Usando um tablet ele virou Campeão de soja por m²

Usando um tablet ele virou Campeão de soja por m²

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campeão de soja por m²
Maurício de Bortolli, engenheiro agrônomo da Sementes Aurora, campeão do Desafio Máxima Produtividade de Soja 2019| Foto: Michel Willian

A tecnologia de hoje permite que o campo quebre novas barreiras e se posicione como campeão de produtividades e quem não se adequar estará fora!

Uma mistura de agricultor, cientista e tecnólogo da informação: o campeão do Desafio de Produtividade Máxima de Soja neste ano é um gaúcho de 40 anos, de Cruz Alta, que não se separa de smartphones e tablets para monitorar, em tempo real, o andamento de suas lavouras.

Numa área experimental de 2,5 hectares, Maurício de Bortolli e o irmão, Eduardo, ambos engenheiros agrônomos, colheram no último ciclo de verão 123,8 sacas de soja por hectare, mais do que o dobro da média nacional, de 53,4 sacas. A forma profissional e tecnológica como a fazenda é conduzida já havia sido retratada, em março deste ano, em reportagem especial da Expedição Safra da Gazeta do Povo (iPad vira a nova ‘enxada’ das lavouras), que visitou o produtor em seu giro pela região Sul do Brasil.

A colheita excepcional de mais de 120 sacas por hectare não foi suficiente, no entanto, para quebrar o recorde brasileiro, de 149,08 sacas por hectare, obtido pelo produtor Marcos Seitz, de Guarapuava (PR), na safra 2016/17.

A média de produtividade dos irmãos Bortolli na área comercial da fazenda dedicada à soja, 7.340 hectares, foi de 72,6 sacas por hectare, contra uma média, no município de Cruz Alta, de menos de 55 sacas. A colheita só não foi melhor, segundo Maurício, por que as propriedades da família ficam numa região do Rio Grande do Sul que não é a mais adequada para a produção de soja. “Estamos numa região de solo franco-arenoso, não tem tanto teor de argila, nossos níveis de fertilidade natural não são tão elevados, os solos são ácidos e tivemos problema de falta de chuva”, diz. “Como contornamos tudo isso?”, pergunta o próprio produtor. “Usamos conhecimento. Aplicamos corretivos na hora certa, fazemos cobertura, rotação de culturas, manejamos a fertilidade de forma mais homogênea possível, conhecemos e aplicamos a genética neste ambiente de maneira correta. Não adotamos tecnologias por opinião, mas com base em informação”, revela o produtor.

Uma prática constante entre todos os campeões regionais deste ano foi a alternância do plantio de soja com várias culturas, e não apenas a dobradinha com milho. “Isso mostra que ninguém vive sozinho, nem nós mesmos, nem a soja”, observa Leandro Zancanaro, gestor de pesquisas da Fundação MT.

“A soja é uma leguminosa, tem alta capacidade de fixação de nitrogênio e produz proteína e óleo. Sem essa cultura, nosso sistema de produção ficaria muito limitado. Mas ela também depende das outras culturas. Um estudo de onze anos na Fundação MT demonstrou que quando se coloca o milheto, braquiária, milho e pecuária no jogo, você consegue aumentar a produtividade. A segunda cultura agregou, nesses onze anos, mais de 100 sacas de soja por hectare. Com a mesma chuva, com a mesma máquina, mesmos insumos. Que outro fator de produção te dá nove sacas de retorno por ano?”, provoca Zancanaro. O professor Paulo Sentelhas, da Esalq-USP, que apresentou o case vencedor nacional, corrobora a análise do colega:  “As lavouras já estão bastante tecnificadas. É da prática de rotação de culturas que devem vir, daqui para frente, os maiores ganhos de produtividade”. Na propriedade supercampeã, dos Bortolli, as áreas de soja tiveram rodízio, nos últimos quatro anos, com azevém, aveia preta, milho, trigo e mix de cobertura vegetal.

“Agricultura de capricho” é outro fator que ajuda a explicar o sucesso das colheitas do campeão do Desafio Máximo de Produtividade em 2019. “Não produzimos grãos para ser esmagados, como commodity. Sou produtor de sementes, que são seres vivos. Isso se chama agricultura de capricho. Somos muito mais cobrados. Temos auditorias internas e também de nossos parceiros, os detentores de tecnologia, que nos visitam semanalmente, mensalmente, para observar se o campo está num padrão tecnológico ideal, se não tem mistura varietal e se na hora de colher tem qualidade. Somos amplamente investigados em todo o processo. Trabalhamos com um ser vivo e somos avaliados por genética, germinação e rigor”, aponta Bortolli.

Pela primeira vez nas 11 edições do desafio, uma propriedade com soja irrigada foi a grande campeã. A irrigação, contudo, não é feita para suprir 100% da necessidade hídrica, mas ocorre pontualmente, conforme um rígido monitoramento das condições do solo. “Investimos em três sondas de solo que medem como a água está se comportando. Não é simplesmente uma tomada de decisão empírica, mas é tecnológica. Isso nos torna mais assertivos para dizer o quanto e quando tem que irrigar, e não simplesmente irrigar no achômetro”, explica Maurício Bortolli. Mesmo esquema de monitoramento digital, e mapas de produtividade, é seguido para aplicação de fertilizantes e defensivos em dose certa.

O Desafio de Máxima Produtividade da soja é realizado há dez anos pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), uma entidade sem fins lucrativos, com mais de 25 empresas associadas, dedicada à difusão de tecnologias e boas práticas para impulsionar a produtividade de soja por metro quadrado – produzir mais e no mesmo espaço – mantendo a sustentabilidade de todo o processo.

“Chamamos a iniciativa de desafio e não de concurso. A ideia não é produzir mais do que os outros, mas que o produtor desafie a si mesmo a ganhar produtividade. Quando um produtor vê o que o vizinho é capaz de fazer para obter produtividade maior, no mesmo mundo dele, isso acaba sendo um incentivo”, afirma o presidente do CESB, Leonardo Sologuren.

Todos os resultados alcançados pelos vencedores do Desafio Máximo de Produtividade, as tecnologias e as práticas adotadas, são disponibilizados online na página do CESB (www.cesbrasil.org.br), com livre acesso.

Campeões regionais

O segundo lugar e o título de maior produtor em uma área não irrigada foram também para o Rio Grande do Sul. A propriedade da Família Tolotti, da cidade de Erval Seco, conseguiu colher 123,50 sc/ha, se consagrando ainda como a campeã da categoria sequeiro na Região Sul. O campeão da categoria sequeira na Região Sudeste foi Matheus Grossi Terceiro, da cidade de Patrocínio (MG), com 110,45 sc/ha. Na Região Centro-Oeste, categoria sequeiro, o grupo Fazenda Reunidas, de Rio Verde (GO), se consagrou campeão, com a produção de 108,74 sc/ha. Da Bahia veio o campeão da categoria sequeiro na Região Norte-Nordeste: com 96,86 sc/ha, João Gorgen levou o troféu.

*O repórter viajou a convite do CESB.

Fonte: Gazeta do Povo

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