Nova tecnologia na silagem é testada para reduzir metano das vacas, mas estudo revela limites

Pesquisa internacional com 30 vacas leiteiras identificou redução de até 7,7% nas emissões de metano em uma das semanas avaliadas; tecnologia utiliza bactérias especiais na silagem, mas ainda precisa comprovar resultados consistentes antes de chegar às fazendas.

Uma tecnologia que utiliza bactérias específicas durante a produção de silagem está abrindo uma nova frente de pesquisa para reduzir as emissões de metano na pecuária leiteira. O método, que busca interferir na atividade dos microrganismos responsáveis pela fermentação ruminal, apresentou resultados promissores em determinados momentos de um experimento conduzido na Irlanda. Entretanto, os cientistas não conseguiram demonstrar uma redução consistente das emissões durante todo o período de avaliação, indicando que a solução ainda precisa superar desafios antes de ser considerada uma alternativa comercial.

O estudo, publicado em 26 de outubro de 2026, no periódico científico Journal of Dairy Research, reuniu pesquisadores do instituto irlandês Teagasc, da University College Cork e de outras instituições europeias. A investigação avaliou o comportamento de 30 vacas da raça Holandesa, alimentadas com silagem submetida a um tratamento microbiológico desenvolvido especificamente para atuar sobre a fermentação.

Entre os resultados, chamou atenção uma redução numérica de 7,7% nas emissões de metano na quinta semana do experimento. Considerando o intervalo entre a quarta e a sétima semanas, a diferença média observada foi de 5,8%. Apesar disso, a análise geral não confirmou uma redução significativa do gás ao longo das sete semanas.

A descoberta interessa especialmente à pecuária brasileira porque propõe atuar sobre um alimento amplamente utilizado nas propriedades, em vez de depender exclusivamente de suplementos adicionados diariamente à dieta. Contudo, os resultados também reforçam uma questão fundamental: alterar a fermentação da silagem não significa, necessariamente, conseguir reduzir de maneira permanente o metano produzido pelas vacas.

Como funciona a tecnologia que transforma a silagem em ferramenta contra o metano?

O princípio da inovação está na utilização de bactérias ácido-láticas com capacidade de produzir substâncias antimicrobianas conhecidas como bacteriocinas.

Essas substâncias podem interferir na atividade de determinados grupos de microrganismos. A hipótese dos pesquisadores é que, ao modificar as populações microbianas presentes na alimentação e, posteriormente, no rúmen, seja possível influenciar os processos associados à formação de metano.

No experimento foram utilizadas duas linhagens bacterianas:

  • Lactococcus lactis subsp. lactis SL242
  • Lactiplantibacillus plantarum LP58

Esses microrganismos foram incorporados à silagem na forma de inoculante, ou seja, um preparado microbiológico aplicado ao alimento durante seu processo de conservação.

Embora os inoculantes já sejam conhecidos na pecuária por sua capacidade de influenciar a fermentação e a conservação da forragem, a proposta investigada vai além dessas funções tradicionais.

O objetivo não é apenas melhorar a conservação da silagem, mas investigar se o tratamento microbiológico pode modificar a fermentação ruminal e diminuir a produção de metano pelos animais.

Existe, porém, uma diferença importante entre a hipótese e o mecanismo efetivamente demonstrado. O estudo identificou alterações na comunidade microbiana do rúmen, mas não estabeleceu que as bacteriocinas tenham sido diretamente responsáveis pela diminuição temporária do metano.

Experimento com 30 vacas revelou mudanças no rúmen

Para verificar os possíveis efeitos da tecnologia, os cientistas trabalharam com vacas Holandesas em fase final de lactação, mantidas em instalações cobertas.

Os animais foram divididos em dois grupos: um recebeu silagem tratada com as bactérias selecionadas e o outro foi alimentado com silagem sem o inoculante experimental.

O acompanhamento durou sete semanas, período em que foram avaliados aspectos relacionados à produção leiteira, ao consumo alimentar e às emissões de metano.

Os pesquisadores também acompanharam a composição do leite, o peso e o escore de condição corporal das vacas. Amostras do conteúdo ruminal foram submetidas a análises moleculares para investigar possíveis alterações nas populações microbianas.

A quantidade estimada de microrganismos fornecida pelo inoculante foi de aproximadamente 100 bilhões de unidades formadoras de colônias por vaca ao dia.

Um dos resultados mais relevantes foi a identificação de diferenças na composição das comunidades bacterianas do rúmen entre os grupos, especialmente nas semanas quatro e sete.

Isso indica que o tratamento conseguiu influenciar o ambiente microbiológico ruminal, embora a mudança não tenha resultado em redução sustentada das emissões durante o experimento.

Metano caiu até 7,7%, mas resultado não foi consistente

A avaliação das emissões revelou um comportamento variável ao longo do período experimental.

Entre a quarta e a sétima semanas, as vacas alimentadas com a silagem tratada apresentaram emissões numericamente 5,8% menores que as do grupo controle.

A maior diferença apareceu na quinta semana, quando a redução observada chegou a 7,7%.

No entanto, ao considerar o conjunto do experimento, os pesquisadores não identificaram uma redução global comprovada.

Essa distinção é decisiva para interpretar a tecnologia.

Um resultado favorável em determinado momento não significa que o mesmo efeito ocorrerá continuamente em uma propriedade comercial. O rúmen é um ambiente biológico complexo, no qual diferentes populações microbianas interagem e podem responder de maneiras distintas a alterações na dieta.

Além disso, a comunidade microbiana pode se adaptar ao longo do tempo, hipótese que precisa ser investigada em trabalhos de maior duração.

Portanto, os percentuais de 5,8% e 7,7% representam diferenças observadas no experimento, e não índices de redução que possam ser prometidos aos pecuaristas.

Produção de leite e consumo de alimento foram preservados

Outro aspecto importante foi a avaliação do desempenho produtivo.

Segundo os pesquisadores, o uso da silagem inoculada não provocou alterações relevantes no consumo de matéria seca, na ingestão de concentrado, na produção de leite ou no escore de condição corporal.

O consumo médio de matéria seca ficou em aproximadamente 12,4 kg por vaca ao dia, enquanto o fornecimento de concentrado foi de 4,3 kg por animal diariamente.

Também foram identificadas alterações temporárias na composição do leite, com aumentos na concentração de gordura e na produção de sólidos nas semanas quatro e cinco.

Essas diferenças, entretanto, não se mantiveram como um benefício produtivo consistente durante todo o acompanhamento.

Para uma tecnologia voltada à sustentabilidade, preservar o desempenho animal é essencial. Uma eventual redução de metano perde parte de sua atratividade econômica quando vem acompanhada de queda na produção de leite ou aumento expressivo no custo alimentar.

No caso desse experimento, a manutenção do desempenho é um aspecto positivo, mas ainda não demonstra ganho econômico.

Por que os resultados ainda exigem cautela?

A principal limitação está relacionada à consistência das respostas observadas.

O experimento envolveu apenas 30 animais, todos em uma fase específica da lactação, durante um período relativamente curto.

Os próprios autores apontam a necessidade de desenvolver novas estratégias de aplicação e fornecimento dos microrganismos, buscando melhorar a estabilidade dos efeitos.

Além disso, os resultados precisam ser avaliados em diferentes condições de alimentação, fases produtivas e sistemas de criação.

Uma vaca Holandesa em final de lactação pode apresentar respostas nutricionais e metabólicas distintas das observadas em animais no pico produtivo, em rebanhos de outras raças ou em bovinos de corte.

Por isso, não seria tecnicamente adequado extrapolar os resultados diretamente para sistemas tropicais de produção.

Também permanecem sem resposta questões relacionadas ao custo do inoculante, à estabilidade das linhagens bacterianas, à conservação do produto e à capacidade de reproduzir os resultados em escala comercial.

Revisão científica já havia mostrado potencial, mas poucas evidências em animais

O novo experimento faz parte de uma área de pesquisa que vem despertando interesse crescente.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Dairy Science, em fevereiro de 2026, avaliou o potencial de inoculantes utilizados na silagem para reduzir a formação de metano durante a fermentação ruminal.

Os pesquisadores identificaram inicialmente 434 publicações, mas apenas dez atenderam aos critérios estabelecidos para a análise.

Entre esses dez trabalhos, nove utilizaram experimentos laboratoriais, enquanto somente um havia realizado avaliação diretamente em animais.

A revisão identificou reduções de metano em 80% dos estudos selecionados, mas ressaltou que os resultados obtidos em laboratório não podem ser automaticamente reproduzidos em bovinos vivos.

Aliás, o único experimento com animais incluído naquela revisão havia registrado aumento das emissões, diferentemente dos resultados predominantemente favoráveis encontrados em condições laboratoriais.

Esse contraste ajuda a compreender a importância do novo estudo.

Ele amplia as evidências obtidas diretamente em vacas, mas também demonstra que o potencial identificado nas pesquisas microbiológicas ainda não se traduz necessariamente em uma tecnologia pronta para utilização comercial.

O que essa descoberta representa para a pecuária brasileira?

No Brasil, a possibilidade de associar conservação de forragens e redução de emissões possui relevância tanto ambiental quanto produtiva.

A silagem de milho e outros volumosos conservados ocupa posição estratégica na alimentação dos rebanhos leiteiros, especialmente durante períodos de menor disponibilidade de pastagens ou em propriedades com sistemas intensivos.

Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, a produção brasileira alcançou aproximadamente 36,7 bilhões de litros de leite em 2025, mostrando a dimensão de uma atividade em que pequenas melhorias de eficiência alimentar podem ter impactos importantes quando aplicadas em grande escala.

A alimentação também representa uma das principais frentes para melhorar o desempenho ambiental da pecuária.

A Embrapa Pecuária Sudeste destaca que a intensidade das emissões de metano entérico está relacionada, entre outros fatores, ao consumo e à qualidade dos alimentos, particularmente à digestibilidade da dieta.

Nesse contexto, a pesquisa europeia levanta uma possibilidade: desenvolver inoculantes de silagem que combinem conservação da forragem com efeitos específicos sobre a fermentação ruminal.

Entretanto, sua aplicação no Brasil dependeria de novas avaliações.

Os sistemas brasileiros apresentam particularidades importantes, como temperaturas mais elevadas, diferentes forrageiras, maior participação de raças zebuínas e seus cruzamentos, além de diferenças expressivas no manejo alimentar.

Os resultados obtidos com vacas Holandesas na Irlanda não comprovam que o mesmo tratamento funcionará em rebanhos Girolando ou em bovinos de corte alimentados com silagem de milho, sorgo ou capins tropicais.

Essa adaptação seria uma etapa indispensável para avaliar o potencial da tecnologia no país.

Silagem bem-feita continua sendo prioridade nas propriedades

Enquanto as novas soluções microbiológicas avançam na pesquisa, existem medidas de manejo que já possuem importância comprovada para a conservação de volumosos.

Uma investigação publicada na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, vinculada à Embrapa, avaliou os efeitos do atraso na vedação e da utilização de inoculantes sobre a qualidade da silagem de milho.

O estudo demonstrou que atrasar o fechamento do silo prejudica características nutricionais da forragem, aumentando perdas de nutrientes. Nas condições avaliadas, a aplicação do inoculante não conseguiu compensar os prejuízos associados ao manejo inadequado.

A observação traz uma lição importante: nenhum inoculante deve ser tratado como substituto de uma ensilagem tecnicamente correta.

Para o produtor, os cuidados continuam envolvendo o ponto adequado de colheita, a regulagem da picagem, a compactação eficiente, a vedação rápida, o controle da entrada de oxigênio e o manejo correto da retirada do alimento.

A qualidade nutricional também deve ser acompanhada por análises laboratoriais, evitando que diferenças na composição da forragem comprometam a formulação da dieta.

O Compre Rural já abordou esses cuidados em conteúdos sobre o planejamento correto da silagem para alimentação do gado e a importância de conhecer sua composição nutricional.

Reduzir metano pode trazer benefícios econômicos?

A produção de metano representa uma das consequências naturais da fermentação dos alimentos no rúmen.

Durante esse processo, parte da energia consumida pelos animais é perdida na forma de gás, que é eliminado principalmente por eructação.

Por essa razão, estratégias capazes de reduzir a formação de metano despertam interesse não apenas ambiental, mas também nutricional.

Em determinadas condições, mudanças na fermentação ruminal podem favorecer o aproveitamento energético da dieta. Isso, entretanto, não significa que toda redução de metano resulte automaticamente em maior produção de leite ou melhor conversão alimentar.

No estudo europeu, por exemplo, não foi demonstrado aumento consistente de produtividade associado ao inoculante experimental.

A viabilidade econômica dependerá de fatores como custo por tonelada de silagem tratada, dosagem necessária, duração dos efeitos, possíveis ganhos produtivos e eventual remuneração por indicadores ambientais.

A redução das emissões também precisa ser mensurada de forma padronizada, diferenciando a quantidade de metano emitida diariamente daquela produzida por litro ou quilograma de leite.

Essa discussão acompanha o avanço das ferramentas de monitoramento ambiental na pecuária. O Compre Rural já destacou iniciativas voltadas à mensuração das emissões de metano na produção bovina, um tema que tende a ganhar importância nos sistemas produtivos.

O que falta para a tecnologia chegar às fazendas?

Antes de recomendar sua utilização comercial para reduzir emissões, os pesquisadores precisarão esclarecer se o efeito observado pode ser mantido por períodos prolongados.

Também será importante verificar como diferentes doses, formulações e métodos de aplicação influenciam a resposta dos animais.

Os próximos estudos deverão avaliar não apenas o comportamento do metano, mas também a produtividade, o consumo de alimentos, a composição do leite, a saúde do rebanho e os custos envolvidos.

Outro desafio será entender melhor quais alterações no microbioma ruminal são responsáveis pelos efeitos encontrados, distinguindo mudanças temporárias na comunidade microbiana de mecanismos efetivos de mitigação.

Para o Brasil, testes com forrageiras tropicais, vacas de diferentes padrões genéticos e sistemas reais de produção seriam particularmente relevantes.

A perspectiva é promissora, mas ainda experimental. Não existem evidências suficientes, a partir desse estudo, para afirmar que o inoculante já possa ser adotado comercialmente com garantia de redução das emissões.

O futuro da silagem pode ir além da conservação dos alimentos

A pesquisa publicada no Journal of Dairy Research mostra que a silagem poderá assumir novas funções dentro da nutrição animal, especialmente se os avanços da microbiologia permitirem desenvolver alimentos capazes de influenciar processos específicos da fermentação ruminal.

A possibilidade de reduzir metano por meio de um alimento que já integra a rotina das propriedades representa uma linha de investigação relevante para a sustentabilidade da pecuária.

Entretanto, o principal resultado do estudo não é a comprovação de uma tecnologia capaz de reduzir permanentemente as emissões, mas a identificação de respostas microbiológicas e reduções temporárias que merecem investigação adicional.

Para o pecuarista brasileiro, a recomendação permanece fundamentada na eficiência produtiva: produzir volumosos de qualidade, reduzir perdas, formular dietas equilibradas e acompanhar o desempenho do rebanho.

Se novos experimentos confirmarem efeitos duradouros, economicamente viáveis e reproduzíveis em diferentes sistemas, os inoculantes poderão ampliar seu papel na alimentação animal.

Até lá, a nova tecnologia na silagem deve ser acompanhada como uma inovação científica com potencial de aplicação, e não como uma solução já comprovada para eliminar ou reduzir de forma garantida o metano das vacas.

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