“Vaca louca”: Descarte antecipado pode reduzir o risco

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Foto Divulgação.

Você sabe o risco de se ter e comercializar vacas velhas? Nem sempre a sanidade de um rebanho anda na mesma direção do melhoramento animal.

Em um novo material publicado pelo Enrico Ortolani, Médico veterinário e professor titular do departamento de clínica médica pela FMVZ-USP, em uma edição da Revista DBO, ele aborda o tema com o título de ” Ter vaca velha é dar sopa pro azar!”. Acompanhando as informações e revendo os dados, observamos o grande risco na manutenção, dentro das propriedades, de matrizes com idade avançada. Além de ser um risco sanitário é também um prejuízo na produtividade!

Para se ter uma ideia, o impactos dos casos atípicos da vaca louca – identificados final de agosto de 2021 – nos preços da arroba já trouxeram um recuo de quase 17,99%, segundo o fechamento do Cepea no dia 22 de outubro, comparado a o dia em que foi divulgado a suspeita do caso no Brasil.

Surgimento de tudo não foi no Brasil

Segundo os relatos científicos, a EEB tradicional – a Vaca Louca – que assustou o mundo e acabou dizimando milhares de bovinos na Inglaterra, atingiu boiadas acima de três anos e se originou a partir da ingestão desses príons alterados.

O início de tudo começou com um animal que tinha EEB atípica que, como era permitido e virou ração, levando a ingestão pelos bovinos locais e, com o aumento do número de casos, cujos bois também viraram farinha, a doença tomou proporção alarmante. Dez anos mais tarde, o problema atingiu uma centena de seres humanos que consumiram alimentos -cérebro, medula e baço – contaminados, presentes em alguns subprodutos cárneos.

Em função de, antes da epidemia de EEB, o Reino Unido ser um grande exportador de animais para reprodução e de farinha de carne e ossos, a EEB acabou atingindo sucessivamente outros países. Ocorreram mais de 5.068 casos (aproximadamente 2,75% do total mundial de casos) de EEB até dezembro de 2004 em diversos países no resto do mundo. Mas, em nenhum momento, o Brasil teve um caso diagnosticado como caso clássico da doença.

Vaca Louca Clássica e Atípica

A doença da vaca louca pode se manifestar de duas formas — a variante clássica e a atípica. A clássica ocorre em bovinos após a ingestão de ração contaminada com príons, enquanto a atípica pode aparecer espontaneamente em todas as populações de gado, como o que foi observado no Brasil. A versão atípica é considerada de ocorrência “natural e esporádica”, ou seja, ela provavelmente sempre está presente em grandes populações de gado, mas em uma proporção muito baixa e só costuma ser identificada quando são adotados procedimentos de vigilância intensiva.

Manejo de Descarte de Vacas

Um estudo brazuca, num grande rebanho de cria, recria e engorda, identificou as maiores mortalidades anuais em relação à idade. As duas mais afetadas foram a bezerrada até a desmama (9%) e as vacas acima de 10 anos (6%).

O envelhecimento aumenta muito o risco de surgimento de doenças, quer sejam elas infecciosas, tumorais ou degenerativas. Comecemos com a EEB atípica, apontou o veterinário Ortolani.

Já escrevi em minha coluna sobre o risco de se ter e comercializar vacas velhas. Nem sempre a sanidade de um rebanho anda na mesma direção do melhoramento animal. Há muito, os melhoristas “vendem o peixe” de seleção de vacas para longevidade. Essa seleção é sedutora para o pecuarista, que, assim, pode gastar menos com a renovação de seu plantel e de quebra vender novilhas para abate. Aparentemente, só sai no lucro, mas nem sempre é assim. Examinando vacas de boas propriedades encontrei reses com até 18 anos de idade, já com os dentes caducos. Uma pergunta que não quer calar é: “Por que elas ainda estavam no rebanho?” Enquadrei as respostas fornecidas pelos pecuaristas em duas categorias: uma emocional (essa vaca já me deu bons bezerros) e outra aparentemente técnica (essa linhagem me foi vendida como a que tem alta longevidade)“, questionou o Professor, colocando em pauta a relação do descarte desses animais e o melhoramento genético.

Produtividade

Trazendo os reais fatos e dados para a discussão, é preciso estar atento a alguns fatores para a tomada de decisão, levando em conta a produtividade do rebanho. Sendo assim, as pesquisas apontam que:

  • Novilhas e fêmeas até o segundo gestação parem bezerros mais leves, atingindo peso máximo no quarto/quinto partos e caindo a partir daí.
  • Bezerros nascidos com peso adequado (machos: 29-34 kg; fêmeas: 27-31 kg) morrem menos do que a bezerrada mais leve ou excessivamente pesada.
  • Dessa forma a mortalidade de bezerros triplica em novilhas e duplica em vacas com mais de 10 anos, em relação às fêmeas com idades intermediárias.

Segundo a matéria divulgada pelo Professor e Veterinário, Enrico Ortolani, apontou que “existe uma enorme relação entre esse peso e a produção de leite da fêmea. Novilhas produzem bem menos leite do que vacas de segunda/terceira crias, chegando ao pico na quinta/sexta lactações e declinando em vacas com 10 anos ou mais”.

vaca louca brasil
Foto Divulgação.

Ainda em relação a parte produtiva dos animais, é preciso levar em conta que a idade também interfere na fertilidade da vacada. Para se ter uma noção, um estudo mostrou que a novilhada ficou na casa dos 65 %; vacas com 6 a 8 anos, atingiram pujantes 85% e vacas acima de 10 anos retornaram ao patamar das novilhas em relação a fertilidade.

Risco sanitário

“Felizmente, a produtividade da pecuária de corte melhorou a partir de 1990. Mas, temos muito que evoluir. Mire-se no exemplo das melhores propriedades leiteiras: visando a máxima eficiência, as fazendas “top” descartam todas as fêmeas no final 4ª lactação. A decisão deles é corretíssima! Por que não seguimos o exemplo?” questionou Ortolani.

O pior dos casos é que, segundo ele, o envelhecimento aumenta muito o risco de surgimento de doenças, quer sejam elas infecciosas, tumorais ou degenerativas. Comecemos com a EEB atípica.

O professor ressalta e mostra que “no Brasil, temos, por baixo, 8 milhões de vacas ou touros de corte com 12 ou mais anos, ou seja, uns 4,6 % da população bovina. Como dito no começo do artigo, todas as vacas com EEB achadas no Brasil eram velhinhas “para dar com pau”. Por que elas foram parar nos frigoríficos, colocando em risco a pecuária? Vacas com mais de 10 anos têm uma menor produção e persistência de anticorpos quando vacinadas (vide a 3ª dose da vacina contra COVID em pessoas com mais de 60 anos), além de terem seus mecanismos de defesa menos “engraxados”. Elas passam a ser vítimas de doenças crônicas, como a tuberculose. Falando no diabo, dados de dois grandes frigoríficos mineiros identificaram que a frequência de tuberculose chega a triplicar em vacas velhas em relação a boiadinha nova“.

Antecipar o abate pode evitar o risco para a pecuária

Para finalizar o assunto, após mostrar o grande impacto negativo da manutenção desses animais com idade avançada dentro do rebanho brasileiro, é sugerida uma política ou protocolo de descarte que vise a inibição da chegada destes animais até os frigoríficos.

Finalizando, Enrico Ortolani, comenta sobre algumas sugestões. “Poder-se-ia falar muito mais dos efeitos negativos do envelhecimento bovino, mas frente ao exposto, eu aproveito para fazer duas sugestões para o MAPA e as secretarias de Defesa Animal: que as guias de vacinação e de GTA, contenham no item idade (atualmente, só animais com mais de 36 meses) as categorias de três a oito anos e mais de 8 anos. E que só sejam abatidos bovinos com até 11 anos de idade (com dois anos de carência, a partir da regulamentação), evitando-se assim grandemente o risco de EEB atípica e sobressaltos no seu bolso. Sem coragem e planejamento não avançaremos. Com a palavra, agora, as autoridades!

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