Cavalos enfrentam -5°C e pastam em campo congelado na Serra Catarinense

Cena registrada pelo fotojornalista Mycchel Legnaghi em São Joaquim mostra cavalos e mulas pastando sobre campos congelados; frio intenso, geada forte e rusticidade dos animais reforçam a identidade da pecuária de altitude na Serra Catarinense.

A manhã desta quarta-feira (8) começou com uma das imagens mais marcantes do inverno na Serra Catarinense: cavalos e mulas pastando tranquilamente sobre uma vegetação coberta por gelo, em meio a temperaturas próximas de -5°C em São Joaquim. O registro foi feito na região dos Caminhos da Neve, uma das áreas mais conhecidas do município quando o assunto é frio extremo, geada forte e paisagens rurais congeladas.

A cena chama atenção pela beleza, mas também pelo que representa para o campo. Em uma região onde o inverno faz parte da rotina produtiva, os animais criados em altitude desenvolvem maior rusticidade e convivem com temperaturas negativas de forma mais natural do que rebanhos mantidos em áreas de clima quente. Ainda assim, especialistas alertam: frio, geada, vento e umidade exigem manejo atento, principalmente quando há animais jovens, idosos, magros, debilitados ou em produção.

Segundo a Epagri/Ciram, Santa Catarina estava sob influência de uma massa de ar frio e seco de origem polar, com tempo estável, sol e temperatura baixa ao amanhecer. A previsão indicava máximas de apenas 15°C a 17°C nos Planaltos nesta quarta-feira, além de condição para novas geadas em áreas altas nos dias seguintes.

Nos Caminhos da Neve, o frio foi suficiente para deixar a vegetação completamente branca e congelar parte da água acumulada em áreas abertas. As imagens registradas pelo fotojornalista Mycchel Legnaghi, do ND Mais, mostram cavalos e mulas caminhando e se alimentando sobre a camada de gelo, em uma paisagem típica dos campos de altitude da Serra.

O fenômeno costuma ser mais intenso nas primeiras horas do dia. Com o avanço da manhã e a incidência do sol, a geada derrete gradualmente, liberando novamente o acesso ao pasto. Esse comportamento é comum em episódios de geada branca, quando a superfície perde calor durante a madrugada e a umidade próxima ao solo congela sobre plantas, cercas, veículos e áreas descobertas.

O frio foi amplo em Santa Catarina. Levantamento meteorológico divulgado nesta quarta apontou temperaturas negativas em municípios da Serra, com destaque para Bom Jardim da Serra, que chegou a -6,1°C, além de marcas próximas de -5°C em Urupema e São Joaquim.

A imagem de cavalos pastando sobre gelo pode causar estranhamento para quem vive em regiões mais quentes do Brasil, mas, na Serra Catarinense, esse tipo de cena é parte da rotina de inverno. Animais criados nessas condições tendem a ser mais adaptados ao frio por três fatores principais: pelagem mais densa, aclimatação gradual e rusticidade do sistema de criação.

Essa adaptação, no entanto, não significa ausência de risco. O ponto crítico não é apenas a temperatura negativa isolada, mas a combinação entre frio intenso, vento, chuva, umidade, baixa oferta de alimento e perda de condição corporal. É essa soma que pode comprometer o bem-estar animal e gerar prejuízos ao produtor.

Cavalos e mulas pastando tranquilamente sobre uma vegetação coberta por gelo em São Joaquim. Foto: Mycchel Legnaghi

A Embrapa orienta que, em períodos de baixas temperaturas, o produtor deve proteger os animais de correntes de vento, usar áreas com barreiras naturais ou vegetais e manter atenção especial à nutrição e ao escore corporal do rebanho.

Na prática, a geada não é apenas um fenômeno visual. Ela altera a rotina da fazenda porque reduz temporariamente a disponibilidade de pasto verde e pode queimar parte da forragem, principalmente quando os episódios se repetem por vários dias.

Em áreas de pecuária, isso exige planejamento. A recomendação técnica é avaliar a condição dos animais, garantir acesso à água, manter suplementação e observar se o pasto congelado ou queimado ainda pode ser consumido antes de perder qualidade. A Embrapa também alerta que, após geadas, pode ser necessário acelerar o consumo da forragem desidratada antes que chuvas posteriores favoreçam a deterioração por fungos.

No caso dos equinos, o cuidado passa por três pontos centrais: volumoso de qualidade, água limpa e áreas protegidas contra intempéries. Manual técnico sobre equídeos disponível na Infoteca da Embrapa destaca que criações em pastagem devem contar com água, suplementação, sombra, quebra-ventos e áreas protegidas para descanso, além de atenção a locais encharcados, que podem predispor problemas nos cascos.

São Joaquim é conhecida nacionalmente pelas temperaturas baixas, mas o frio não é apenas um atrativo turístico. Ele molda a economia rural da região. A altitude, as horas de frio e a amplitude térmica ajudaram a consolidar atividades como produção de maçã, vinhos de altitude, pecuária em campos serranos e turismo rural.

A própria Epagri aponta que São Joaquim representa uma fatia expressiva da maleicultura brasileira. Levantamento da empresa mostrou que o município passou de 8.692 hectares de maçã em 2020 para 10.023 hectares em 2023, concentrando 63% da área cultivada em Santa Catarina e 30% da área cultivada no Brasil.

Foto: Mycchel Legnaghi

Esse dado ajuda a explicar por que o frio, embora severo, também é parte do valor econômico da Serra. Em culturas temperadas, como maçã e uva, as baixas temperaturas cumprem papel importante no ciclo produtivo. Em artigo técnico da Epagri/Cepa, a região de produção da maçã Fuji de São Joaquim é descrita como área acima de 1.100 metros de altitude, com horas de frio acima da média brasileira, condição que contribui para características específicas da fruta.

O registro dos animais sobre a geada viraliza pela força da imagem: cavalos em uma paisagem congelada, em um Brasil que muitos ainda associam apenas ao calor tropical. Mas, para o produtor rural, a cena também reforça uma mensagem prática: o inverno precisa ser manejado antes de virar problema.

Animais bem nutridos, aclimatados e com acesso a abrigo natural tendem a enfrentar melhor o frio. Já rebanhos debilitados, com baixa reserva corporal ou expostos a vento e umidade, podem sofrer queda de desempenho, perda de peso, problemas respiratórios e maior demanda energética.

Por isso, em regiões de altitude, a beleza da geada deve caminhar junto com planejamento forrageiro, suplementação estratégica e observação diária dos animais. A Serra Catarinense sabe conviver com o frio, mas é justamente essa experiência acumulada que mostra: rusticidade ajuda, manejo decide.

Os cavalos e mulas flagrados pastando sobre a vegetação congelada em São Joaquim representam mais do que uma cena curiosa do inverno brasileiro. Eles simbolizam a relação entre clima, território e produção rural em uma das regiões mais frias do país.

Na Serra Catarinense, o frio intenso faz parte da paisagem, da economia e da identidade local. Ele atrai turistas, favorece culturas de clima temperado e exige produtores atentos. Quando a geada cobre os campos, o espetáculo dura poucas horas; mas os desafios e aprendizados que ela impõe ao campo permanecem durante toda a estação.

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