Abiec discute com o governo regras para distribuir 1,128 milhão de toneladas entre frigoríficos e evitar uma nova corrida pelos embarques ao maior mercado da carne bovina brasileira
O Brasil poderá adotar uma nova estratégia para administrar as exportações de carne bovina para a China em 2027. A Abiec discute com o governo brasileiro um mecanismo para distribuir entre os frigoríficos a cota de 1,128 milhão de toneladas destinada ao país, numa tentativa de impedir que o volume seja consumido logo nos primeiros meses do ano.
O alerta foi feito pelo presidente da entidade, Roberto Perosa. Segundo ele, sem algum mecanismo de gestão, a cota de 2027 poderá acabar já em março. Entre as alternativas avaliadas estão critérios relacionados à participação das empresas no mercado e ao histórico de exportações.
A medida ainda está em discussão e não existe decisão oficial de repartir a cota entre os frigoríficos.
Cota aumenta pouco em 2027
O volume reservado ao Brasil passará de 1,106 milhão de toneladas em 2026 para 1,128 milhão em 2027, crescimento de apenas 22 mil toneladas, aproximadamente 2%.
O problema está no que acontece depois que esse limite é atingido.
Dentro da cota, a carne brasileira entra no mercado chinês com tarifa de 12%. Acima do volume estabelecido, passa a incidir uma tarifa adicional de 55%, reduzindo fortemente a competitividade dos embarques.
A experiência de 2026 ajuda a explicar a preocupação. Em 9 de maio, metade da cota já havia sido utilizada; em 21 de julho, o percentual chegou a 80%; e, em 10 de agosto, alcançou 90%.
- Leia mais em: China derruba exportações de carne bovina em 88%, mas receita soma US$ 12,8 bilhões com novos destinos
China pode voltar a mexer com o mercado do boi
A discussão não interessa apenas aos frigoríficos. A forma como a cota for utilizada pode influenciar a regularidade da procura por animais destinados ao mercado chinês.
Quando os embarques avançam rapidamente, frigoríficos habilitados aumentam sua necessidade de boi-China. Quando as compras são interrompidas ou perdem força, parte dessa demanda desaparece.
Foi justamente essa volatilidade que marcou 2026. Depois de um primeiro semestre de embarques elevados, as vendas brasileiras para a China caíram fortemente em agosto.
Por isso, uma eventual distribuição da cota teria como objetivo não apenas controlar o volume exportado, mas espalhar melhor os embarques chineses ao longo de 2027.
Boi gordo volta a encontrar suporte
A discussão ocorre justamente quando o mercado físico mostra maior firmeza. Referências recentes da Scot Consultoria indicaram R$ 350/@ para o boi gordo em São Paulo e R$ 355/@ para o boi-China, valores brutos e a prazo.
As escalas de abate paulistas estavam próximas de seis dias, enquanto a oferta mais restrita continuava oferecendo sustentação às negociações.
No mercado futuro, contratos para o início de 2027 chegaram à região de R$ 386 a R$ 387/@, mostrando um prêmio relevante sobre o mercado atual — embora as cotações futuras representem expectativas e não garantam que esses valores serão observados no físico.
Decisão pode ser importante para 2027
O ponto central agora será saber se o governo aceitará algum mecanismo formal de distribuição das 1,128 milhão de toneladas entre os frigoríficos.
A proposta tenta evitar uma situação aparentemente contraditória: o Brasil possui demanda chinesa pela carne bovina, mas uma corrida pelos embarques no começo do ano pode consumir rapidamente a cota e deixar o setor novamente diante de meses de menor competitividade naquele mercado.
Para o pecuarista, acompanhar essa discussão será especialmente importante. A velocidade com que a China utilizar a cota poderá influenciar a demanda por boi-China e o comportamento das escalas dos frigoríficos ao longo de 2027.
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