Aos 17 anos, jovem cria própria marca de queijos e passa a comprar o leite produzido pela mãe

Em Bom Jesus, no Rio Grande do Norte, Cuquinha transforma até 100 litros de leite por dia em derivados e encontra na atividade da família um caminho para empreender sem deixar o campo

Aos 17 anos, Robeilson da Cunha Silva Filho, conhecido como Cuquinha, já está à frente de um pequeno negócio ligado à pecuária leiteira em Bom Jesus, no Rio Grande do Norte. Na Laticínios Cuquinha, o jovem compra leite produzido pela própria mãe, Dafne Araújo, e processa até 100 litros por dia, transformando a matéria-prima em queijo de coalho, bebidas lácteas, iogurtes e doces de leite.

A experiência ganhou visibilidade às vésperas da 64ª Festa do Boi, que será realizada de 9 a 17 de outubro, em Parnamirim (RN), e colocou Cuquinha entre os exemplos apresentados pela Associação dos Empreendedores do Leite do Rio Grande do Norte (Empreleite) sobre como o beneficiamento pode abrir novas possibilidades econômicas para famílias que vivem da atividade leiteira. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Jovem cria marca de queijos a partir da atividade da família

A ligação de Cuquinha com o leite começou antes da criação de sua marca. Filho de produtora rural, ele cresceu acompanhando de perto a rotina da atividade e encontrou no processamento uma maneira de participar do negócio familiar por outro caminho.

Em vez de atuar somente na produção da matéria-prima, o jovem passou a transformar o leite em diferentes produtos. A relação comercial dentro da própria família chama atenção: Dafne produz o leite e o filho compra parte dessa produção para abastecer o laticínio.

A capacidade informada chega a 100 litros processados diariamente. A produção inclui queijo de coalho especial, bebidas lácteas, iogurtes e doce de leite.

Essa diversificação tem uma lógica econômica importante para pequenas propriedades. O leite deixa de ser comercializado exclusivamente como matéria-prima e passa a integrar produtos com processamento, identidade própria e diferentes possibilidades de venda.

O caminho já aparece em outras histórias da produção queijeira brasileira. Em Minas Gerais, por exemplo, produtores têm transformado o leite em queijos artesanais como estratégia de construção de um negócio próprio.

Sucessão rural ajuda a explicar a importância da história

O caso de Cuquinha ganha outra dimensão quando observado ao lado da mudança no perfil etário de quem trabalha na agropecuária brasileira.

Uma tabulação da PNAD Contínua do IBGE, divulgada pela CNN Brasil em setembro de 2026, mostra que havia cerca de 7,7 milhões de pessoas ocupadas na agropecuária no primeiro trimestre deste ano. Desse contingente, aproximadamente 1,84 milhão tinham 55 anos ou mais, equivalentes a 23,86%.

Em 2012, essa faixa etária correspondia a 19,3% dos trabalhadores do setor.

Entre os mais jovens, o movimento ocorreu no sentido contrário. O grupo de 16 a 22 anos representava 11,5% dos ocupados em 2012 e caiu para 8,93% no primeiro trimestre de 2026. Em números absolutos, eram aproximadamente 688,6 mil jovens nessa faixa etária no início deste ano, ante 1,13 milhão em 2012.

Os dados não significam que a juventude esteja simplesmente abandonando o campo, porque mudanças demográficas, tecnológicas, educacionais e no próprio mercado de trabalho também interferem nessa composição. Ainda assim, ajudam a dimensionar um dos desafios enfrentados pelas propriedades familiares: criar condições econômicas e profissionais para que uma nova geração enxergue oportunidades dentro da atividade rural.

Nesse ponto, a trajetória de Cuquinha oferece um exemplo concreto. A entrada do jovem não ocorre apenas pela continuidade da produção dos pais. Ele ocupa outra etapa da cadeia, ligada ao beneficiamento, à diversificação dos produtos e à construção de uma marca.

Empreleite reúne produtores que processam 2 mil litros por dia

Cuquinha faz parte da Empreleite, associação criada em 2022 e que atualmente reúne 12 associados no Rio Grande do Norte.

Segundo informações divulgadas pela entidade, o conjunto desses produtores processa aproximadamente 2 mil litros de leite por dia. A associação atua com orientação técnica, acompanhamento e apoio à regularização de unidades que trabalham com derivados.

A proposta é justamente ampliar as alternativas disponíveis para propriedades que tradicionalmente dependem da venda do leite.

Outro caso apresentado pela associação está em Serra Caiada (RN). Os irmãos Maria Augusta Rocha, de 25 anos, e Francisco Ronald Rocha, de 19, participam com os pais da Fazenda Riacho do Meio. A família iniciou a atividade leiteira em 2017 e começou a produzir derivados em 2023, depois de perder o principal comprador do leite.

Atualmente, a propriedade também processa aproximadamente 100 litros por dia, destinados à fabricação de queijo de coalho, manteiga e doce de leite.

Os dois exemplos são diferentes, mas compartilham uma característica: o beneficiamento abriu uma alternativa à comercialização exclusiva do leite cru como matéria-prima.

Transformar leite em queijo pode agregar valor, mas exige gestão

Produzir derivados permite avançar na cadeia produtiva, mas isso não significa que transformar leite em queijo gere automaticamente maior lucro.

O produtor passa a lidar com custos e responsabilidades que não existem da mesma maneira na venda do leite in natura. Instalações adequadas, equipamentos, energia, refrigeração, ingredientes, embalagens, mão de obra, armazenamento, transporte, controle de qualidade e comercialização precisam entrar na conta.

Também existem requisitos sanitários e de inspeção.

No âmbito federal, a Lei nº 13.860/2019 estabelece regras relacionadas à elaboração e comercialização dos queijos artesanais. O Decreto nº 11.099/2022 regulamenta dispositivos relacionados ao Selo Arte e ao queijo artesanal.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, produtos que recebem o Selo Arte ou o selo Queijo Artesanal podem ser comercializados em todo o território nacional, desde que atendam às exigências aplicáveis. Entre os critérios estão boas práticas agropecuárias, boas práticas de fabricação e controle pelo serviço oficial de inspeção.

O avanço da regulamentação tem sido acompanhado de iniciativas estaduais. Em 2026, por exemplo, produtores do Paraná passaram a contar com novas regras para a regularização de determinados queijos artesanais produzidos com leite cru.

Para o pequeno produtor, portanto, agregar valor depende de mais do que dominar a receita. A viabilidade precisa considerar custo de produção, escala, regularização, mercado consumidor e preço efetivamente obtido na venda.

Laticínios Cuquinha estará na Festa do Boi 2026

A Laticínios Cuquinha aparece na programação da Agência Sebrae Festa do Boi 2026, que terá atividades entre 9 e 17 de outubro, no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim.

O espaço do Sebrae ocupará cerca de 5 mil metros quadrados e reunirá capacitações, demonstrações, exposição de produtos e atividades relacionadas a diferentes cadeias produtivas.

Entre as estruturas programadas está a Queijeira Artesanal Nivardo Melo, onde o público poderá acompanhar a elaboração de queijos e doces e conhecer técnicas utilizadas por produtores potiguares.

A programação oficial também relaciona a Laticínios Cuquinha, de Bom Jesus, entre os empreendimentos ligados à apresentação de queijo de coalho especial.

A Empreleite terá uma loja colaborativa durante o evento. Segundo dados divulgados pela própria associação e reproduzidos pela imprensa potiguar, sua participação na Festa do Boi de 2025 movimentou aproximadamente R$ 200 mil em negócios, considerando produtos e comercialização de animais.

Para 2026, a entidade projeta chegar a R$ 240 mil, o que representaria crescimento de 20%. O valor, portanto, deve ser tratado como expectativa da associação, e não como faturamento já realizado.

Um negócio de 100 litros por dia e um desafio muito maior

A escala da Laticínios Cuquinha ainda é pequena diante da indústria brasileira de lácteos. É justamente por isso que a história ajuda a mostrar outra face da sucessão rural.

A continuidade de uma propriedade não depende necessariamente de os filhos repetirem exatamente o trabalho dos pais. Beneficiamento, comercialização, gestão, tecnologia e criação de marcas podem abrir funções diferentes dentro da mesma cadeia produtiva.

No caso de Cuquinha, o leite produzido pela mãe passou a abastecer um negócio conduzido pelo próprio filho. A matéria-prima que poderia seguir diretamente para outro comprador ganha uma nova etapa de transformação antes de chegar ao consumidor.

O mercado de produtos artesanais também tem criado vitrines para pequenos produtores. Concursos nacionais, como o Prêmio Queijo Brasil 2026, reúnem diferentes tipos de queijos e outros derivados, ampliando a discussão sobre qualidade, identidade regional e profissionalização da atividade.

Para Cuquinha, o desafio agora está em transformar o começo precoce em um empreendimento sustentável no longo prazo. Aos 17 anos, ele já assumiu uma posição pouco convencional dentro da cadeia familiar: de filho de produtora de leite a comprador da matéria-prima e responsável por uma marca própria de derivados.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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