Pampa Energía inicia aproximação com governo brasileiro para transformar o país no principal destino da produção da nova unidade argentina, que terá capacidade para 2,1 milhões de toneladas de ureia por ano
Uma das maiores fábricas de ureia do mundo começa a colocar o agronegócio brasileiro no centro de sua estratégia comercial. A argentina Pampa Energía iniciou conversas com representantes do governo brasileiro sobre o potencial de fornecimento do fertilizante produzido no futuro complexo de Bahía Blanca, na Argentina.
O projeto prevê investimento de US$ 2,7 bilhões e capacidade para produzir 2,1 milhões de toneladas de ureia granulada por ano. A entrada em operação está prevista para o fim de 2029. Pela capacidade projetada, a unidade será a maior fábrica de ureia da América Latina e uma das maiores do mundo.
O movimento interessa diretamente ao Brasil por um motivo estratégico: o país importa atualmente entre 7 milhões e 8 milhões de toneladas de ureia por ano, enquanto busca diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades na cadeia de fertilizantes.
Brasil entra no radar da nova fábrica
O presidente do Conselho de Administração da Pampa Energía, Marcelo Mindlin, reuniu-se em Buenos Aires com o secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária, Cleber Oliveira Soares, para discutir as possibilidades de integração entre os dois mercados.
A companhia considera o Brasil o destino natural para uma parcela relevante da produção da futura planta.
“O Brasil é o mercado natural para nossa produção de ureia. Hoje, importa o fertilizante de mercados muito distantes, enquanto a Argentina tem em Vaca Muerta o gás necessário para produzi-la de forma competitiva”, afirmou Mindlin.
Segundo o executivo, a combinação entre matéria-prima disponível na Argentina, proximidade logística e elevada demanda brasileira abre espaço para a criação de um novo fluxo regional de fertilizantes.
A própria estratégia divulgada pela empresa coloca o Brasil como principal mercado externo previsto para a produção de Bahía Blanca.
Vaca Muerta dará gás à produção de fertilizantes
A localização da nova unidade é um dos pilares do projeto.
Instalada no complexo industrial de Bahía Blanca, na província de Buenos Aires, a fábrica terá acesso ao gás natural proveniente de Vaca Muerta, uma das principais formações de hidrocarbonetos não convencionais do mundo.
O gás natural é a principal matéria-prima utilizada na fabricação de amônia e, posteriormente, da ureia. Por isso, disponibilidade e preço do insumo têm forte influência sobre a competitividade da indústria de fertilizantes nitrogenados.
A estratégia da Pampa Energía é justamente transformar parte do gás argentino em um produto de maior valor agregado, conectando a produção energética ao setor agrícola.
Produção equivale a uma fatia relevante da demanda brasileira
Os números ajudam a dimensionar o projeto.
Quando atingir a capacidade prevista de 2,1 milhões de toneladas anuais, a fábrica poderia produzir um volume equivalente a aproximadamente um quarto das atuais importações brasileiras de ureia, embora parte da produção também seja destinada ao mercado argentino e eventualmente a outros destinos.
Isso não significa que a Argentina substituirá os atuais fornecedores brasileiros, mas abre a possibilidade de adicionar uma origem regional relevante à matriz de abastecimento do país.
Para o agro brasileiro, essa proximidade pode se tornar particularmente importante diante da elevada dependência externa em fertilizantes nitrogenados e da exposição do mercado a oscilações internacionais de energia, fretes, câmbio e conflitos geopolíticos.
Maior investimento da história da Pampa
A fábrica representa o maior investimento já realizado pela Pampa Energía.
Durante o pico das obras, a expectativa é de geração de mais de 3.500 empregos diretos, além de milhares de postos indiretos. Depois da entrada em operação, o complexo deverá manter cerca de 300 empregos permanentes.
A companhia estima ainda que a produção de ureia poderá representar aproximadamente US$ 1 bilhão por ano entre substituição de importações argentinas e exportações.
Uma nova rota de ureia para o Brasil
Para o Brasil, o projeto surge em um momento de esforço para ampliar a segurança do abastecimento de fertilizantes.
A produção nacional ainda está longe de atender integralmente à demanda do campo, fazendo com que importações continuem fundamentais para culturas intensivas em adubação, como milho, cana-de-açúcar, café, algodão e trigo, entre outras.
Nesse cenário, a entrada de uma grande fábrica argentina cria uma possibilidade diferente das tradicionais rotas de abastecimento de longa distância.
A proximidade entre os dois países, a escala da nova unidade e a abundância de gás de Vaca Muerta colocam a Argentina em posição para se tornar um fornecedor regional importante de ureia ao agronegócio brasileiro a partir do fim desta década.
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