possa ser aplicado em larga escala. A proposta é compreender os mecanismos biológicos desenvolvidos pelos povos amazônicos e reproduzi-los de forma controlada, segura e sustentável.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Yasmin Henrique

Yasmin Henrique

Sou uma jovem de 20 anos que cursa jornalismo na federal de Alagoas. Paulista de nascença, moro há mais de uma década no estado nordestino. Desde pequena fascinada pelo mundo da leitura e da escrita, sempre adorei a ideia de informar as pessoas e meus textos fazerem a diferença na vida de alguém. Ainda estou começando na trilha profissional, mas planejo alcançar muita coisa. Quando não estou estudando, sou redatora do Consulta Pública.

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