Interação entre genética, clima, solo e manejo ajuda a explicar variações de produtividade e ganha espaço nas decisões sobre desenvolvimento e posicionamento de cultivares
Duas lavouras plantadas com a mesma genética podem chegar ao fim da safra com resultados bastante diferentes. A explicação não está apenas no volume de chuva ou na temperatura média de cada região. O momento em que esses eventos ocorrem, as características do solo, a época de semeadura e as decisões de manejo também interferem na forma como uma cultivar expressa seu potencial produtivo.
O peso dessa relação aparece nos números. Um estudo publicado em 2024 na Scientific Reports, do grupo Nature, avaliou genótipos de soja em 19 localidades e combinou os resultados com 20 anos de informações sobre 19 variáveis climáticas. Dependendo do ano analisado, os efeitos ambientais explicaram entre 53,89% e 60,56% da variação observada na produtividade, enquanto a interação entre genética e ambiente respondeu por outros 28,82% a 33,72%. O efeito exclusivamente genético representou entre 4,98% e 7,51%.
A relação é conhecida no melhoramento vegetal como interação genótipo × ambiente (G×E). Na prática, significa que o desempenho de uma genética não pode ser completamente dissociado das condições em que ela é cultivada e que conhecer melhor essas condições pode ajudar a explicar por que um material apresenta resultados distintos entre regiões, safras ou mesmo diferentes épocas de plantio.
“Quando olhamos apenas para o desempenho médio de uma cultivar, parte importante da história fica escondida. Uma genética pode responder muito bem em determinadas condições e perder desempenho em outras. Entender em quais ambientes ela expressa melhor seu potencial permite tomar decisões mais precisas sobre onde e quando posicioná-la”, afirma Maurício Garcia, diretor comercial da Calice no Brasil e executivo com mais de 30 anos de experiência no agronegócio.
O ambiente deixa uma “impressão” na lavoura
Uma das abordagens utilizadas para aprofundar essa análise é o envirotyping, ou caracterização ambiental. Em vez de considerar o ambiente apenas como uma localização geográfica, a metodologia busca descrever as condições às quais a planta esteve exposta ao longo de seu desenvolvimento.
Isso inclui não somente quanto choveu ou qual foi a temperatura média, mas quando cada condição ocorreu e em qual estágio de desenvolvimento a cultura se encontrava.
Em outro estudo, publicado na revista Field Crops Research, pesquisadores analisaram 602 ambientes de cultivo de soja, da França à Rússia. A caracterização das condições ambientais permitiu identificar cinco tipos de ambientes e explicar 88% da interação entre genótipo e ambiente observada na produtividade. Entre os fatores que diferenciavam esses ambientes estavam justamente a intensidade e o momento em que estresses relacionados à temperatura e à disponibilidade de água ocorreram.
“Não basta saber que uma região recebeu determinada quantidade de chuva durante a safra. É preciso entender quando essa chuva ocorreu e em qual estágio a planta estava naquele momento. Uma restrição hídrica no período vegetativo pode produzir uma resposta diferente daquela observada durante o florescimento ou o enchimento de grãos. É essa combinação ao longo do ciclo que ajuda a explicar o desempenho de uma genética”, explica Garcia.
Essa leitura também ajuda a entender por que a localização geográfica, sozinha, diz pouco sobre o ambiente produtivo. Duas áreas relativamente próximas podem ter diferenças de solo, disponibilidade hídrica e manejo. E uma mesma propriedade pode enfrentar condições bastante distintas de uma safra para outra ou entre diferentes janelas de semeadura.
No estudo publicado na Scientific Reports, por exemplo, os pesquisadores conseguiram agrupar as 19 localidades avaliadas em quatro grandes tipos de ambientes, utilizando duas décadas de dados climáticos. Foram consideradas variáveis como umidade relativa, radiação solar, evapotranspiração, amplitude térmica e duração da exposição solar.
Do histórico à previsão
A caracterização ambiental começa a ganhar uma segunda função: além de ajudar a explicar por que determinado material teve um desempenho melhor ou pior, esses dados podem ser incorporados a modelos que buscam antecipar como diferentes genótipos tendem a responder em outros cenários.
No Brasil, essa abordagem já aparece em pesquisas voltadas à recomendação de cultivares. Um estudo publicado em 2024 na revista científica Theoretical and Applied Genetics, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e da Embrapa Arroz e Feijão, propôs um modelo de enviromics que combina informações ambientais, resultados de ensaios realizados em múltiplos ambientes e dados geográficos para prever o desempenho de genótipos em locais ainda não testados e identificar regiões com maior potencial de adaptação para determinados materiais.
Resultados recentes também indicam que acrescentar informações ambientais pode aumentar a precisão dessas previsões. Um estudo publicado em 2025 na Advanced Science, com dados de milho, mostrou que a incorporação de parâmetros ambientais aos modelos aumentou a precisão da predição genômica entre 14,02% e 28,42%, dependendo da característica avaliada; para produtividade de grãos, o ganho reportado foi de 28,42%.
Isso não significa substituir os experimentos no campo. A mudança está em utilizar os dados gerados por esses ensaios para compreender melhor os padrões ambientais e ampliar o número de cenários que podem ser avaliados antes de uma decisão em maior escala.
“Durante muito tempo, o setor trabalhou necessariamente olhando para o retrovisor: planta, espera o ciclo terminar, mede o resultado e aprende com aquela safra. Hoje conseguimos acrescentar uma camada preditiva a esse processo. Os experimentos continuam fundamentais, mas os dados que eles geram podem ser usados para avaliar muito mais cenários do que seria possível testar fisicamente”, diz Garcia.
A discussão ganha dimensão ainda maior diante da escala da agricultura brasileira. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de grãos alcançou 361,7 milhões de toneladas na safra 2025/26, enquanto a soja chegou ao recorde de 180,4 milhões de toneladas.
Em uma produção dessa magnitude, compreender melhor onde cada material tende a expressar seu potencial pode ter impacto tanto sobre produtividade quanto sobre eficiência na escolha e no posicionamento de cultivares.
“Não existe simplesmente uma genética boa ou ruim. Existe uma genética mais ou menos adequada para determinado ambiente e determinado manejo. Quanto melhor conseguimos compreender essa interação, maior é a capacidade de transformar dados em decisões mais previsíveis”, conclui Garcia.
Sobre a Calice
A Calice é uma agtech multinacional especializada em soluções de tecnologia para o agronegócio. Fundada em 2018, tem presença consolidada na Argentina e nos Estados Unidos. Entre seus clientes estão as principais empresas globais de desenvolvimento de sementes, produtos biológicos e P&D em proteção de cultivos.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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