Brasil-China: estamos nas garras do dragão vermelho?

O maior problema da dependência das commodities na relação comercial bilateral é justamente a instabilidade dos preços desses produtos, que estão sempre sujeitos a fatores externos, inclusive às mudanças climáticas.

Scot Consultoria: Com a economia mundial instável, caso a China entre em recessão, como as importações das commodities brasileiras poderão ser afetadas?

Tulio Cariello: A China está em uma nova fase em que o governo prioriza a estabilidade e o crescimento qualitativo e não necessariamente uma expansão econômica. No curto prazo, não vejo grandes mudanças nas exportações do Brasil para o país, que continuarão sendo volumosas, sobretudo em produtos agrícolas.

O Brasil está entre os maiores fornecedores de soja, carnes e celulose para a China e poucos países no mundo têm capacidade de suprir a demanda chinesa como nós. Por outro lado, a instabilidade global, que pode gerar alterações nos preços dos fretes internacionais e de insumos, como fertilizantes – do qual o Brasil é muito dependente de importações -, pode aumentar ou reduzir o preço final das commodities exportadas pelo país.

O maior problema da dependência das commodities na relação comercial bilateral é justamente a instabilidade dos preços desses produtos, que estão sempre sujeitos a fatores externos, inclusive às mudanças climáticas.

Scot Consultoria: Qual a real situação da China perante o mercado importador com o plano de “covid zero” e quais os impactos para economia brasileira e o mercado da carne bovina?

Tulio Cariello: A política de “covid zero” tem causado transtornos em toda a cadeia de suprimentos globais, tendo em vista a centralidade da China nessa dinâmica. Os discursos recentes do presidente Xi Jinping demonstram que o país está disposto a ter um ritmo menor de crescimento como efeito colateral do controle da pandemia – o que naturalmente pode afetar o comércio exterior da China.

O Brasil não saiu ileso nessa nova realidade. Enquanto as exportações do Brasil para o mundo cresceram 19% na comparação entre janeiro-outubro de 2022, frente a 2021, as vendas para a China caíram 1,3%, sendo as únicas em queda dentre os dez principais destinos das vendas do Brasil no exterior. As exportações para os Estados Unidos, por exemplo, cresceram 23% nesse período.

Por outro lado, a exportação de carne bovina para o país asiático seguiu em alta. No mesmo período, as vendas subiram 46% em volume e 80% em faturamento. Esse resultado fez com que o produto aumentasse sua participação na pauta de exportações do Brasil para a China em 4 pontos percentuais, chegando a representar 9% de todas as vendas para o país. É importante notar, entretanto, que esse é um mercado sujeito a muita volatilidade e a questões políticas e sanitárias, então é fundamental que haja um diálogo constante entre os governos dos dois países de forma a manter o fluxo de vendas estável.

Scot Consultoria: O atual momento político do Brasil pode, de alguma forma, influenciar a relação Brasil-China?

Tulio Cariello: A eleição do candidato Lula não deve alterar as relações econômicas entre os dois países. Na minha visão, a questão do comércio e dos investimentos não muda muito com a troca de governos, uma vez que é pautada sobretudo pela iniciativa privada do lado brasileiro e pelo pragmatismo e visão de longo prazo do lado chinês.

Creio que a partir do ano que vem, o Brasil voltará a dar maior destaque à agenda de relações exteriores – algo promissor para novos impulsos em fóruns multilaterais, sobretudo na área de sustentabilidade e mudanças climáticas, na qual a China é hoje um importante ator. O Brasil tem vocação e um histórico relevante nos debates internacionais sobre o tema e já vemos sinais de que ele deve ter um papel central no próximo governo.

Scot Consultoria: Qual o impacto do novo governo do Xi Jinping nas importações chinesas de produtos brasileiros? A piora na relação com os EUA também pode favorecer o Brasil?

Tulio Cariello: No último Congresso do Partido Comunista, realizado em outubro deste ano, o presidente Xi Jinping elencou a segurança nacional como uma prioridade de Pequim – incluindo nesse termo a segurança alimentar e energética -, áreas em que o Brasil tem condições de atender a China como poucos países no mundo. A China vê o Brasil, majoritariamente, como um fornecedor de commodities, fato que não mudará com a nova configuração do governo chinês. Portanto, acredito que vamos assistir a uma manutenção do quadro atual das relações, com grandes volumes de exportações agrícolas, minerais e de petróleo.

A relação entre China e Estados Unidos será pautada pela rivalidade, algo que marcará as relações internacionais por tempo indeterminado. Vimos a então chamada “guerra comercial”, iniciada pelo então presidente Trump, escalar as tensões entre as duas potências e, naquele momento, o Brasil acabou se beneficiando por ser um mercado alternativo ao americano em termos de fornecimento de produtos agrícolas. Mas vejo essas “vantagens” com muita cautela, uma vez que são apenas reativas e não fazem parte de um plano de expansão oficial pensada pelo lado brasileiro. Não é viável pensar uma relação com tanto potencial apenas “surfando” nas ondas das tempestades causadas pelos choques entre a China e os Estados Unidos.

Scot Consultoria: Com a restauração do plantel de suínos chinês e mudança no modelo produtivo, é possível que as compras de soja e milho, que já estão bem altas, continuem a aumentar na mesma toada?

Tulio Cariello: No curto prazo, acredito que sim. Mas é importante observar que há duas formas de interpretar o aumento das vendas de commodities para a China, uma vez que nem sempre o crescimento do valor exportado reflete um aumento real da demanda. Em tempos de valorização do preço da soja, é natural que haja a percepção de vendas maiores, uma vez que os retornos financeiros tendem a crescer. Por exemplo: até outubro deste ano, o volume de soja exportado do Brasil para a China caiu 10% em comparação com o mesmo período de 2021, mas os retornos financeiros aumentaram 10% por conta da valorização do preço da oleaginosa.

No caso do milho, o mercado chinês foi aberto recentemente ao grão brasileiro, o que é uma excelente notícia para os produtores nacionais, sobretudo em um momento em que há pressões em importantes fornecedores internacionais da China, como a Ucrânia, e uma busca de Pequim por menor dependência de importações com origem nos Estados Unidos, que está entre os maiores exportadores mundiais de milho.

A estabilização da peste suína africana na China, apesar de ser um acontecimento promissor para produtores de milho e soja, já está afetando a exportação brasileira de carne suína. Após um crescimento vertiginoso das vendas, temos, atualmente, uma redução considerável. Na comparação entre janeiro-outubro de 2022, frente a 2021, a exportação de carne suína ao país caiu 25% em volume e 32% em valor. Com a restauração do plantel suíno na China, é provável que as vendas do setor se estabilizem e cresçam em menor ritmo – algo que já era previsto.

No longo prazo, segundo o China Agricultural Outlook, a demanda por milho para alimentação animal não deve crescer, ao contrário da demanda para a indústria, o que deve garantir o crescimento do consumo doméstico e das importações, com uma eventual estabilização por volta de 2031. No caso da soja, a China busca ser menos dependente do mercado externo e tem aumentado a produção doméstica para atender ao crescimento do consumo interno, o que deve reduzir as importações.

Scot Consultoria: A China tem aumentado seus parceiros comerciais na África, visto que o foco das negociações são produtos agropecuários. Essa proximidade do país asiático com o continente africano pode influenciar nas relações econômicas com o Brasil?

Tulio Cariello: A China tem consciência que depende de um número reduzido de países em suas importações de algumas commodities agrícolas. O caso da soja é muito emblemático nesse contexto. Em 2021, cerca de 60% das compras externas do país vieram do Brasil. Ao mesmo tempo, até outubro deste ano, pouco mais da metade da exportação de soja do Brasil teve a China como destino. Ou seja, é uma relação de dependência mútua com riscos para os dois lados.

Nesse sentido, o movimento da China é acertado e o país tem costurado acordos com um número maior de fornecedores para evitar o agravamento dessa dependência. O Brasil, por outro lado, deveria intensificar a abertura de novos destinos de exportação de produtos agrícolas. A própria Ásia e mesmo a África são continentes com grande potencial a ser explorado para além da China.

Há mais de uma década, havia um diplomata chinês que dizia que “não é o Brasil que vende para a China, é a China que compra do Brasil”, se referindo à falta de uma estratégia clara do lado brasileiro com o objetivo de explorar todo o potencial do mercado chinês. Hoje temos alguns avanços, sobretudo na abertura de novos mercados no exterior e na gradual diversificação da cesta de exportações agrícolas brasileiras, mas ainda não há, por parte do Estado brasileiro, uma política clara para diminuir essa grande dependência da China.

Fonte: Scot Consultoria

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