Americano percorre o Brasil e aponta onde está uma das maiores oportunidades do mundo

Após passar por 16 estados e 50 cidades, Drew Crawford afirma que agronegócio, minerais críticos e infraestrutura colocam o país no centro das necessidades globais

O Brasil já produz boa parte daquilo que o mundo mais procura. O grande desafio, agora, seria fazer o capital avançar na mesma velocidade da produção. Essa é a avaliação do norte-americano Drew Crawford, sócio-diretor da Austral Continental, empresa especializada em conectar investidores internacionais a ativos brasileiros.

Em um texto publicado no X, Crawford apresentou sua visão sobre o potencial do país depois de 12 anos de viagens e trabalhos, período no qual passou por 16 estados, visitou aproximadamente 50 cidades e conheceu centenas de produtores, empresários e operadores.

Morando em Florianópolis, Santa Catarina, ele acompanha oportunidades que se estendem pelos três estados do Sul, Centro-Oeste, Matopiba e principais regiões produtoras de minerais. “Passei muito mais tempo em estradas rurais e portões de terminais portuários do que em salas de reunião”, relatou.

Segundo o executivo, o trabalho desenvolvido pela Austral Continental está apoiado em três pilares: agronegócio, minerais críticos e infraestrutura de exportação.

Agronegócio brasileiro é o primeiro pilar

Para Crawford, o agronegócio ocupa a primeira posição por causa da capacidade brasileira de produzir alimentos em grande escala e abastecer diferentes mercados.

Ele cita uma estimativa da Embrapa segundo a qual a produção brasileira seria suficiente para alimentar aproximadamente 800 milhões de pessoas — número equivalente a quase um em cada dez habitantes do planeta.

Em 2024, as exportações do agronegócio brasileiro somaram aproximadamente US$ 164 bilhões, respondendo por quase metade de tudo o que o país vendeu ao exterior naquele ano.

A presença brasileira também é especialmente forte em cadeias como soja, carnes, café, açúcar e suco de laranja. No caso do suco, o país responde por parcela predominante das exportações mundiais. Na soja, o Brasil consolidou-se como o maior produtor e exportador global.

Mais do que números isolados, Crawford enxerga nessas cadeias uma combinação difícil de ser encontrada em outros lugares: disponibilidade de terras produtivas, conhecimento tropical, escala, tecnologia e capacidade de expansão.

O papel da Embrapa no desenvolvimento de técnicas capazes de viabilizar a produção no Cerrado também aparece como um dos fatores que explicam a transformação do Brasil em potência agrícola.

Minerais críticos colocam o país no radar mundial

O segundo pilar destacado pelo executivo são os minerais críticos, recursos que ganharam importância com o avanço da transição energética, dos veículos elétricos e das novas tecnologias industriais.

Um dos maiores exemplos é o nióbio. O Brasil domina a produção mundial do mineral, utilizado para aumentar a resistência de ligas metálicas. Pequenas quantidades adicionadas ao aço permitem produzir estruturas mais leves e resistentes, empregadas em automóveis, oleodutos, gasodutos, turbinas e diferentes equipamentos industriais.

A região de Araxá, em Minas Gerais, concentra uma das operações mais relevantes do planeta. Documentos do Ministério de Minas e Energia indicam que o Brasil reúne cerca de 90% dos recursos mundiais de nióbio e ocupa posição dominante no mercado internacional de ferro-nióbio.

O grafite representa outra oportunidade estratégica. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial conhecida, correspondente a cerca de 22% do total global, segundo nota técnica do governo federal. O mineral é um dos principais componentes do ânodo das baterias de íons de lítio.

Além das reservas minerais, o país apresenta uma vantagem ambiental importante. Em 2024, as fontes renováveis responderam por 88,2% da matriz elétrica brasileira, conforme o Balanço Energético Nacional. Isso permite que projetos industriais e de mineração possam ser desenvolvidos com uma pegada de carbono menor do que a observada em muitos concorrentes.

Infraestrutura define quanto sobra para o produtor

O terceiro pilar apontado por Crawford é também um dos menos compreendidos fora do Brasil: a infraestrutura de exportação.

Em sua análise, o crescimento dos portos do chamado Arco Norte está mudando o mapa do escoamento da produção nacional. Terminais localizados nas regiões Norte e Nordeste ganharam participação nas exportações de soja e milho, principalmente por estarem mais próximos das novas fronteiras agrícolas do Centro-Oeste e do Matopiba.

Segundo os números apresentados pelo executivo, 36% da soja exportada pelo Brasil em 2025 deixou o país pelos portos do Norte, superando a participação de Santos, estimada em 32%. No milho, os terminais do Arco Norte teriam respondido por 48% dos embarques.

O volume de grãos movimentado por esses portos teria passado de 36 milhões de toneladas, em 2021, para 58 milhões de toneladas em 2025.

Para Crawford, essa estrutura não é apenas uma questão logística. Ela interfere diretamente no resultado financeiro das fazendas.

“Uma soja vale aquilo que consegue alcançar no costado do navio. A distância entre a lavoura e esse navio representa toda a margem”, afirmou, em tradução livre.

Quanto maiores forem os custos com estradas, armazenagem, transbordo e transporte, menor será o valor que efetivamente permanecerá com o produtor. Por isso, investimentos em ferrovias, hidrovias, terminais, armazéns e acessos portuários são vistos como parte decisiva da competitividade do agronegócio.

Brasil tem os ativos, mas ainda precisa do capital

A reflexão final de Crawford chama atenção para uma contradição brasileira. O país já possui alimentos, minerais, energia renovável e infraestrutura em expansão — justamente os ativos que ganharam valor em um mundo preocupado com segurança alimentar, transição energética e reorganização das cadeias globais.

Entretanto, o capital necessário para ampliar, modernizar e integrar esses ativos ainda avança de maneira mais lenta.

É nesse espaço que atua a Austral Continental, aproximando capital institucional e recursos de family offices internacionais de projetos brasileiros ligados ao agronegócio, aos minerais críticos e à infraestrutura de exportação.

“O Brasil já produz aquilo que está em falta no mundo. O que se movimenta mais lentamente do que a colheita é a estrutura de capital ao redor dessa produção. Fechar essa distância é o nosso trabalho”, resumiu Crawford.

A avaliação expõe uma oportunidade que vai além do campo. O Brasil não precisa apenas produzir mais. Precisa transformar sua escala produtiva, suas reservas naturais e sua posição geográfica em projetos capazes de atrair investimentos de longo prazo.

Na visão do executivo norte-americano, poucos países reúnem tantas respostas para necessidades globais ao mesmo tempo. O potencial já está no território brasileiro; o próximo passo é fazer o capital chegar até ele.

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