União Europeia suspende carne, frango, ovos e mel do Brasil; setor corre para reverter bloqueio

Restrição começa nesta quinta-feira (3) após questionamentos sobre regras para uso de antimicrobianos; Comissão Europeia diz confiar nos esforços brasileiros para retomar as exportações

A União Europeia suspenderá, a partir desta quinta-feira (3), as importações de diferentes produtos brasileiros de origem animal, incluindo carne bovina, carne de aves, ovos e mel. A decisão ocorre após o Brasil ter sido retirado da relação de países reconhecidos pelo bloco como cumpridores das exigências europeias relacionadas ao uso de determinados antimicrobianos na produção animal. O movimento mobilizou governo e entidades do setor, que agora tentam restabelecer as vendas para um dos mercados de maior valor agregado do mundo.

Apesar da suspensão, a sinalização política vinda de Bruxelas é de que a porta permanece aberta. A Comissão Europeia afirmou confiar no compromisso brasileiro para solucionar as pendências e permitir a retomada das exportações. Uma auditoria técnica está em andamento no país, com atenção especialmente sobre produtores ligados às cadeias de aves e mel. Os resultados, entretanto, ainda dependerão da elaboração das conclusões pelos especialistas europeus.

Por que a União Europeia suspendeu as compras?

No centro da discussão estão as regras europeias para uso de antibióticos e outros antimicrobianos na pecuária. A legislação do bloco restringe, entre outros pontos, a utilização dessas substâncias como promotores de crescimento e estabelece regras para medicamentos considerados importantes para a medicina humana.

A suspensão ocorre depois de o Brasil ter sido retirado, em maio, da lista de países considerados em conformidade com essas exigências. Para voltar ao mercado, o país terá de apresentar garantias técnicas de que seus procedimentos atendem integralmente às normas sanitárias europeias.

Nos últimos dias, uma missão europeia esteve no Brasil avaliando sistemas de controle, produtores e estabelecimentos ligados às exportações. A expectativa é de que algumas cadeias possam conseguir uma solução mais rapidamente que outras, dependendo dos resultados das auditorias e da documentação apresentada às autoridades do bloco.

Carne bovina preocupa pelo valor do mercado europeu

Para a carne bovina, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que acompanha o episódio com preocupação e trabalha pela reinclusão do Brasil entre os países autorizados a fornecer ao mercado europeu.

Segundo a entidade, garantias oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária já foram apresentadas às autoridades europeias. Paralelamente, Abiec, Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade (ABCAR) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) desenvolveram um protocolo para controle do uso de antimicrobianos, com adesão das empresas associadas habilitadas para exportar ao bloco.

O problema não está apenas no volume. A União Europeia é um destino estratégico para cortes de maior valor agregado, o que dificulta a substituição imediata dessas vendas por outros compradores. Em 2025, segundo os dados apresentados pelas fontes consultadas, o Brasil embarcou cerca de 108,6 mil toneladas de carne bovina para o mercado europeu, aproximadamente 3,5% das exportações brasileiras em volume, mas perto de 5,5% da receita externa do setor.

Outro levantamento citado nas reportagens aponta que as exportações brasileiras de carne bovina ao bloco movimentaram mais de € 713 milhões em 2025, equivalentes a aproximadamente R$ 4,3 bilhões.

Frango aguarda resultado da auditoria

Na avicultura, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) acompanha as negociações e forneceu informações técnicas ao governo durante a missão europeia.

O presidente da entidade, Ricardo Santin, sustenta que a produção destinada à Europa já segue as exigências relativas ao não uso dos antimicrobianos questionados pelo bloco. Segundo ele, a discussão envolve principalmente o nível de fiscalização exigido pelas autoridades europeias. O setor agora aguarda o resultado das tratativas entre Brasil e União Europeia.

A expectativa apresentada nas informações disponíveis é de que aves e mel possam ter uma solução mais rápida caso a auditoria seja considerada satisfatória, enquanto a normalização da carne bovina pode exigir um processo mais demorado devido às características de produção e aos controles específicos da cadeia.

Mel tenta tratamento específico

A cadeia da apicultura também procura o governo para tentar reverter a restrição. O presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), Sergio Farias, argumenta que não há registro de uso de antibióticos relacionado às exigências levantadas pela União Europeia na produção brasileira de mel.

Na avaliação do dirigente, o produto teria acabado incluído na suspensão por integrar o conjunto dos produtos de origem animal sujeitos às novas exigências. Apesar da confiança em uma solução, o setor admite a possibilidade de que o impasse não seja resolvido antes da entrada em vigor do bloqueio.

Suspensão coloca mercado bilionário em jogo

Embora a União Europeia não seja o maior comprador do agronegócio brasileiro em volume, o bloco tem importância relevante pelo valor dos produtos negociados e pelas exigências que impõe aos fornecedores.

Estimativas mencionadas pelas entidades do setor indicam que uma suspensão envolvendo carnes, ovos e mel poderia colocar em risco aproximadamente US$ 1,8 bilhão por ano em exportações brasileiras, além de provocar efeitos comerciais e de imagem em outros mercados compradores.

Por enquanto, não existe um prazo único para o fim das restrições. A Comissão Europeia afirma que os produtos poderão voltar ao bloco quando o Brasil comprovar o cumprimento das normas sanitárias exigidas. O cenário, portanto, transforma os próximos resultados técnicos em peça decisiva: quanto mais rapidamente governo e cadeias produtivas demonstrarem conformidade, menor tende a ser o impacto sobre as exportações brasileiras.

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