Boi pode chegar aos R$ 400/@, mas preço do bezerro acende alerta para a próxima conta

Mercado futuro mantém o boi próximo dos R$ 390/@, enquanto o bezerro segue em patamares historicamente elevados e pode se transformar na próxima grande pressão sobre a margem da pecuária

O mercado pecuário começa a desenhar um cenário que exige atenção para além da cotação do boi gordo. Enquanto os contratos futuros se aproximam dos R$ 390 por arroba e alimentam a expectativa de que o boi possa testar o patamar de R$ 400/@, outra conta ganha importância dentro da porteira: quanto custará repor os animais vendidos nos próximos meses?

A preocupação está no bezerro. A categoria permanece valorizada, próxima dos maiores preços nominais já registrados, e estudos da Farmnews indicam que o atual ciclo pecuário ainda pode abrir espaço para novas altas. Para quem compra reposição, portanto, uma valorização expressiva do boi gordo não significa necessariamente expansão proporcional da margem.

Boi se aproxima dos R$ 400/@

No fechamento de 23 de setembro, os contratos futuros mostravam uma curva bastante valorizada. O vencimento para outubro terminou em R$ 379,90/@, enquanto novembro e dezembro alcançaram R$ 388,90/@.

Janeiro de 2027 também estava praticamente no mesmo nível, a R$ 388,95/@, enquanto março chegou a R$ 389/@.

O mercado, portanto, já trabalha muito perto da marca psicológica dos R$ 400. Mas é importante fazer uma distinção: esses valores são preços negociados no mercado futuro e não significam garantia de que o boi físico chegará a R$ 400/@.

A recuperação do físico, entretanto, também vem ocorrendo. Segundo levantamento da Farmnews, o boi gordo Cepea acumulava alta de 3% na parcial de setembro até o dia 21, enquanto o bezerro permanecia praticamente estável no mesmo intervalo.

O problema pode aparecer na hora de comprar o próximo bezerro

É justamente aqui que está uma das principais contas para o pecuarista.

O bezerro Cepea/MS chegou a R$ 3.414,22 por cabeça em 23 de setembro. Na primeira metade do mês, a média havia sido de R$ 3.395,20, 16% acima da registrada em setembro de 2025.

Quando avaliado pelo peso, o cenário também chama atenção. Em 15 de setembro, o bezerro alcançou R$ 499,30 por arroba, maior valor diário desde o início de maio.

Apesar da relativa estabilidade dos últimos meses, a Farmnews destaca que a reposição permanece nos maiores patamares nominais históricos e avalia que ainda existe potencial de valorização dentro do atual ciclo pecuário.

Relação de troca continua apertada

A melhor maneira de enxergar o problema não é olhar apenas o preço absoluto do bezerro, mas quantas arrobas de boi gordo são necessárias para comprá-lo.

Na parcial de setembro, até o dia 18, eram necessárias em média 9,73 arrobas de boi gordo para adquirir um bezerro, segundo levantamento da Farmnews com dados do Cepea. Foi o maior valor observado para setembro desde 2010. A média histórica para o mês é de 8,38 arrobas.

Outra leitura da relação de troca mostra a mesma pressão: considerando um boi gordo de 20 arrobas, o poder de compra ficou próximo de dois bezerros, nível historicamente desfavorável para quem depende do mercado para recompor o rebanho.

A recuperação recente do boi melhorou um pouco essa relação, mas ainda não resolveu o problema.

Ciclo pecuário coloca a reposição no centro das atenções

Há ainda um componente estrutural.

A Farmnews vem chamando atenção para o comportamento do preço do bezerro quando corrigido pela inflação e para o elevado abate de fêmeas observado durante o atual ciclo pecuário. Menos matrizes disponíveis para produzir bezerros pode, com alguma defasagem, restringir a oferta de reposição.

É justamente essa dinâmica que merece acompanhamento.

Se a disponibilidade de bezerros diminuir ao mesmo tempo em que a arroba do boi gordo permanecer valorizada, criadores podem capturar preços melhores. Para recriadores e terminadores que dependem da compra de animais, porém, parte do ganho obtido na venda do boi pode acabar sendo transferida para a reposição.

Por isso, o número mais importante para a margem pode deixar de ser apenas a cotação da arroba.

O boi a R$ 400 certamente chamaria atenção do mercado. Mas, para quem precisa continuar produzindo depois de vender o lote atual, talvez a pergunta mais importante seja quanto custará colocar o próximo bezerro dentro da fazenda.

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