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Restauração de solo, medição de carbono: estudo diz que pecuária deverá superar papel de vilã

Importante emissora de gases de efeito estufa, a pecuária brasileira tem sido alvo de diversos estudos científicos para mudar padrões produtivos e livrar-se do papel de vilã. Um deles, lançado no final de março a partir do mapeamento das pastagens no território nacional e de simulações baseadas em dados econômicos e ambientais, demonstra o caminho: com a expansão de práticas sustentáveis em sistemas integrados à agricultura, a atividade pode ter expressivo crescimento, alcançar maior lucratividade sem desmatar novas áreas e ainda virar o jogo dos impactos negativos, tornando o hábito de comer carne parte da solução ­ e não um problema ­ para o combate às mudanças climáticas.

“Se não fizermos um trabalho rápido de adaptação, o agronegócio estará fortemente ameaçado”, adverte Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, em Campinas (SP), coautor do relatório em parceria com o Centro de Estudos do Agronegócio (GVAgro), da Fundação Getúlio Vargas, e Embaixada Britânica.

Entre as novidades, a pesquisa apontou que, mediante a integração com a lavoura e o aumento da lotação de 1,55 para 2,20 animais por hectare, é possível melhorar o solo, ampliar o rebanho brasileiro das atuais 200,00 milhões para 324,00 milhões de cabeças e ao mesmo tempo neutralizar as emissões de gases de efeito estufa em dez anos.

Ao abranger 100,0% das pastagens do país (hoje, 169,00 milhões de hectares), o modelo de maior eficiência e baixa emissão causaria impacto de R$35,80 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) por ano, considerando o efeito multiplicador na cadeia produtiva.

No cenário menos otimista, se o modelo cobrir um quarto das atuais áreas produtivas, a injeção no PIB seria de R$9,00 bilhões ao ano. “Produtores têm constatado os benefícios de rendimento e os resultados estimulam a replicação no campo”, afirma Assad, ao lembrar a importância do treinamento e educação, além do engajamento dos agentes financeiros.

Segundo ele, o inventário brasileiro de emissões que deverá ser divulgado até meados deste ano, a partir de metodologia mais aprimorada, trará novos dados que poderão confirmar um potencial ainda maior da agropecuária na retirada de carbono da atmosfera, contribuindo em grau mais elevado para o cumprimento das metas climáticas assumidas internacionalmente pelo país.

Sendo assim, afirma o estudo da Embrapa e GVAgro, “a carne brasileira, que já apresenta preço competitivo no mercado externo, poderia ampliar espaços também pelo aspecto ambiental, com baixa emissão de carbono, certificação e boas práticas agropecuárias”.

Recente trabalho científico, também da Embrapa, em parceria com as universidades de São Paulo e de Edimburgo, concluiu que ­ ao contrário do que se imaginava até agora ­ o aumento do consumo de carne tende a reduzir e não a aumentar as emissões atmosféricas da pecuária de corte no Cerrado. Uma demanda 30,0% mais alta em 2030 causaria uma diminuição de 10,0% nas emissões totais. Por outro lado, uma redução de 30,0% no consumo de carne em relação ao valor projetado para o período significaria um aumento de carbono de 9,0%.

Integrado à iniciativa global AnimalChange, o estudo considerou os impactos ao longo da cadeia produtiva, dos insumos no campo aos frigoríficos. “A pressão da demanda força o aumento da produtividade, com mais gado por hectare e redução de desmatamento”, diz Luís Gustavo Barioni, co­autor do trabalho.

A adoção de práticas sustentáveis na cadeia de fornecimento de carne bovina, do campo ao varejo, poderia economizar US$1,00 bilhão em custos de energia e reduzir o lançamento de pelo menos 16 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. A conclusão é do estudo recém-concluído no Brasil pela organização internacional Carbon Trust.

“Falta o mercado reconhecer esse valor, porque os investimentos e os riscos são maiores em relação ao método tradicional, embora os resultados sejam bastante positivos”, afirma Caio Dalla Vecchia, diretor de novos negócios do Grupo Roncador.

Na Fazenda Água Viva, com 1,70 mil hectares de pastagens e 2,10 mil cabeças de gado em Cocalinho (MT), a empresa adota tecnologias de restauração de solo e medição de carbono, com o objetivo de replicar práticas sustentáveis entre pecuaristas do Vale do Araguaia, totalizando 50,00 mil hectares.

“A partir dos inventários, o projeto é traçar estratégias produtivas para os próximos cinco anos, na perspectiva de reduzir a pressão sobre o desmatamento e evitar a emissão de 350,00 mil toneladas de carbono”, revela Julio Natalense, líder de tecnologia e sustentabilidade da Dow, indústria química que produz insumos para a cadeia da carne e mantém parceria com o Grupo Roncador para a medição do carbono antes e depois da adoção de práticas sustentáveis.

“Uma barreira é o perfil conservador dos produtores em relação à questão climática”, aponta Roberto Strumpf, consultor da Pangea Capital, responsável pela adaptação à realidade da agropecuária brasileira do GHG Protocol, método desenvolvido globalmente pelo World Resources Institute para aferir emissões, agora aplicado na região do Araguaia.

O projeto é comprovar a relação entre o aumento da produtividade e a mitigação de carbono. Segundo Strumpf, “a recuperação de pastagem permite triplicar a quantidade de animais por hectare e neutralizar as suas emissões”.

Somado a isso, a associação com a lavoura “gera o milagre da multiplicação”, ilustra o pesquisador João Kluthcouski, o João K., da Embrapa Cerrado, coordenador de pesquisas que têm constatado o alto rendimento de sistemas que integram gado e cultivo de grãos, inclusive em solos arenosos de São Paulo, Paraná e Oeste baiano, com aumento de produtividade de 20,0% na agricultura.

No Brasil, o método abrange cerca de 4,00 milhões de hectares, a maior parte em Mato Grosso (1,00 milhão de hectares). O potencial de expansão é expressivo, sabendo-se que no Brasil existem cerca de 30,00 milhões de hectares de pastagens degradadas, com baixa produtividade. A meta do Ministério da Agricultura é recuperar 15,00 milhões de hectares até 2020. “Há crédito, mas falta transferência de informação ao produtor”, afirma João K.

Fonte: Valor Econômico. 29 de abril de 2016

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