Uma vaca austríaca chamada Veronika chamou a atenção de pesquisadores ao demonstrar uma habilidade rara em usar uma vassoura como ferramenta para se coçar.
O achado leva os cientistas a reconsiderar o que sabem sobre a inteligência das vacas e levanta novas questões sobre as capacidades cognitivas de animais de rebanho.
Witgar Wiegele, criador orgânico de uma pequena cidade na Caríntia, perto da fronteira italiana, observou por anos os comportamentos inusitados de Veronika.
Ela começou brincando com pedaços de madeira e, com o tempo, passou a usá-los para coçar o corpo.
Também reconhecia as vozes dos membros da família e corria ao encontrá-los quando era chamada.
Inteligência demonstrada pela vaca Veronika
Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena especializados em inteligência animal reconheceram a importância de um vídeo que mostrava Veronika usando uma ferramenta.
O pesquisador Antonio Osuna Mascaró e sua colega Alice Auersperg decidiram investigar o comportamento pessoalmente.
Com uma escova de cabo comprido, os cientistas conduziram uma série de testes de campo. Em sete sessões, cada uma com 10 tentativas, presenciaram 76 casos de uso da ferramenta.
Veronika não apenas pegava a vassoura, mas a ajustava conforme a necessidade. Quando ela ficava em um ângulo desconfortável, usava a língua para reposicioná-la antes de prendê-la com os dentes.
A vaca escolhe a parte da vassoura conforme a coceira
Veronika demonstrava uma preferência deliberada entre as partes da vassoura.
Usava as cerdas ásperas para coçar a pele mais resistente das costas, mas passava ao cabo liso e macio quando a coceira aparecia em áreas delicadas, como o úbere e a barriga.
Esse uso multifuncional de diferentes partes da mesma ferramenta até então havia sido documentado apenas em chimpanzés.
Osuna Mascaró reconheceu no início que suspeitava estar diante de um comportamento aleatório, mas logo observou um padrão claro.
Depois de um tempo começou a observar que Veronika realmente tinha preferência por usar a extremidade com cerdas, mas quando usava o cabo estava fazendo isso de forma intencional e pensada.
Desafiando a percepção sobre inteligência animal
A história de Veronika desafia a percepção popular sobre a inteligência das vacas, amplificada pela cultura pop.
O cartunista Gary Larson retratou exatamente essa expectativa em sua tira de 1982 “Cow Tools”, mostrando uma vaca diante de objetos estranhamente moldados e de pouca utilidade.
O desenho confundiu tantos leitores, inclusive a mãe de Larson, que o cartunista teve que explicar: embora nunca tivesse encontrado uma vaca que pudesse fazer ferramentas, presumiu que elas careceriam de sofisticação.
Embora Veronika não fabrique ferramentas, sua destreza em utilizá-las motivou uma reavaliação das capacidades cognitivas dos bovinos, questionando suposições científicas tradicionais.
Os pesquisadores sugerem que a suposta simplicidade intelectual do gado pode estar ligada a preconceitos históricos e ao papel utilitário dos animais, e não a limitações reais.
Veronika vive como animal de companhia fora dos circuitos tradicionais de produção e desenvolveu uma relação próxima com humanos, circunstância que pode ter favorecido o desenvolvimento de suas habilidades.
Aos 13 anos de idade, ela é exceção rara: poucas vacas chegam a essa idade ou vivem em ambiente tão estimulante.
O que a descoberta revela sobre bovinos
O trabalho foi publicado na revista científica Current Biology, e desde então, Osuna Mascaró relatou o surgimento de outras vacas inteligentes.
O pesquisador afirma que não considera Veronika “o Einstein das vacas” e que os bovinos têm potencial para inovar no uso de ferramentas, uma capacidade que a ciência desconsiderou durante milhares de anos.
Osuna Mascaró disse que é chocante descobrir isso só agora. Segundo o estudo, o verdadeiro absurdo não está em imaginar uma vaca usando ferramentas, mas em ter ignorado por tanto tempo que essa capacidade pudesse existir.













