A ovelha que não precisa ser tosquiada: conheça as raças que dispensam a retirada da lã

As raças de ovelha que eliminam naturalmente a cobertura ganham espaço na produção de carne ao reduzir custos e manejo; no Brasil, algumas delas já fazem parte da pecuária há gerações.

Quando se pensa em uma ovelha, a lã quase sempre faz parte da imagem. Mas nem todo ovino precisa ser tosquiado. Existem raças que possuem predominantemente pelos e outras capazes de eliminar naturalmente boa parte de sua cobertura, dispensando a retirada periódica do velo.

São os chamados ovinos deslanados ou ovinos de pelo, animais que vêm despertando interesse principalmente em sistemas voltados à produção de carne. A explicação é prática: se a lã não representa uma fonte importante de receita, reduzir ou eliminar a necessidade de tosquia significa retirar uma operação do calendário da propriedade.

O conceito ganhou força em países onde encontrar tosquiadores se tornou uma dificuldade para alguns produtores. A própria associação norte-americana do Katahdin aponta a ausência da tosquia entre as características que tornam a raça uma alternativa para criadores interessados prioritariamente na produção de carne.

No Brasil, entretanto, a história é diferente. Ovinos deslanados não são novidade. Raças como Santa Inês e Morada Nova estão há décadas ligadas à produção nacional e à adaptação dos ovinos às condições tropicais.

A principal diferença está na cobertura corporal.

O velo das raças lanadas continua crescendo e precisa ser retirado periodicamente. Já nos ovinos de pelo, a cobertura pode ser predominantemente formada por pelos ou apresentar fibras que são naturalmente eliminadas em determinadas épocas.

Isso não significa que todas as chamadas “ovelhas que não precisam de tosquia” sejam iguais.

Algumas são verdadeiramente deslanadas. Outras possuem uma mistura de pelo e lã e foram selecionadas para trocar naturalmente essa cobertura. É o caso do Dorper: a associação norte-americana da raça explica que o animal deve eliminar sua cobertura naturalmente no verão e que essa capacidade precisa ser considerada na seleção genética.

A diferença parece pequena, mas pode ter importância econômica.

A tosquia é indispensável quando a lã é parte relevante do negócio. Em sistemas especializados nesse produto, portanto, falar em eliminar o velo não faria sentido.

A situação muda quando o objetivo da criação é vender cordeiros e carne.

Nesse caso, produzir uma lã de baixo valor comercial e ainda precisar contratar mão de obra para retirá-la pode representar um custo adicional. Animais que dispensam essa operação permitem concentrar o manejo nas características que efetivamente determinam a rentabilidade do sistema, como fertilidade, ganho de peso, sobrevivência dos cordeiros, conversão alimentar e qualidade da carcaça.

É importante, porém, não confundir menor necessidade de manejo com ausência de manejo.

Uma ovelha que não precisa ser tosquiada continua exigindo nutrição adequada, controle sanitário, manejo de pastagens, cuidados reprodutivos e acompanhamento dos cascos e parasitas.

A vantagem está em eliminar uma operação específica, e não em criar um animal que “cuida de si sozinho”.

Katahdin: criada justamente para produzir carne sem depender da lã

A Katahdin talvez seja uma das raças que melhor representam esse conceito.

Seu desenvolvimento começou nos Estados Unidos no fim da década de 1950, quando Michael Piel passou a trabalhar com ovinos de pelo do Caribe e posteriormente com diferentes raças britânicas. O objetivo era combinar rusticidade e ausência do velo tradicional com características desejáveis para produção de carne.

Mais tarde, a raça Wiltshire Horn também entrou no programa de seleção para contribuir com tamanho e qualidade de carcaça.

O resultado foi um ovino de médio porte e musculoso cuja cobertura não deve exigir tosquia e, preferencialmente, deve ser livre de fibras lanosas permanentes. A seleção também considera características como eficiência reprodutiva, adaptação e desempenho para carne.

É praticamente o exemplo perfeito da mudança de lógica: em vez de selecionar uma ovelha pela quantidade ou qualidade da lã, seleciona-se um animal que produza carne eficientemente sem precisar produzir um velo comercial.

Dorper: carne, rusticidade e troca natural da cobertura

O Dorper segue uma lógica um pouco diferente.

Desenvolvida na África do Sul a partir principalmente do cruzamento entre Dorset Horn e Blackhead Persian, a raça ganhou projeção internacional como ovino especializado na produção de carne.

Sua cobertura corporal não é exatamente igual à de uma raça totalmente deslanada. O Dorper apresenta uma combinação de pelos e fibras de lã, mas os animais desejáveis são capazes de eliminar naturalmente essa cobertura, principalmente durante períodos mais quentes.

Segundo a American Dorper Sheep Breeders’ Society, Dorpers não precisam ser tosquiados quando apresentam corretamente essa característica, e a capacidade de troca natural deve ser selecionada dentro do rebanho.

Esse detalhe é importante porque podem existir diferenças entre indivíduos. Portanto, não basta comprar qualquer animal da raça e presumir que nunca haverá necessidade de intervenção: genética e seleção continuam fazendo diferença.

Santa Inês: o Brasil já tinha sua ovelha deslanada

Para o produtor brasileiro, talvez a raça mais familiar dessa história seja a Santa Inês.

Desenvolvida no Nordeste, ela é uma raça deslanada de grande porte e uma das principais referências da ovinocultura nacional voltada à carne.

A Embrapa aponta que sua formação provavelmente envolveu diferentes grupos genéticos, incluindo ovinos africanos deslanados e animais lanados trazidos por colonizadores que, submetidos às condições tropicais, perderam total ou parcialmente a lã.

A raça reúne características importantes para a realidade brasileira, como capacidade de adaptação, bom desenvolvimento corporal, valor reprodutivo e resistência a parasitas gastrointestinais. A Embrapa também aponta limitações em características como prolificidade e carcaça, mostrando que nenhuma raça reúne sozinha todas as qualidades desejáveis.

A Santa Inês demonstra que aquilo que hoje chama atenção internacionalmente como hair sheep está longe de ser novidade no Brasil. Aqui, a ausência de lã está diretamente ligada à adaptação dos animais ao ambiente tropical e à produção de carne.

Morada Nova: pequena, rústica e adaptada ao Semiárido

A Morada Nova é outro patrimônio importante da ovinocultura brasileira.

Naturalizada no Nordeste, é uma raça deslanada fortemente associada às condições do Semiárido. A Embrapa destaca sua adaptação ao ambiente tropical, além de características como elevada prolificidade, reprodução não estacional, boa habilidade materna e qualidade da pele.

Por outro lado, a raça apresenta menor peso adulto e limitações relacionadas ao ganho de peso e à qualidade de carcaça quando comparada a raças mais especializadas em carne.

E justamente aí aparece uma das possibilidades mais interessantes da genética ovina: utilizar características de diferentes raças dentro de programas de seleção e cruzamentos, buscando combinar adaptação, reprodução, crescimento e qualidade de carcaça.

A Morada Nova mostra também que a ausência de lã não surgiu apenas como conveniência para reduzir custos. Em determinados grupos genéticos, ela está associada a um longo processo de adaptação às condições ambientais brasileiras.

Existe um cuidado importante nessa discussão.

Escolher uma raça apenas porque ela não precisa ser tosquiada seria simplificar demais a decisão.

Para um sistema de produção de carne, a conta precisa considerar quantos cordeiros cada matriz entrega, peso ao desmame, ganho de peso, mortalidade, exigência nutricional, resistência a parasitas, qualidade de carcaça, adaptação ao clima e preço recebido pelo produto final.

Economizar uma tosquia pode ser interessante, mas perder desempenho produtivo custaria muito mais.

Por isso, a vantagem dos ovinos de pelo aparece com maior força quando a ausência da tosquia está acompanhada de outras características economicamente importantes.

O interesse pelas ovelhas que dispensam tosquia revela algo maior sobre a pecuária moderna.

Durante muito tempo, a lã foi um dos produtos que justificavam economicamente a criação de ovinos. Nos sistemas especializados em carne, entretanto, a lógica pode ser outra: se determinada característica exige trabalho, mas não gera receita suficiente para compensá-lo, cresce o interesse por animais que dispensem essa operação.

Foi justamente essa ideia que esteve por trás do desenvolvimento do Katahdin nos Estados Unidos. A associação da raça relata que seu criador buscava um ovino de carne que não dependesse da produção de lã.

No Brasil, Santa Inês e Morada Nova mostram que os ovinos deslanados já fazem parte dessa história há muito mais tempo.

Por isso, a chamada “ovelha que não precisa ser tosquiada” não deve ser encarada apenas como curiosidade. Ela representa uma busca cada vez mais importante na produção animal: genética que entregue resultado e, ao mesmo tempo, simplifique o trabalho dentro da propriedade.

No fim das contas, o que está atraindo os criadores não é simplesmente uma ovelha sem lã. É a possibilidade de ter um animal mais funcional para um sistema em que a carne — e não o velo — é quem precisa pagar a conta.

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