Carne bovina volta a subir nos EUA enquanto negociação do boi trava e oferta retrai

Carne Choice avançou para US$ 380,77 por 100 libras em 9 de setembro, enquanto compradores praticamente desapareceram do mercado físico e futuros devolveram parte da alta. Apenas 18% das pastagens americanas estão avaliadas como boas ou excelentes.

O mercado bovino dos Estados Unidos voltou a mostrar nesta quarta-feira, 9 de setembro, a tensão entre uma oferta apertada de gado e a resistência dos frigoríficos em elevar ainda mais o preço pago pelos animais. Enquanto as negociações no mercado físico praticamente pararam, a carne bovina Choice no atacado avançou para US$ 380,77 por 100 libras, reforçando a pressão que continua presente do lado da proteína.

A movimentação chamou atenção porque ocorreu apenas um dia depois de uma forte recuperação dos contratos futuros. Na terça-feira, o boi para outubro havia saltado US$ 4,075, para US$ 217,025 por 100 libras, mas na quarta-feira devolveu parte do avanço e encerrou próximo de US$ 215,85. O movimento mostra que, apesar da escassez estrutural de animais, o mercado ainda tenta encontrar um novo equilíbrio depois das medidas do governo Donald Trump para ampliar a oferta importada.

No mercado físico, entretanto, praticamente não houve negócio. Apenas 38 bovinos foram reportados em vendas negociadas, enquanto compradores permaneceram ausentes em importantes estados produtores como Texas, Kansas, Nebraska e Iowa. Na semana anterior, o boi vivo havia registrado média de aproximadamente US$ 219,54 por 100 libras, evidenciando a disputa entre frigoríficos que tentam conter custos e pecuaristas resistentes a aceitar novas quedas.

Carne sobe mesmo com frigoríficos reduzindo compras

O comportamento da carne no atacado ajuda a explicar essa disputa.

Na terça-feira, a carne Choice já havia subido para US$ 377,57 por 100 libras. Um dia depois, avançou novamente e fechou em US$ 380,77, enquanto o produto Select ficou em US$ 352,34.

Ao mesmo tempo, o abate segue abaixo do observado no mesmo período de 2025. Na terça-feira foram processados aproximadamente 109 mil bovinos, contra cerca de 121 mil cabeças um ano antes.

Menos animais entrando nas plantas frigoríficas significa menor disponibilidade de carne, fator que continua sustentando os preços mesmo quando os contratos futuros do gado enfrentam correções.

O cenário ajuda a entender por que empresas como a Tyson Foods continuam enfrentando dificuldades em sua divisão bovina. A companhia já projeta perdas operacionais ajustadas entre US$ 625 milhões e US$ 775 milhões no negócio de carne bovina neste ano fiscal, atribuindo boa parte da pressão à falta de gado e aos elevados custos da matéria-prima.

Apenas 18% das pastagens estão em boas condições

Outro dado divulgado nesta semana reforça a preocupação com a capacidade dos Estados Unidos de aumentar rapidamente seu rebanho.

Segundo os dados semanais usados pelo mercado, apenas 18% das pastagens americanas estavam classificadas como boas ou excelentes, percentual que permaneceu extremamente baixo no início de setembro.

A condição das pastagens é especialmente importante porque os Estados Unidos precisam aumentar a retenção de novilhas para reconstruir seu plantel.

Para isso, porém, o pecuarista precisa ter forragem e água disponíveis para manter essas fêmeas por um período prolongado antes que produzam seus primeiros bezerros.

Em outras palavras, o preço elevado do gado sozinho não garante a recuperação do rebanho.

Governo aumenta importações, mas falta de gado continua

Washington tenta atacar o problema aumentando temporariamente as importações de carne bovina.

A estratégia pode colocar proteína adicional no mercado em poucos meses, mas não resolve o principal gargalo estrutural: o número reduzido de bovinos e, principalmente, de matrizes dentro das fazendas americanas.

O USDA contabilizou somente 28,5 milhões de vacas de corte em 1º de julho de 2026, enquanto o país tenta reconstruir um rebanho que chegou aos menores níveis observados em várias décadas.

É justamente essa combinação que mantém o mercado extremamente volátil.

De um lado, frigoríficos tentam pressionar o boi para baixo. Do outro, pecuaristas sabem que a disponibilidade de animais permanece curta. Enquanto isso, a carne no atacado continua valorizada.

Por que isso importa para o Brasil?

O comportamento do mercado americano permanece estratégico para a carne brasileira.

Se os Estados Unidos continuarem enfrentando redução do abate e dificuldade para recompor seu rebanho, a necessidade de complementar a oferta doméstica com carne importada tende a permanecer elevada.

O USDA registra que as importações americanas de carne bovina já alcançaram recordes nos últimos anos e que o Brasil ganhou participação relevante entre os fornecedores desde a reabertura do mercado para carne fresca brasileira.

A disputa, porém, não acontece apenas pelo volume.

Com pouca matéria-prima disponível dentro dos Estados Unidos, frigoríficos precisam decidir até onde conseguem elevar o preço pago pelo gado sem comprometer suas margens. Ao mesmo tempo, consumidores encontram carne bovina historicamente cara.

O fechamento de 9 de setembro mostrou exatamente essa tensão: o futuro do boi recuou, praticamente não houve negociação física, mas a carne Choice voltou a subir.

Esse descompasso reforça que, apesar das medidas de curto prazo adotadas por Washington, a escassez de oferta ainda está longe de ser resolvida — e continua abrindo espaço para mudanças importantes no fluxo mundial de carne bovina, inclusive para o Brasil.

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