Vai faltar boi? Recorde de abates esconde virada do ciclo pecuário e produção de carne deve cair em 2027

Brasil abateu 10,72 milhões de bovinos no segundo trimestre, maior volume da série para o período, mas redução no abate de vacas e projeção de menor produção em 2027 indicam mudança importante na oferta de animais

O Brasil nunca abateu tantos bovinos em um segundo trimestre quanto agora. Foram 10,72 milhões de cabeças entre abril e junho de 2026, enquanto a produção alcançou aproximadamente 2,76 milhões de toneladas de carcaças bovinas. À primeira vista, números dessa magnitude parecem afastar qualquer discussão sobre uma possível escassez de gado.

Mas existe um movimento importante escondido dentro desse recorde. O abate de vacas caiu 5% em relação ao segundo trimestre de 2025 e, considerando vacas e novilhas conjuntamente, houve retração de aproximadamente 1,9% no abate de fêmeas. Foi a primeira queda desse indicador para um segundo trimestre desde 2021.

Isoladamente, ainda é pouco para decretar uma virada definitiva. Quando o dado do IBGE é combinado, porém, com as novas projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aparece um cenário que merece atenção: a pecuária brasileira começa a apresentar sinais de transição da longa fase de liquidação de fêmeas para um período de retenção e reconstrução do rebanho.

E isso pode significar menos bovinos disponíveis para os frigoríficos nos próximos anos.

Recorde de abate, mas com uma mudança importante

Segundo o IBGE, o abate de 10,721 milhões de bovinos no segundo trimestre representou crescimento de 1,3% sobre igual período de 2025 e de 4% frente aos primeiros três meses deste ano. A produção de carcaças bovinas chegou a 2,758 milhões de toneladas, avanço anual de 3%.

A composição desse abate, entretanto, conta uma história diferente.

Foram aproximadamente 5,016 milhões de bois, alta anual de 3,5%, enquanto o abate de vacas caiu para cerca de 3,424 milhões de cabeças, redução de 5%. No caso das novilhas, ainda houve crescimento de 4,6%, para 1,835 milhão.

As fêmeas continuam representando parcela elevada dos animais abatidos, portanto ainda não existe uma retenção intensa e generalizada. O que mudou foi a direção do movimento.

Análise publicada após os dados do IBGE mostra que as fêmeas responderam por aproximadamente 49% do abate bovino no trimestre. Na média móvel de 12 meses, a participação ficou em 46,9%, ainda acima da média histórica dos últimos 15 anos, de 42,5%.

Isso ajuda a explicar por que os próximos levantamentos serão fundamentais para confirmar se a pecuária realmente entrou em uma nova etapa do ciclo.

Por que menos vacas no frigorífico muda o ciclo?

A dinâmica é relativamente simples. Quando a rentabilidade da cria diminui, o bezerro perde valor ou o produtor precisa gerar caixa, aumenta o descarte de matrizes. Mais vacas chegam aos frigoríficos, ampliando a disponibilidade de animais e carne no curto prazo.

O problema aparece posteriormente: menos matrizes significam menor capacidade de produzir bezerros.

Quando o bezerro volta a se valorizar e melhora a rentabilidade da cria, a lógica se inverte. O produtor passa a ter maior incentivo para manter fêmeas produtivas na propriedade. Com menos vacas destinadas ao abate, diminui a oferta imediata de animais enquanto o rebanho começa a ser reconstruído.

É justamente esse movimento que começa a aparecer nos números.

Somente em 2025, 20,1 milhões de fêmeas foram abatidas no Brasil, representando 46,8% de todo o abate bovino daquele ano. O primeiro trimestre de 2026 também manteve volumes historicamente elevados.

Por isso, a queda observada agora não significa que o Brasil ficará sem boi de uma hora para outra. Significa que a enorme oferta produzida durante a fase de liquidação pode estar se aproximando do fim.

Conab já projeta menos carne bovina

As novas projeções da Conab reforçam essa leitura. Para 2026, a Companhia estima produção de 11,84 milhões de toneladas de carne bovina, ligeiramente abaixo de 2025, movimento que a própria estatal relaciona ao início da reversão do ciclo pecuário.

A mudança deverá ficar mais evidente em 2027. A projeção é de aproximadamente 11,41 milhões de toneladas, queda próxima de 3,6% em relação a 2026.

A razão apresentada é exatamente a esperada para uma fase de reconstrução do rebanho: maior retenção de fêmeas e, consequentemente, menor disponibilidade de animais para abate.

Isso não significa falta de carne nos supermercados. Significa uma oferta bovina mais ajustada em comparação ao período recente.

Bezerro ajuda a explicar a mudança

Outro indicador reforça essa possibilidade. A relação entre o preço do bezerro e o boi gordo subiu aproximadamente 10% em 2026 e alcançou o maior patamar desde 2021, segundo análise do Bradesco BBI repercutida após a divulgação dos números do IBGE.

Quanto maior o valor do bezerro, maior tende a ser o incentivo econômico para o criador preservar matrizes capazes de produzir a próxima geração.

Para quem trabalha com recria e engorda, entretanto, existe o outro lado da conta: a reposição fica mais cara justamente quando a disponibilidade de animais começa a diminuir.

Essa combinação é característica da mudança de ciclo. Primeiro, melhora a remuneração do bezerro; depois, cresce o estímulo à retenção de matrizes; posteriormente, a oferta para abate tende a ficar mais apertada.

Menos oferta e exportações elevadas

Há ainda uma variável importante nessa equação: o mercado externo.

Mesmo projetando redução da produção bovina, a Conab estima exportações brasileiras de 4,73 milhões de toneladas em 2026, crescimento de 4,46% sobre o ano anterior. Para 2027, os embarques podem alcançar aproximadamente 4,84 milhões de toneladas.

Caso essas projeções se confirmem, o Brasil poderá atravessar uma combinação especialmente relevante para a formação dos preços: menor produção de carne bovina enquanto permanece elevada a demanda externa pelo produto brasileiro.

É um cenário que merece atenção tanto dos frigoríficos quanto dos pecuaristas, principalmente na formação dos novos lotes e nas decisões de reposição.

Afinal, vai faltar boi?

Os números não indicam risco de desabastecimento de carne bovina no Brasil. O que eles começam a mostrar é uma possível mudança na disponibilidade de gado depois de vários anos de elevado descarte de fêmeas.

O recorde de 10,72 milhões de bovinos abatidos no segundo trimestre comprova que ainda existe muita oferta. Mas a redução do abate de vacas mostra que algo começou a mudar, enquanto a Conab já projeta queda de 3,6% na produção de carne bovina em 2027 justamente pela retenção de fêmeas e menor disponibilidade de animais.

Se essa tendência continuar nos próximos levantamentos do IBGE, 2026 poderá marcar a passagem da abundância de animais provocada pela liquidação de matrizes para uma fase de oferta mais restrita.

Portanto, a pergunta para o mercado talvez não seja exatamente se vai faltar boi, mas quanto boi estará disponível — e a que preço — quando a retenção de fêmeas ganhar força.

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