Operações previstas para setembro devem retirar centenas de animais das áreas públicas do Oeste americano, enquanto entidades questionam o uso de helicópteros e defendem métodos alternativos de controle populacional.
Uma cena que parece saída de um filme do Velho Oeste voltou ao centro de uma forte discussão nos Estados Unidos: helicópteros perseguindo grupos de cavalos selvagens para conduzi-los a áreas de captura. Em setembro, novas operações estão previstas em diferentes pontos do Oeste americano, colocando frente a frente autoridades federais, organizações de proteção animal e políticos.
O tema ganhou repercussão após a divulgação de um mapa com possíveis locais das operações previstas para este mês. Entre as áreas monitoradas estão Nut Mountain, Bitner, Massacre Lakes, Challis, Sand Wash Basin, Fifteenmile e Jackson Mountains, espalhadas por diferentes estados do Oeste dos EUA.
Por trás das imagens impactantes existe uma questão complexa: o que fazer quando a população de cavalos selvagens cresce além da capacidade estimada das terras públicas?
Por que os Estados Unidos estão capturando cavalos selvagens?
O Bureau of Land Management (BLM), órgão federal responsável pela administração de milhões de hectares de terras públicas americanas, sustenta que as capturas são uma ferramenta de manejo.
Segundo a justificativa apresentada no material, populações de cavalos selvagens e burros podem dobrar em aproximadamente quatro ou cinco anos quando não há controle populacional. O crescimento poderia fazer com que os animais ultrapassassem a disponibilidade de alimento e água, além de aumentar a pressão sobre as pastagens.
O objetivo oficial, portanto, é manter cada população dentro de um chamado “nível apropriado de manejo”, calculado de acordo com a capacidade da área de sustentar cavalos, fauna silvestre, animais de produção e outros usos autorizados. Além da retirada de animais, programas de controle de fertilidade também podem ser utilizados.
E os números previstos para algumas operações ajudam a mostrar a dimensão do manejo.
Na região de Fifteenmile, em Wyoming, uma operação prevista para começar em 15 de setembro poderia retirar aproximadamente 286 animais. Outras ações citadas no documento incluem cerca de 48 animais em Nut Mountain, 71 em Bitner, 32 em Massacre Lakes e 172 em Challis.
Helicópteros se tornaram o centro da polêmica
É justamente a maneira como parte desses cavalos é reunida que transformou o manejo populacional em uma disputa nacional.
Helicópteros são empregados para localizar e conduzir os animais por grandes extensões até estruturas de contenção. A fotografia apresentada no material mostra uma dessas operações, com uma aeronave voando em baixa altitude enquanto conduz um grupo de cavalos selvagens.
Entidades de proteção dos animais argumentam que esse tipo de perseguição pode provocar estresse e exaustão, além de aumentar o risco de ferimentos. Outro ponto criticado é a possibilidade de separar grupos familiares formados naturalmente pelos cavalos.
A American Wild Horse Conservation (AWHC) afirma ainda que o atual sistema direciona milhares de animais protegidos pelo governo federal para instalações de manutenção. Segundo a organização, mais de 63 mil cavalos e burros já estariam nesse sistema, com custo anual superior a US$ 100 milhões.
A entidade defende uma utilização maior do controle de fertilidade como alternativa para reduzir gradualmente o crescimento das populações sem retirar tantos animais das áreas onde vivem.
Colorado pede suspensão das operações
A discussão ganhou também dimensão política.
O governador do Colorado, Jared Polis, e o deputado federal Joe Neguse pediram ao BLM a suspensão imediata de operações previstas no estado.
Segundo as informações apresentadas no documento, os políticos citaram uma operação na área Piceance-East Douglas, onde aproximadamente 800 cavalos teriam sido capturados e seis morreram durante os trabalhos.
Outra preocupação envolve Sand Wash Basin. Uma operação prevista para a região poderia reduzir a população local em mais de 60%.
Polis e Neguse reconheceram a necessidade de administrar populações que estejam acima da capacidade sustentável das áreas, mas classificaram as capturas realizadas com helicópteros como desnecessárias e desumanas, defendendo maior avaliação de métodos alternativos.
Uma disputa que vai além da proteção dos cavalos
O impasse mostra como a presença dos cavalos selvagens nos Estados Unidos envolve muito mais do que uma discussão sobre bem-estar animal.
De um lado, autoridades precisam administrar água, pastagens e capacidade de suporte de áreas públicas compartilhadas entre cavalos, fauna nativa, pecuária e outros usos. Sem algum tipo de controle, o crescimento rápido das populações pode aumentar a pressão sobre recursos naturais limitados.
Do outro, organizações questionam se retirar milhares de animais — especialmente utilizando helicópteros — representa a melhor solução econômica e de bem-estar no longo prazo.
É justamente aí que está o centro da discussão americana: praticamente todos concordam que as populações precisam ser manejadas; a disputa está em como fazer isso.
Com novas operações programadas para setembro, os cavalos selvagens que se tornaram um dos grandes símbolos das paisagens do Oeste americano voltam ao centro de uma questão difícil de resolver: como preservar esses animais sem permitir que seu próprio crescimento populacional comprometa as terras das quais dependem?
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