Exigência de comprovação do uso de antimicrobianos durante toda a vida dos animais pode prolongar restrição e dificultar retomada das exportações de carne bovina brasileira para União Europeia esperada para 2027
A carne bovina brasileira pode levar aproximadamente dois anos para retornar plenamente ao mercado da União Europeia. A avaliação é de Eric Thévenard, chefe de auditorias da autoridade sanitária europeia, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. O principal obstáculo é a necessidade de comprovar o cumprimento das exigências sobre uso de antimicrobianos durante toda a vida do animal, do nascimento ao abate.
A estimativa coloca sob pressão a expectativa apresentada em setembro pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, de uma possível retomada no primeiro semestre de 2027. Além da aprovação dos controles brasileiros, a recuperação das vendas dependerá da disponibilidade de bovinos com histórico compatível com as regras europeias.
Por que a retomada pode demorar
As restrições entraram em vigor em 3 de setembro de 2026, após o Brasil ficar fora da lista europeia de países autorizados a exportar determinados animais e produtos de origem animal sob as novas exigências relacionadas aos antimicrobianos.
Para a cadeia bovina, a dificuldade está na comprovação do manejo ao longo de todo o ciclo produtivo. Registros feitos apenas na fase final de engorda podem não demonstrar como o animal foi criado e tratado nas etapas anteriores.
“Exigimos garantias para todo o ciclo de vida dos animais”, declarou a porta-voz da Comissão Europeia, em briefing realizado em Bruxelas em 1º de setembro, em tradução livre.
Como o bovino permanece anos no sistema de produção, a formação de uma oferta plenamente enquadrada pode levar mais tempo do que a negociação e a aprovação dos protocolos.
A estimativa não significa que a União Europeia tenha imposto um embargo com prazo fixo de dois anos. O reconhecimento dos controles brasileiros pode ocorrer antes, enquanto a disponibilidade de animais elegíveis dependerá dos critérios aceitos pelo bloco.
Brasil tenta acelerar a liberação
O governo brasileiro busca reduzir esse prazo. Em reunião realizada em 30 de setembro, representantes do Brasil pediram à Comissão Europeia um procedimento acelerado para autorizar a carne bovina, semelhante ao encaminhamento dado às cadeias de aves e mel.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, a auditoria europeia sobre esses dois setores teve resultado positivo. A avaliação reconheceu a capacidade dos controles oficiais brasileiros de oferecer as garantias exigidas.
A diferença está no ciclo de produção. Enquanto o frango de corte é criado em poucas semanas, o bovino leva anos até o abate. Essa característica torna mais complexa a comprovação de todo o histórico dos animais destinados à Europa.
Mercado europeu movimentou mais de US$ 1 bilhão
Embora compre menos carne brasileira que a China, a União Europeia é um destino estratégico para cortes de maior valor. Em 2025, as exportações brasileiras de carne bovina para o bloco movimentaram aproximadamente US$ 1,05 bilhão.
Entre janeiro e agosto de 2026, a receita chegou a cerca de US$ 791,3 milhões, crescimento de 44,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Nesse intervalo, as vendas de carne bovina in natura somaram aproximadamente 72,95 mil toneladas, com receita de US$ 659 milhões.
A restrição interrompe, portanto, um período de expansão das vendas. O redirecionamento para outros compradores pode ajudar a escoar a produção, mas não garante a mesma remuneração obtida no mercado europeu, já que cada destino demanda cortes e padrões diferentes.
O que muda para o pecuarista
O fechamento do mercado europeu não determina, por si só, uma queda imediata no preço do boi gordo. A formação da arroba também depende da oferta de animais terminados, das escalas de abate e da demanda doméstica e internacional.
No mercado físico brasileiro, a disponibilidade restrita de gado tem sustentado as cotações. Durante a semana, foram registrados negócios pontuais de R$ 380 por arroba em São Paulo, conforme levantamento divulgado pelo Compre Rural.
Para os produtores que atendem cadeias exportadoras, o episódio reforça a importância dos registros sanitários e da rastreabilidade. A identificação individual precisa estar acompanhada de informações confiáveis sobre origem, movimentações e tratamentos veterinários.
Exigência começa na fazenda de cria
Se a comprovação precisa abranger toda a vida do bovino, a fazenda de cria passa a ter papel central na formação dos lotes destinados ao mercado europeu.
Frigoríficos, recriadores e confinadores poderão precisar ampliar a integração com os criadores para assegurar a continuidade dos registros desde o nascimento. Animais que chegam à etapa final sem documentação adequada podem enfrentar dificuldades para atender às exigências.
Ainda não há base para estimar um eventual prêmio por bovinos enquadrados nos novos protocolos. A possibilidade de remuneração adicional dependerá da demanda europeia, dos custos de certificação e das condições comerciais oferecidas pela indústria.
A retomada das exportações permanece em negociação. O prazo dependerá tanto da aprovação dos controles brasileiros quanto das condições estabelecidas pela União Europeia para reconhecer o histórico dos animais.
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