Após ganhar espaço na Europa, carne e mel brasileiros são alvo de veto da UE

Restrição prevista para setembro ameaça interromper uma trajetória de crescimento justamente em um dos mercados mais valorizados pelos exportadores nacionais

A trajetória recente de carne e mel brasileiros na União Europeia colocou dois importantes produtos do agronegócio diante de uma situação inesperada. Depois de ampliarem sua presença entre os compradores europeus, ambos podem perder acesso ao bloco a partir de 3 de setembro de 2026, quando passam a valer novas condições relacionadas ao controle de antimicrobianos na produção animal.

A mudança cria um problema comercial que vai além da simples redução dos embarques. No caso da carne, a Europa se consolidou como destino de produtos de maior valor; para o mel, representava uma oportunidade crescente de diversificação das vendas internacionais.

Nova regra coloca carne e mel brasileiros sob pressão

A controvérsia começou com o endurecimento das exigências europeias para alimentos de origem animal importados.

A União Europeia quer que seus fornecedores comprovem a adoção de controles compatíveis com a política do bloco para utilização de medicamentos antimicrobianos, especialmente aqueles empregados na criação animal.

Na avaliação das autoridades europeias, o Brasil ainda não apresentou garantias suficientes para algumas categorias alcançadas pelas novas normas.

A consequência poderá ser a retirada da autorização necessária para que determinados produtos continuem entrando no mercado europeu após o início da vigência das exigências.

Representantes brasileiros discordam dessa avaliação e defendem que a produção nacional já opera sob fiscalização sanitária e protocolos voltados ao comércio internacional.

Carne bovina chega ao impasse após semestre de crescimento

Pouco antes de surgir a ameaça de restrição, os frigoríficos brasileiros registravam avanço expressivo nas vendas para a Europa.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), foram embarcadas 51,2 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia entre janeiro e junho de 2026, cerca de 19% acima do volume comercializado no mesmo intervalo do ano anterior.

A expansão ocorreu após um período de fortalecimento das relações comerciais com compradores europeus. Entre 2024 e 2025, a receita obtida com essas operações passou de aproximadamente US$ 895,7 milhões para US$ 1,06 bilhão, crescimento de 18%.

Esse desempenho tornou uma eventual interrupção particularmente sensível para empresas que vinham ampliando negócios no continente.

Cortes de maior valor tornam mercado europeu estratégico

A importância da União Europeia para a pecuária brasileira não pode ser medida apenas pelo número de toneladas comercializadas.

Parte relevante das compras envolve filé mignon, contrafilé, alcatra e outros cortes nobres, vendidos por valores superiores aos obtidos com produtos destinados a vários outros mercados.

Essa característica faz da Europa um componente importante na composição financeira das exportações dos frigoríficos.

Países asiáticos também possuem grande participação nas vendas externas do Brasil, mas apresentam padrões de consumo diferentes e podem demandar outros cortes, além de miúdos e produtos com menor preço médio.

Assim, substituir o comprador europeu envolve mais do que mudar o destino de uma carga: exige encontrar clientes interessados exatamente naquele perfil de mercadoria.

Mel brasileiro dobrava faturamento com compradores europeus

Entre os apicultores e exportadores, o momento também era de crescimento.

Dados da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel) mostram que as vendas para a União Europeia renderam US$ 6,35 milhões no primeiro semestre de 2026.

Um ano antes, no mesmo intervalo, o valor havia ficado em US$ 3,18 milhões.

O salto elevou a importância do bloco dentro das exportações do setor. Depois de responder por aproximadamente 5% das vendas brasileiras em 2025, a Europa chegou perto de representar 10% do total no primeiro semestre deste ano.

Para um setor fortemente dependente de poucos compradores, ampliar essa participação significava também reduzir riscos comerciais.

Outros países não absorvem automaticamente os embarques

O Brasil possui alternativas internacionais para seus produtos agropecuários, mas encontrar compradores substitutos exige tempo.

No mercado de mel, por exemplo, os Estados Unidos concentram a maior parcela das exportações brasileiras, enquanto Canadá e Alemanha aparecem entre outros destinos relevantes.

Em 2025, o país ocupou a sétima posição mundial entre os maiores exportadores de mel em volume e a oitava em valor.

Esse alcance internacional ajuda o setor, mas não elimina o problema. Um comprador pode não ter demanda suficiente para absorver rapidamente cargas originalmente negociadas com outra região.

O mesmo raciocínio vale para a carne bovina. Habilitações sanitárias, preferências dos consumidores, preço, logística e acordos entre importadores e frigoríficos determinam para onde cada produto consegue ser direcionado.

Restrição pode interromper estratégia de diversificação

O episódio acontece em um momento no qual exportadores brasileiros procuram diminuir a dependência de mercados específicos.

Essa estratégia ganhou ainda mais relevância diante das recentes tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos, tradicional comprador de produtos brasileiros.

Embora carne bovina e mel tenham ficado fora de algumas das novas tarifas norte-americanas citadas pelo setor, empresários enxergam um cenário internacional menos previsível.

Nesse contexto, fortalecer a presença europeia funcionava como uma forma de distribuir melhor os riscos das exportações.

A possível perda desse destino reduz justamente uma alternativa que vinha se tornando mais relevante.

Setores aguardam solução antes de setembro

A situação ainda depende das negociações e das medidas adotadas antes da entrada em vigor das exigências europeias.

Até lá, entidades produtivas e autoridades brasileiras terão espaço para apresentar adequações, comprovações técnicas ou novos entendimentos capazes de preservar o fluxo comercial.

Para frigoríficos e exportadores de mel, o prazo tornou-se decisivo.

A questão central agora não é apenas quanto carne e mel brasileiros conseguem vender no exterior, mas se dois setores que estavam aumentando sua presença em um mercado valorizado conseguirão manter abertas as portas da União Europeia.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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