Casa Branca amplia cota de importação para tentar aliviar preços nos Estados Unidos, enquanto pecuaristas contestam estratégia e concentração da indústria volta ao debate
A carne bovina entrou novamente no centro da agenda econômica de Donald Trump nos Estados Unidos. Pressionado pelo preço elevado da proteína, o presidente abriu duas frentes: decidiu facilitar temporariamente determinadas importações e sinalizou que pretende revisar regras que afetam o processamento. Do outro lado, pecuaristas norte-americanos alertam que aumentar a concorrência estrangeira pode prejudicar justamente a recuperação da produção doméstica.
O movimento ganhou força nesta semana, quando Trump disse que analisaria as normas do setor após uma discussão sobre as dificuldades enfrentadas por produtores menores para processar os próprios animais.
A discussão vai além da burocracia. O governo também mantém atenção sobre o grau de concentração existente entre os grandes frigoríficos dos Estados Unidos.
Carne bovina coloca concentração dos frigoríficos em debate
Dados do Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que os quatro maiores frigoríficos respondem por cerca de 85% das compras de novilhos e novilhas no país.
Esse nível era de apenas 36% em 1980 e avançou rapidamente nas décadas seguintes, alterando a relação entre produtores e compradores de gado.
Entre os principais grupos estão Cargill, Tyson Foods, JBS USA e National Beef. As duas últimas possuem ligação direta com empresas brasileiras: a JBS USA integra a JBS, enquanto a National Beef faz parte do portfólio da MBRF.
A elevada concentração voltou ao radar da administração Trump em meio às discussões sobre concorrência e formação dos preços. O Departamento de Justiça também investiga a atuação das grandes companhias do segmento, segundo informações divulgadas pela Reuters.
Trump abre espaço para mais importação
Enquanto avalia mudanças na estrutura do mercado, a Casa Branca adotou uma medida mais imediata para tentar aumentar a oferta.
Trump assinou, em 26 de agosto, uma proclamação que adiciona 300 mil toneladas métricas de cortes bovinos magros à cota de importação sujeita à tarifa mais baixa em 2026.
O volume será liberado em três etapas de 100 mil toneladas. A primeira começa em 1º de setembro, seguida por novas liberações em outubro e novembro.
Esses cortes são especialmente importantes para a produção de carne moída nos Estados Unidos, já que a indústria costuma misturar carne magra importada com matéria-prima doméstica com maior teor de gordura.
A Casa Branca justifica a decisão afirmando que a oferta atual é insuficiente para atender à demanda a preços considerados razoáveis.
Pecuaristas temem pressão sobre o produtor americano
A estratégia, porém, encontrou resistência no campo.
Entidades ligadas à pecuária argumentam que aumentar as importações em um momento de recuperação pode reduzir o incentivo econômico para a recomposição do rebanho norte-americano.
A preocupação ocorre porque os produtores passaram anos reduzindo plantéis diante de fatores como seca, custos elevados e menor disponibilidade de pastagens.
Economistas ouvidos pela Reuters também colocaram em dúvida a capacidade de a nova cota provocar uma queda expressiva no varejo, principalmente porque o volume adicional representa apenas uma parcela do consumo total dos Estados Unidos.
O desafio para Trump, portanto, é conseguir ampliar a oferta ao consumidor sem provocar uma queda excessiva na remuneração dos pecuaristas.
Oferta limitada mantém carne bovina sob pressão
Os dados mais recentes ajudam a explicar por que a carne bovina se tornou um problema político e econômico para Washington.
Em 1º de julho, os Estados Unidos possuíam 94,2 milhões de bovinos e bezerros, segundo o USDA. Dentro desse total, havia 28,5 milhões de vacas de corte, redução de 1% em relação ao ano anterior.
A produção estimada de bezerros também recuou, chegando a 32,5 milhões de cabeças, queda anual de 2%.
Com menos animais disponíveis e uma demanda ainda elevada, o mercado enfrenta dificuldades para aumentar rapidamente a produção.
É nesse cenário que Trump tenta combinar importações temporárias, possível flexibilização regulatória e maior fiscalização sobre os grandes frigoríficos.
Para o consumidor, a prioridade é encontrar carne mais barata. Para o pecuarista, o receio é que a solução de curto prazo prejudique a recuperação do setor no longo prazo.
VEJA MAIS:
- Do rambutã ao “abacaxi que desmonta em gomos”: frutas exóticas chamam atenção em Barretos
- Caso inédito de gripe aviária H5N1 em mamífero é confirmado na Austrália
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.