Cacau começa a ocupar pastagens degradadas na Amazônia e abre nova fronteira para o agro

Produção agroflorestal avança especialmente no Pará, maior produtor brasileiro, enquanto estudos mostram recuperação do solo em áreas convertidas; especialistas, porém, alertam que os benefícios dependem do modelo adotado no campo

Transformar antigas áreas de pastagem em sistemas produtivos com cacau está ganhando importância na Amazônia brasileira. O movimento é especialmente visível no Pará, estado que lidera a produção nacional da amêndoa e reúne projetos públicos e privados voltados à implantação de sistemas agroflorestais em terras já abertas, evitando que o aumento da produção dependa da ocupação de novas áreas de floresta.

O interesse cresceu em meio à valorização do cacau nos últimos anos, mas a estratégia de utilizar a cultura na recuperação produtiva de áreas degradadas é anterior à recente alta das cotações. Ela já aparece em políticas para a cacauicultura brasileira e ganhou novo impulso com investimentos anunciados em 2026. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Cacau em pastagens degradadas ganha força no Pará

Reportagem publicada pela Reuters em 28 de setembro mostrou propriedades da Amazônia nas quais áreas anteriormente utilizadas pela pecuária estão sendo convertidas para a produção de cacau, principalmente sob modelos agroflorestais.

O Pará ocupa uma posição estratégica nessa transformação. Segundo os dados consolidados da Produção Agrícola Municipal do IBGE, o estado produziu 153.647 toneladas de cacau em 2025, em 170.621 hectares, com rendimento médio de 901 quilos por hectare. Medicilândia apareceu como o município de maior produção no estado.

O Brasil produziu 314.364 toneladas no mesmo ano. Isso significa que o Pará respondeu por aproximadamente 48,9% de todo o cacau produzido no país em 2025, mantendo-se como o principal estado produtor.

O valor da produção paraense também chama atenção. O IBGE calculou R$ 6,159 bilhões em 2025, praticamente metade dos R$ 12,95 bilhões movimentados pela produção brasileira de cacau naquele ano.

É sobre essa base produtiva já consolidada que começam a se ampliar projetos interessados não apenas em produzir mais cacau, mas em aproveitar terras anteriormente abertas para outras atividades.

Pesquisa mostra recuperação do solo após conversão da pastagem

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Agriculture, Ecosystems & Environment fornece uma das evidências mais importantes para entender o que pode acontecer quando uma pastagem degradada é convertida para um sistema agroflorestal com cacau.

Os pesquisadores analisaram dois sistemas agroflorestais comerciais, estabelecidos havia 12 e 25 anos, e utilizaram uma pastagem degradada e um fragmento de floresta nativa como referências de comparação. Participaram do trabalho pesquisadores ligados à Universidade Federal Rural da Amazônia, Universidade Federal do Pará, Instituto Federal do Pará e Embrapa Amazônia Oriental.

A comparação incluiu características físicas e biológicas do solo, entre elas matéria orgânica, estoque de carbono, densidade, porosidade, resistência à penetração e presença de macrofauna.

Os resultados mostraram que os sistemas agroflorestais apresentavam maior teor de matéria orgânica, maior estoque de carbono e maior porosidade do que a pastagem degradada. Também foram encontradas menor densidade do solo e menor resistência à penetração, especialmente nas camadas mais próximas da superfície.

A recuperação não ocorreu apenas na área mais antiga.

Segundo os pesquisadores, o sistema com 12 anos já apresentava melhora da estrutura física do solo e aumento do estoque de carbono.

No SAF de 25 anos, os resultados incluíram ainda maior abundância de macrofauna, maior riqueza de grupos de organismos e presença mais expressiva dos chamados engenheiros do ecossistema, animais capazes de modificar fisicamente o ambiente do solo e contribuir para processos como decomposição e ciclagem de nutrientes.

A análise conjunta dos indicadores revelou uma trajetória que partia das condições encontradas na pastagem degradada em direção às observadas no fragmento de floresta.

Isso não significa que o sistema agroflorestal tenha se tornado equivalente à floresta nativa. O que o trabalho mostrou foi uma progressão na recuperação de funções físicas e biológicas do solo após a conversão.

Resultado não pode ser estendido automaticamente à monocultura

Essa diferença é essencial para interpretar corretamente a pesquisa.

O estudo não avaliou simplesmente uma plantação de cacau instalada em uma antiga pastagem. Foram analisados sistemas agroflorestais comerciais baseados em cacau, nos quais a cultura integra um arranjo produtivo mais diversificado.

Portanto, afirmar que substituir gado por cacau, por si só, recupera uma área degradada seria extrapolar as conclusões científicas.

É justamente aí que aparece um dos principais conflitos dessa nova expansão.

A Reuters relatou preocupações de organizações que atuam na região sobre empreendimentos que poderiam utilizar o conceito de agrofloresta mesmo mantendo baixa diversidade de árvores e forte predominância do cacaueiro.

O alerta não demonstra que essa seja a realidade predominante no Pará. Ele mostra, contudo, que a forma de implantação pode ser tão importante quanto a cultura escolhida.

Um sistema diversificado, com árvores, cobertura permanente do solo e diferentes espécies ocupando o espaço produtivo, não produz necessariamente os mesmos efeitos ambientais de uma lavoura homogênea.

Governo aposta na expansão sem abertura de novas áreas

O uso de áreas antropizadas também aparece formalmente na estratégia nacional para a cacauicultura.

O Plano Inova Cacau 2030, coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária por meio da Ceplac, estabelece entre suas ações o estímulo à recuperação de áreas já alteradas por atividades humanas utilizando sistemas produtivos sustentáveis com cacau.

A lógica apresentada no documento é ampliar a produção sem tornar necessária a supressão de novas áreas de floresta nativa.

Essa estratégia recebeu reforço financeiro em 2026.

Em maio, foi lançado o projeto Cacau Brasil Agrofloresta, com atuação no Pará e na Bahia e duração prevista de quatro anos.

Segundo a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, o investimento previsto é de aproximadamente US$ 31 milhões. Desse total, mais de US$ 23 milhões vêm do Fundo Verde para o Clima e US$ 7,8 milhões correspondem à participação da Ceplac.

A expectativa oficial é implantar mais de 12 mil hectares de sistemas agroflorestais nos dois estados.

O projeto também estabelece objetivos climáticos, entre eles redução ou remoção de emissões de gases de efeito estufa. Esses números são metas do programa e, portanto, não devem ser tratados como resultados já alcançados.

O Compre Rural já acompanhou esse lançamento ao mostrar a implantação do projeto agroflorestal no Pará e na Bahia.

Expansão privada também mira áreas degradadas

O interesse não está restrito ao poder público.

Empresas passaram a enxergar a combinação entre cacau, restauração produtiva e árvores como modelo comercial capaz de unir receita agrícola e ativos ambientais.

Entre os exemplos está a Belterra Agroflorestas. Em maio, a empresa anunciou aporte de R$ 75 milhões e um plano de expansão que prevê chegar a aproximadamente 15 mil hectares de cacau integrado a outras espécies, com operações concentradas principalmente no Pará e na Bahia.

O projeto associa produção agrícola, recuperação ambiental e geração de créditos de carbono.

As metas, entretanto, ainda representam planos empresariais e não hectares integralmente implantados. Essa distinção é importante para não confundir intenção de expansão com área efetivamente estabelecida.

Cacau não está chegando agora às áreas degradadas

Embora o atual ciclo de investimentos dê maior visibilidade ao assunto, utilizar cacau para recuperar áreas alteradas não é uma prática inaugurada em 2026.

O próprio Plano Inova Cacau cita estudos anteriores sobre o aproveitamento de áreas já desmatadas e degradadas para expansão da cultura, com participação relevante da agricultura familiar e dos sistemas agroflorestais no Pará.

Por isso, dizer que o cacau “começou a substituir” as pastagens degradadas pode transmitir a impressão equivocada de que se trata de um fenômeno totalmente novo.

O que os acontecimentos recentes mostram é diferente: uma estratégia que já existia começa a receber mais dinheiro, projetos de maior escala e atenção empresarial em um momento de forte interesse econômico pela commodity.

Essa mudança de escala é que torna a discussão atual relevante.

Produzir mais sem repetir a expansão sobre a floresta

Para o Brasil, existe uma oportunidade evidente.

O país possui uma cadeia produtiva estabelecida, o Pará já responde por quase metade da produção nacional e há interesse crescente em ampliar a oferta de cacau. Ao mesmo tempo, existem extensões de terras anteriormente abertas para outras atividades que podem receber novos sistemas produtivos.

A utilização dessas áreas reduz a necessidade de associar aumento da produção à abertura de novas fronteiras agrícolas.

Mas a existência de terras degradadas disponíveis não resolve sozinha o problema.

Recuperar o solo exige manejo, assistência técnica e tempo. A pesquisa publicada em 2026 é especialmente ilustrativa nesse ponto: os efeitos foram observados em sistemas que estavam estabelecidos havia 12 e 25 anos, e os resultados mais avançados de reorganização biológica apareceram justamente na área mais antiga.

Isso coloca limites na tentativa de vender agroflorestas como solução imediata.

A recuperação é um processo gradual.

O modelo de produção será decisivo para o resultado

A expansão do cacau sobre antigas pastagens pode levar a dois caminhos bastante diferentes.

No primeiro, áreas de baixa produtividade passam a abrigar sistemas diversificados, com cacau e outras espécies, permitindo produção agrícola ao mesmo tempo em que características importantes do solo são recuperadas.

No segundo, a valorização econômica do cacau estimula uma expansão simplificada, com baixa diversidade e foco quase exclusivo na commodity.

Os dois cenários podem produzir cacau, mas não devem ser tratados como ambientalmente equivalentes.

O estudo científico disponível oferece evidências fortes sobre os efeitos positivos dos sistemas agroflorestais avaliados. Ele não prova que qualquer expansão da cacauicultura apresente o mesmo desempenho ambiental.

Essa distinção também será importante para produtores, investidores, compradores e programas governamentais que utilizam termos como restauração, agricultura regenerativa ou agrofloresta.

Com o Pará consolidado como maior produtor nacional e novos recursos chegando à cadeia, o próximo avanço da cacauicultura amazônica será medido não apenas pelo número de hectares plantados.

A questão será saber quantos desses hectares realmente substituirão áreas degradadas por sistemas produtivos capazes de recuperar funções do solo sem abrir uma nova frente de pressão sobre a floresta.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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