Amendoim no pasto das galinhas? Pesquisa aposta na planta para produção de ovos orgânicos

Experimento previsto para começar em outubro, no interior paulista, vai testar uma leguminosa nos piquetes das poedeiras e investigar possíveis reflexos sobre o sistema de produção e os ovos

O amendoim no pasto das galinhas pode parecer uma cena pouco convencional, mas está no centro de uma nova frente de pesquisa voltada à avicultura orgânica. A Embrapa estuda estabelecer uma parceria com a Raiar Orgânicos para introduzir uma variedade de amendoim forrageiro nos piquetes utilizados por poedeiras em Avaré (SP). O primeiro desafio será descobrir se a planta consegue se desenvolver e permanecer nas áreas frequentadas diariamente pelas aves.

A proposta chama atenção justamente por levar para a produção de ovos uma tecnologia mais conhecida em sistemas pecuários a pasto. Em vez de cultivar o amendoim destinado ao consumo humano, o experimento utilizará uma leguminosa forrageira, capaz de crescer associada aos capins.

Caso a implantação tenha sucesso, a pesquisa poderá avançar para outra questão ainda sem resposta: a presença dessa planta na alimentação disponível às galinhas consegue provocar mudanças perceptíveis nos ovos?

Amendoim no pasto das galinhas será testado em Avaré

A área escolhida para o trabalho fica nas instalações da Raiar Orgânicos, onde os piquetes disponíveis às aves são atualmente ocupados principalmente por gramíneas.

A intenção dos pesquisadores é romper essa uniformidade com a introdução de uma segunda espécie vegetal.

Para isso, serão levadas mudas da cultivar BRS Oquira, desenvolvida pela Embrapa. O material deverá sair da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, também no interior paulista, e a previsão é iniciar a implantação das áreas experimentais a partir de outubro de 2026.

Antes de avaliar qualquer possível efeito sobre os ovos, os técnicos precisarão observar o comportamento da planta no campo. Entre as questões estão sua capacidade de implantação, permanência no piquete e convivência com as gramíneas já utilizadas.

Mas que tipo de amendoim é esse?

Apesar do nome curioso para quem acompanha a avicultura, a BRS Oquira não tem relação direta com a produção comercial de amendoim em grãos.

Trata-se de uma cultivar de Arachis pintoi, espécie utilizada como forrageira e adaptada à formação de pastagens consorciadas.

A planta cresce por meio de estruturas rasteiras capazes de formar novos pontos de enraizamento, característica que favorece a expansão horizontal e a cobertura do solo. Pesquisa técnica publicada pela Embrapa em 2025 aponta ainda boa compatibilidade da BRS Oquira com diferentes grupos de gramíneas utilizadas em sistemas de pastejo.

Outra característica relevante vem de sua condição de leguminosa. Em associação com bactérias presentes no solo, esse grupo de plantas participa da fixação biológica de nitrogênio, disponibilizando o nutriente dentro do sistema sem depender exclusivamente de fontes externas.

É esse conjunto de características, e não a produção de amendoins para colheita, que interessa ao experimento com as poedeiras.

Diversificar o piquete pode funcionar como proteção

A composição vegetal também será observada sob o ponto de vista fitossanitário.

Uma área ocupada praticamente apenas por gramíneas fica muito dependente do desempenho desse grupo de plantas. Caso surja uma praga específica dos capins, uma parcela importante da cobertura pode ser comprometida ao mesmo tempo.

A cigarrinha-das-pastagens é um dos exemplos considerados no planejamento apresentado pela Embrapa.

Ao manter uma leguminosa junto aos capins, a expectativa é criar uma área menos vulnerável a um único problema biológico. Isso não significa eliminar a possibilidade de ataques ou doenças, mas distribuir melhor o risco dentro da vegetação disponível às aves.

Esse conceito de diversificação já integra outras pesquisas da instituição voltadas a pastagens mais sustentáveis.

Amendoim no pasto das galinhas pode mudar a gema?

Essa provavelmente será a parte mais curiosa do estudo, mas também aquela que exige maior cautela.

O amendoim forrageiro contém carotenoides, pigmentos naturais encontrados em diferentes vegetais. Depois que a etapa agronômica estiver estabelecida, os pesquisadores pretendem investigar se o acesso das poedeiras à leguminosa poderá produzir alterações na coloração da gema e em parâmetros relacionados à composição nutricional dos ovos.

Até agora, porém, não há resultado desse experimento demonstrando melhora nutricional ou mudança na cor dos ovos.

Esses efeitos serão justamente objeto da segunda fase do trabalho.

Portanto, seria precipitado afirmar que a BRS Oquira produzirá ovos mais nutritivos ou gemas mais intensas. O que existe atualmente é uma hipótese científica baseada nas características da planta que deverá ser colocada à prova.

BRS Oquira já foi estudada em outros sistemas de pastejo

Embora sua utilização com galinhas esteja começando a ser explorada, a cultivar não é uma novidade para a pesquisa agropecuária.

Avaliações conduzidas pela Embrapa apontam teor médio de 22% de proteína bruta na matéria seca e digestibilidade in vitro próxima de 68%. Esses números foram obtidos em estudos com a própria forrageira e servem para caracterizar seu valor nutricional como planta, não como resultado esperado nos ovos.

A cultivar também apresenta produção anual de matéria seca que pode variar conforme região e manejo. Estudos anteriores envolveram condições de Amazônia, Cerrado e áreas de transição entre Mata Atlântica e Cerrado.

Esse histórico ajuda a explicar por que a espécie passou a ser considerada para uma aplicação diferente daquela em que tradicionalmente é empregada.

Produção brasileira supera 62 bilhões de ovos

O experimento ocorre dentro de uma cadeia que atingiu números expressivos no País.

O Brasil produziu 62,3 bilhões de ovos em 2025, segundo o Relatório Anual 2026 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O volume colocou o País na posição de quinto maior produtor mundial.

O consumo interno chegou a 288 unidades por habitante, enquanto o alojamento comercial de aves de postura alcançou 141,5 milhões de cabeças.

Diante da dimensão da atividade, pesquisas envolvendo novas formas de manejo ganham relevância especialmente em nichos que buscam diferenciação produtiva, como a produção orgânica.

Primeiro, a planta precisa sobreviver às galinhas

Antes de saber se haverá alguma alteração nos ovos, existe uma pergunta muito mais básica a ser respondida: o amendoim forrageiro conseguirá permanecer no piquete sob as condições reais de criação?

Esse será o ponto de partida.

Com a implantação prevista para outubro, os pesquisadores deverão acompanhar a adaptação da BRS Oquira e sua convivência com os capins. Apenas depois dessa validação agronômica fará sentido avançar para análises relacionadas ao produto final.

A experiência, portanto, ainda não apresenta uma receita pronta para produtores.

O que está sendo colocado em teste é uma ideia: transformar piquetes predominantemente formados por capins em ambientes com maior diversidade vegetal e verificar se essa mudança pode trazer vantagens para o sistema de produção.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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