O boi se adapta ao confinamento. Mas quem adapta o rúmen à dieta?

Entenda por que a adaptação no confinamento também ocorre no rúmen e como dieta, microbiota e manejo ajudam a reduzir riscos de acidose

Quando falamos em confinamento, uma das palavras que mais ouvimos é adaptação. Falamos em período de adaptação, dieta de adaptação, adaptação ao confinamento e adaptação do animal. Mas existe uma pergunta que considero importante: Quando dizemos que o boi precisa se adaptar à dieta, quem realmente está se adaptando?

O animal, sem dúvida, passa por um processo de adaptação. Ele muda de ambiente, de rotina, de manejo, de instalações, de lote e de alimentação. Mas, dentro dele, existe outro processo acontecendo ao mesmo tempo. O rúmen também precisa acompanhar essa mudança.

E talvez entender isso seja uma das melhores formas de compreender por que a adaptação da dieta é tão importante no confinamento.

O BOI SE ADAPTA AO AMBIENTE. O RÚMEN SE ADAPTA À DIETA

Imagine um animal que passou boa parte da vida a pasto.

Ele conhece aquele ambiente.

Conhece a rotina.

Conhece o alimento disponível.

Está acostumado ao clima, ao espaço e à forma como busca o alimento.

De repente, ele chega a uma propriedade diferente.

Passa por transporte, desembarque, novos animais, novas instalações, novos manejos e uma nova rotina alimentar.

O animal precisa se adaptar a tudo isso.

Mas, ao mesmo tempo, o alimento que chega ao seu rúmen também começa a mudar.

E o rúmen não é apenas um compartimento onde o alimento fica.

Ele é um ecossistema vivo, habitado por uma enorme comunidade de microrganismos.

Quando mudamos a dieta, mudamos também os nutrientes e substratos disponíveis para esses microrganismos.

Consequentemente, mudam a fermentação, os produtos gerados e a própria composição da comunidade microbiana.

Por isso, a adaptação não acontece somente no animal. Ela também acontece dentro dele.

O RÚMEN PRECISA “CONHECER” A NOVA DIETA

Gosto de pensar na adaptação dessa maneira:

o rúmen precisa conhecer a dieta que está chegando.

Não significa que exista uma bactéria específica para cada ingrediente ou que o rúmen simplesmente “aprenda” uma receita.

O que acontece é muito mais complexo.

Os diferentes microrganismos utilizam diferentes componentes dos alimentos como substratos. Quando mudamos a proporção de forragem e concentrado, mudamos o ambiente em que essa comunidade trabalha.

Uma dieta com maior quantidade de fibra oferece condições diferentes daquela com maior quantidade de amido e carboidratos rapidamente fermentáveis.

Com a mudança da dieta, a comunidade microbiana também muda.

Estudos acompanhando bovinos durante a transição para dietas de maior concentração de grãos demonstram justamente alterações na população microbiana

Ou seja, quando falamos em adaptação de dieta, estamos permitindo que esse sistema acompanhe a mudança.

NÃO É APENAS UMA QUESTÃO DE “ACOSTUMAR A COMER”

Talvez esse seja um dos maiores erros na forma de explicar a adaptação.

Às vezes dizemos que precisamos dar alguns dias para o boi “se acostumar” com a dieta.

Mas o processo é muito mais profundo do que isso.

Não estamos simplesmente esperando que o animal aceite um novo alimento.

Estamos proporcionando tempo para que o ambiente ruminal, a população microbiana, os padrões de fermentação e os mecanismos de absorção acompanhem a nova condição alimentar.

É por isso que a velocidade da mudança importa.

Uma alteração muito rápida na quantidade de carboidratos rapidamente fermentáveis pode aumentar a produção de ácidos no rúmen e reduzir o pH, alterando o equilíbrio do ambiente ruminal e aumentando o risco de distúrbios como a acidose.

A adaptação, portanto, não é tempo perdido.

É tempo investido para preparar o sistema.

E NÃO SÃO APENAS AS BACTÉRIAS

Quando pensamos em adaptação ruminal, é comum concentrarmos toda a atenção nos microrganismos.

Eles realmente têm um papel fundamental.

Mas o rúmen também responde à mudança.

O epitélio ruminal participa da absorção e do metabolismo dos ácidos graxos produzidos durante a fermentação. Com a introdução de dietas mais concentradas, ocorrem mudanças nessa estrutura e na sua capacidade de absorção.

Então temos vários processos acontecendo ao mesmo tempo:

O alimento muda.

Os microrganismos respondem.

A fermentação muda.

Os produtos da fermentação mudam.

O epitélio ruminal também responde.

E o organismo do animal precisa utilizar todos esses nutrientes.

É um sistema inteiro se ajustando.

E AQUI ENTRA UMA COISA QUE VEMOS NA PRÁTICA

Na nossa realidade aqui na fazenda, os animais não chegam e entram diretamente no confinamento.

Eles chegam a pasto e permanecem, em média, 15 dias nessa fase antes de subir para o manejo de entrada e posteriormente adentrar ao confinamento.

Durante esse período, os animais já recebem uma dieta TIP, como parte da estratégia nutricional adotada na propriedade.

Depois, seguem para o manejo de entrada e passam para a dieta de adaptação no confinamento.

Quando olhamos para esse processo com a visão do rúmen, conseguimos entender que esses períodos não são apenas etapas de manejo.

Existe uma sequência de mudanças alimentares acontecendo.

O animal começa a ter contato com uma nova realidade nutricional antes mesmo de entrar na baia.

E isso é interessante porque pesquisas com bovinos Nelore mostram que o histórico alimentar anterior à entrada no confinamento pode influenciar a resposta dos animais durante a adaptação a dietas com maior concentração de concentrado. Animais previamente expostos a concentrado apresentaram melhor adaptação posterior em comparação com animais que não tiveram essa exposição.

Claro que cada propriedade possui sua estratégia, seus ingredientes, suas dietas, seus animais e suas condições de manejo.

Mas a lógica permanece:

quanto melhor entendemos o que acontece dentro do rúmen, melhor conseguimos compreender a importância de uma transição alimentar bem conduzida.

O QUE ACONTECE QUANDO MUDAMOS A DIETA RÁPIDO DEMAIS?

Aqui está um ponto importante.

Se a dieta muda, o ambiente ruminal muda.

Se a fermentação se torna muito intensa e rápida, a produção de ácidos pode aumentar.

Ao mesmo tempo, o rúmen precisa conseguir absorver e utilizar esses produtos da fermentação.

Quando produção e remoção não estão equilibradas, o pH pode cair.

Em condições de maior concentração de carboidratos rapidamente fermentáveis, esse desequilíbrio pode favorecer alterações na microbiota e aumentar o risco de acidose.

Por isso, a adaptação não deve ser vista apenas como uma sequência de dias na planilha.

Ela precisa ser acompanhada pelo comportamento dos animais, pelo consumo, pelas fezes, pela leitura de cocho, pelo manejo e pelos indicadores disponíveis.

A dieta pode estar correta no papel, mas precisamos saber como o animal e o rúmen estão respondendo a ela.

ADAPTAR É PERMITIR QUE O SISTEMA ACOMPANHE A MUDANÇA

Talvez essa seja a melhor maneira de resumir.

O objetivo da adaptação não é fazer o animal comer o máximo possível o mais rápido possível.

É permitir que o sistema consiga acompanhar a evolução da dieta.

O rúmen precisa lidar com novos substratos.

A microbiota precisa responder.

A fermentação precisa se ajustar.

O epitélio precisa acompanhar as mudanças na produção e absorção dos metabólitos.

E o animal precisa transformar tudo isso em desempenho.

Quando esse processo é bem conduzido, conseguimos caminhar para uma dieta mais concentrada sem simplesmente jogar uma mudança brusca dentro de um sistema que ainda não está preparado para recebê-la.

AFINAL, QUEM ESTAMOS ADAPTANDO?

Talvez a pergunta inicial tenha uma resposta diferente daquela que costumamos dar.

Não estamos adaptando apenas o boi.

Estamos adaptando o animal a um novo ambiente, uma nova rotina e um novo sistema de produção.

E, ao mesmo tempo, estamos permitindo que o rúmen acompanhe uma nova realidade nutricional.

Por isso, quando falamos em dieta de adaptação, não deveríamos pensar apenas:

“O boi precisa se acostumar com essa comida.”

Precisamos pensar:

“O que essa dieta está fazendo dentro do rúmen e o sistema está preparado para essa mudança?”

Essa mudança de olhar faz diferença.

Porque o boi pode até parecer adaptado por fora.

Mas, por dentro, existe um ecossistema inteiro trabalhando para acompanhar aquilo que colocamos no cocho.

Adaptar não é simplesmente mudar a dieta. É dar ao rúmen tempo e condições para transformar essa mudança em produção.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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